Com país às
escuras e colapsado, Maduro e Guaidó disputam quem é capaz de tirar Venezuela
da crise.
Os dois presidentes da Venezuela se acusam
pelo mais longo apagão de todos os tempos no país e disputam quem está mais
capacitado para gerir o caos provocado por colapso em hospitais e aeroportos,
saques em lojas e mercados, alimentos que deterioram e um elenco interminável
de mazelas no quinto dia sem energia elétrica.
“Não há maior símbolo do escurecimento de um
país do que a luz que cessa, a luz que acaba”, resumiu o embaixador Marcos
Azambuja, ex-secretário-geral do Itamaraty em debate sobre a crise venezuelana,
promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), em
parceria com a Firjan.
Nicolás Maduro
apresentou um plano de quatro pontos para garantir o funcionamento de
hospitais, onde morreram pelo menos 20 pessoas desde o início o apagão, e a
distribuição de água e alimentos. Juan Guaidó decretou situação de emergência
nacional, pediu aos militares que suspendam o fornecimento de petróleo e
derivados para Cuba e convocou a população para protestar esta tarde. Ato
contínuo, Maduro chamou sua tropa de milicianos a impedir os protestos.
E assim caminha a Venezuela de Maduro rumo ao
atestado de óbito, conforme coincidiram os especialistas que participaram do
debate desta segunda-feira.
Comandante até dezembro passado da 1ª Brigada
de Infantaria de Selva, em Boa Vista, o general Gustavo Dutra de Menezes
acostumou-se a enfrentar uma média de dez cortes energia diários em Roraima,
que depende do sistema elétrico venezuelano. Por isso, derruba a tese de um
ataque cibernético vindo de fora ou da oposição, propagada por Maduro para
justificar este apagão.
“A Venezuela está falida e dividida. Os
militares se corromperam de maneira absurda, construíram um Estado paralelo,
envolvidos em narcotráfico e roubo. Maduro é apenas um fantoche. Vejo com muita
dificuldade a reconstrução da Venezuela sem uma convulsão interna”, atestou o
militar.
Do ex-presidente do Instituto Brasileiro de
Petróleo (IBP) Jorge Camargo veio outro um prognóstico pessimista para quem
alimenta esperanças de que a maior fonte de riqueza da Venezuela ajudará o país
a sair da indigência. “Isso não acontecerá. Serão necessários investimentos de pelo
menos US$ 20 bilhões, e as instituições jurídicas do país não inspiram
confiança na indústria privada.”
Sucateada, com refinarias operando a 20% de
sua capacidade e comandada por militares corruptos, a PDVSA é, a seu ver, o
maior obstáculo para esta recuperação. “O chavismo demitiu 80% de seu pessoal
qualificado, é uma empresa imprivatizável.”
A crença de que a Venezuela tem as maiores
reservas de petróleo do mundo se desmonta pelos altos custos de seu refino.
Camargo derrubou mais um mito alardeado pelo regime -- o de que os EUA precisam
do petróleo da Venezuela, daí o interesse do país na saída de Maduro:
“Os EUA são
autossuficientes. Quem precisa do mercado americano é a Venezuela. Botam a
culpa na maldição do petróleo, mas o que temos são dirigentes corruptos. E
neste ponto a Venezuela foi insuperável.”
O diagnóstico da situação catastrófica em que
se encontra a Venezuela é bastante conhecido, mas analistas têm dificuldades de
antever ou traçar uma saída pacífica para o fim do ciclo político bolivariano
de duas décadas. Por enquanto, Juan Guaidó tem apoio maciço no exterior. Mas
ainda falta consolidar o respaldo interno.
Por Sandra Cohen, G1

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