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Planilha
mostra coleta de R$ 15,5 milhões no local
Eduardo Anizelli/Folhapress
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Valores eram
entregues por policiais militares à paisana aos intermediários dos políticos em
residências, escritórios e quartos de hotéis
Uma sala
comercial no terceiro andar de um prédio na Avenida Faria Lima, principal
corredor financeiro de São Paulo, serviu como "bunker" para armazenar
notas de dinheiro obtidas por doleiros com lojistas chineses da região da Rua
25 de Março para a Odebrecht pagar propina e caixa 2 a políticos e agentes
públicos na capital paulista.
Planilha da
transportadora de valores Transnacional, usada pela empreiteira no esquema,
mostra que R$ 15,5 milhões foram coletados no endereço e levados até a sede da
empresa, na Vila Jaguara, em 37 viagens feitas entre setembro de 2014 e maio de
2015.
Nos dias
seguintes às retiradas de dinheiro, os valores eram entregues por policiais
militares à paisana aos intermediários dos políticos em residências,
escritórios e quartos de hotéis.
Neste domingo,
o jornal O Estado de S. Paulo revelou que a mesma planilha indica que ao menos
187 entregas de dinheiro programadas pela Odebrecht foram efetivadas pela
Transnacional.
Os pagamentos,
cujas datas, valores e senhas coincidem com as que aparecem nas planilhas do
doleiro Álvaro José Novis e da própria empreiteira, estão relacionados a 57
codinomes criados pelos ex-executivos da empresa para ocultar a identidade do
beneficiário final da propina. O documento obtido pela reportagem está sob sigilo
por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Na planilha, as
retiradas de dinheiro no "bunker" da Faria Lima, cujos valores
variavam de R$ 120 mil a R$ 1,2 milhão, eram feitas com uma pessoa chamada
Walter. Investigações feitas pelo Ministério Público Federal do Rio descobriram
que a sala comercial havia sido alugada pelos doleiros Cláudio Fernando
Barboza, conhecido como "Tony", e Vinícius Claret, o "Juca
Bala" presos em 2017 pela Lava Jato acusados de atuarem no esquema de
lavagem de dinheiro do ex-governador Sérgio Cabral (MDB).
Após firmar
acordo de delação premiada, a dupla relatou que alugou o espaço para armazenar
o dinheiro que o doleiro chinês Wu Yu Sheng arrecadava com comerciantes da
região da 25 de Março maior centro de compras de São Paulo, para alimentar o
esquema da Odebrecht ou para repatriação ilícita de dólares acumulados no
exterior por outros clientes.
O chinês, que
se mudou para Miami (EUA) após a deflagração da Lava Jato e ainda está
foragido, foi apresentado pelos próprios executivos da Odebrecht à dupla de
doleiros em 2010, em Montevidéu, no Uruguai, pela facilidade em conseguir
dinheiro em espécie.
Na prática,
Sheng vendia para a empreiteira os reais arrecadados em espécie na 25 de Março
e recebia o pagamento em dólares em contas bancárias em Hong Kong, por meio de
transações feitas por offshores. Nas planilhas da Odebrecht ele era
identificado com o codinome "Dragão".
Tony e Juca
Bala, por sua vez, tinham reconhecida estrutura logística de armazenamento e
distribuição de dinheiro no Brasil. Segundo eles, a parceria com o chinês teve
início em agosto de 2010 e movimentou cerca de US$ 210 milhões até 2016.
As entregas do
dinheiro arrecadado com os lojistas eram feitas por três funcionários de Sheng
no bunker da Faria Lima e chegavam a R$ 1 milhão por dia no auge dos pagamentos
de propina.
Os valores eram
recebidos por um funcionário dos doleiros chamado Walter Mesquita, o mesmo que
depois entregava o dinheiro para a Transnacional.
Hotéis
Em depoimento
ao Ministério Público, Mesquita disse que no início Sheng pedia que os recursos
fossem recolhidos diretamente pela transportadora em um bunker mantido por ele
na Rua Barata Ribeiro, região central, mas que, após sofrer um assalto, o
chinês parou de ter endereço fixo e passou a fazer entregas em hotéis ou salas
alugadas pelos doleiros.
Na planilha da
Transnacional, o nome Walter aparece ainda ao lado de outros seis endereços de
hotéis e flats nos bairros Itaim-Bibi e Jardins onde a transportadora recolheu
mais R$ 8,9 milhões do esquema operado pelos doleiros Tony, Juca Bala e Sheng
para a Odebrecht. Já as entregas do dinheiro eram programadas por Álvaro José
Novis, segundo a investigação.
O documento da
transportadora mostra ainda outros endereços de coleta de dinheiro com nomes
diferentes de entregadores. Na lista há três sedes de empresas do setor têxtil
nas regiões do Brás e da Barra Funda, uma empresa de cartões no Jardim Jaraguá
e até uma casa na Vila Madalena.
Agência Estado

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