Moradores da Rocinha acreditam que UPP só terá efeito a longo prazo | Rio das Ostras Jornal

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Moradores da Rocinha acreditam que UPP só terá efeito a longo prazo

Favela da Rocinha recebe hoje sua UPP - Unidade
de Polícia Pacificadora (Foto: Janaína Carvalho).

Saúde, educação e infraestrutura estão entre queixas da população.
Rocinha consta como a 3ª região com maior índice de tuberculose no Rio.

Submetida ao descaso do poder público e ao domínio do tráfico durante décadas, a população da Rocinha, no Rio de Janeiro, ainda olha com descrença à instalação da UPP da comunidade, que acontece nesta quinta-feira (20). Para muitos, a garantia de uma vida melhor para os moradores só ocorrerá a longo prazo.

Problemas relacionados à saúde, cultura, educação e infraestrutura são queixas constantes de quem cresceu na comunidade. Natural do Rio Grande do Norte e moradora da comunidade há cerca de 40 anos, Francisca Elisa de Medeiros, mais conhecida como Elisa da Rocinha, acredita que as mudanças não sejam imediatas. “Preciso esperar uns 20 anos para dizer se deu certo. Você encurrala a bala e a violência em um lugar e diz que mudou. Na verdade, não mudou nada. De nada adianta a segurança se a mudança não começar pela educação. O problema do pobre não é a violência, o problema do pobre é social”, afirma Elisa, que há 40 anos alfabetiza as crianças da Rocinha.

No começo, segundo ela, as crianças eram alfabetizadas em um barracão. “Essa era a única forma que os filhos de moradores da Rocinha tinham para aprender a ler e a escrever. Ainda tenho sonho de fazer uma escola para adultos, pois ainda tem gente aqui que não é alfabetizada”, afirma.

Hoje em dia, a escola de Elisa tem 10 salas de aula, onde recebe cerca de 200 crianças, cujos pais dão contribuições voluntárias à escola. Além das educadoras da comunidade, atualmente a Rocinha possui 2 creches e 4 escolas municipais, que atendem 2.262 alunos. No entorno da comunidade também há outras escolas, tanto da rede municipal, como da rede estadual, que atendem cerca de 3 mil alunos.

Outro grave problema que a comunidade enfrenta é na área da saúde. A Rocinha consta como a terceira região do Rio com maior incidência de tuberculose da cidade. Segundo dados da secretaria municipal de Saúde, em 2011 foram registrados 261 casos na comunidade, que ficou atrás apenas de Campo Grande e Bangu.

De acordo com a secretaria, a taxa de cura no bairro, que chegou a ter a pior incidência da cidade, hoje é de 84%. Os resultados estão associados à ampliação da cobertura de Saúde da Família na região, que é de 100%, segundo a secretaria.

Na maior favela do Brasil, segundo o último censo do IBGE a Rocinha tem 69.161 habitantes, ainda se vê valões onde o esgoto corre a céu aberto. “Mesmo sem o tráfico e atividade bélica, o poder público ainda não chegou junto. Mas você já começa a perceber uma mudança no ensaio de olhares”, diz o jornalista Carlos Costa, 49 anos, que nasceu na comunidade na época em que as mulheres pegavam água em bicas d’água.

Crescimento da comunidade

O grande "boom" da Rocinha aconteceu na década de 70, mesmo época em que o tráfico de drogas começou a crescer. “A lógica do enfrentamento mudou muito ao longo dos anos. Dependia sempre de quem estava no comando da comunidade. O período do Bem-Te-Vi foi muito pauleira e isso para o morador é complicado porque acaba a ‘regra’. Você não sabe o que pode acontecer e aonde. Não sabe quando o cara vai amanhecer tranquilo e não quer confronto ou não”, lembra Carlos.

O traficante que dominou a Rocinha por um maior período foi Denir Leandro da Silva, conhecido como Denis. Ele ficou 20 anos à frente da comunidade, foi preso em 1987 e assassinado no presido Bangu 1 em 2001. A execução teria sido ordenada por Fernandinho Beira-Mar após Denis negar um pedido do traficante para abrigar um depósito de drogas na comunidade. Depois de Denis a Rocinha ganhou outros “donos” como Naldo, Dudu, Lulu, Bem-Te-Vi e o Nem.

Antes sob a mira das armas dos criminosos, agora convivendo com as armas dos policiais, os moradores ainda não se sentem despreocupados com a presença da polícia na favela. “Antes passava por uma rua onde ficavam os traficantes. Hoje, depois da ocupação, passo pelos policiais. Se não é a arma de um, é de outro”, afirma o historiador Fernando Ermiro, que faz parte de projetos culturais da comunidade, como a criação do Museu Sankofa na Rocinha.

Segundo Fernando, há um longo caminho a ser percorrido para a realidade da comunidade mudar totalmente. “Se você tem uma vala na frente da sua casa, você vai pensar na vala, vai falar sobre a vala, vai filosofar sobre a vala. Essa é a realidade e se isso não for mudado, a mentalidade das pessoas também não muda”, afirma o historiador.

Com mais de 6.529 estabelecimentos comerciais, além de 4 agências bancárias, a Rocinha passa por um reordenamento da atividade econômica e ainda deve passar por várias mudanças. De acordo com Ronaldo Batista do Nascimento, integrante do Fórum Cultural da Rocinha, o grande questionamento dos moradores neste momento é com relação ao futuro. “A população ainda está insegura, sem saber ao certo o que acontecerá”, diz ele.
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