MPF solicita
à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que avalie se deve requerer ao
STF a suspeição ou o impedimento do ministro. Segundo procuradores, Aloysio
Nunes atuou em interesse próprio 'junto ao ministro Gilmar Mendes valendo-se de
relação pessoal'.
Os procuradores
da força-tarefa da Lava Jato pediram à procuradora-geral da República, Raquel
Dodge, que avalie se deve requerer ao Supremo Tribunal Federal que o ministro
Gilmar Mendes não atue mais em casos envolvendo o ex-senador Aloysio Nunes (PSDB)
e Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do PSDB.
O documento,
enviado nesta quarta-feira (6) à Procuradoria Geral da República (PGR), cita
ligações telefônicas de Aloysio Nunes com o gabinete de Gilmar Mendes e com o
ex-ministro Raul Jungmann.
Paulo Vieira de
Souza e Aloysio Nunes foram
alvos da 60ª fase da Operação Lava Jato. O empresário foi preso,
investigado por atuar como operador financeiro em um esquema de lavagem de
milhões de reais em favor da Odebrecht. A casa do ex-senador foi alvo de
mandado de busca e apreensão.De acordo com o Ministério Público Federal (MPF),
"em fevereiro de 2019, Aloysio Nunes Ferreira Filho atuou, em interesse
próprio e do também investigado Paulo Vieira de Souza, junto ao ministro Gilmar
Mendes, valendo-se de relação pessoal com este, para produção de efeitos
protelatórios em processo criminal em trâmite na 5ª Vara da Justiça Federal de
São Paulo".
No histórico de
conversas telefônicas e mensagens apresentado pelo MPF, há uma conversa de 11
de fevereiro do advogado José Roberto Figueiredo Santoro com o ex-senador.
- José Roberto Figueiredo Santoro:
"Caríssimo você falou com nosso amigo?"
- Aloysio Nunes: "Falei. Resposta vaga:
sim, já estou sabendo... Compreensível dadas as circunstâncias."
- José Roberto Figueiredo Santoro: "Vc é
um anjo."
De acordo com o
MPF, o trecho indica que Nunes "havia conversado, ao que tudo indica, com
o Ministro Gilmar Mendes".
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Entenda a
60ª fase da Operação Lava Jato — Foto: G1/Arte
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No mesmo dia, o
documento mostra que Aloysio Nunes fez ligações e recebeu telefonemas do
gabinete de Gilmar Mendes.
Paralelamente,
o ex-senador também trocou telefonemas e mensagens com Raul Jungmann. O pedido
do MPF descreve as mensagens:
- Aloysio Nunes: "Falei".
- Raul Jungmann: "E?!?!"
- Aloysio Nunes: "Vago, cauteloso, como
não poderia ser diferente."
Segundo o MP,
dois dias depois, no dia 13 de fevereiro, o advogado José Roberto Figueiredo
Santoro informou o ex-senador por mensagem de celular que "o ministro
Gilmar Mendes deferiu o habeas corpus nº167727, em que figurava como
interessado Paulo Vieira de Souza, afilhado político de Aloysio Nunes Ferreira
Filho".
Na
oportunidade, Gilmar Mendes determinou o reinício da coleta de provas em um
processo de Paulo Vieira de Souza.
O documento
mostra que, no dia seguinte, Nunes e Jungmann trocaram mensagens:
- Aloysio Nunes: "Nosso causídico é
foda!"
- Raul Jungmann: "Sr de
escravos.."
De acordo com
os procuradores, as conversas evidenciam "a interferência de Aloysio Nunes
Ferreira Filho, em interesse próprio e do também investigado Paulo Vieira de
Souza, junto ao Ministro Gilmar Mendes, valendo-se de relação pessoal com este,
para produção de efeitos protelatórios em processo criminal em trâmite na
Justiça Federal de São Paulo".
O MPF destaca
no pedido que a "gestão junto a Gilmar Mendes" não foi feita pelo
advogado, mas pelo ex-senador Aloysio Nunes.
"De forma
muito mais acintosa, o contato foi feito pelo próprio investigado da Operação
Lava Jato, Aloysio Nunes Ferreira Filho, com o E. Ministro do Supremo Tribunal
Federal".
O que dizem
os citados
O gabinete de
Gilmar Mendes informou que o ministro não vai se pronunciar sobre o documento.
Informou, também, que se manifestará no processo caso haja algum questionamento
ou pedido de suspeição.
Segundo o
gabinete do ministro, a decisão que beneficiou Paulo Vieira de Souza foi
derrubada pelo próprio ministro da semana passada diante de informações
prestadas pela Justiça de São Paulo.
A assessoria de
Aloysio Nunes Ferreira declarou que ele não vai se manifestar até se informar
sobre os fatos.
O ex-ministro
Raul Jungmann declarou que o papel dele no caso se resume a atender ao pedido
de Aloysio Nunes e dar a ele o telefone de Gilmar Mendes.
O G1 tenta
contato com os demais citados.
'Ad Infinitum'
Nas
investigações da 60ª fase da Lava Jato, batizada de 'ad infinitum', os
procuradores da força-tarefa identificaram que a Odebrecht transferiu, em 2007,
€ 275.776,04 para uma conta de Paulo Vieira de Souza.
A apuração
identificou que, no mês seguinte à transferência, foi emitido um cartão de
crédito em nome de Aloysio Nunes Ferreira, vinculado à conta de Paulo Vieira de
Souza. O banco foi orientado a entregar o cartão de crédito no Hotel Majestic
Barcelona, na Espanha, onde o Nunes estava hospedado.
Por Pedro Brodbeck, G1 PR

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