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Cédulas de
dinheiro no bolso
Foto: Arquivo/Agência Brasil
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Com o fim da
vigência da lei aprovada em 2015, Executivo fica livre para definir se haverá
reajuste anual e, em caso positivo, como ele será calculado; mudança afeta 48
milhões de brasileiros.
O reajuste do
salário mínimo anunciado no primeiro dia de governo Bolsonaro, de R$
954 para R$ 998, impactou diretamente a vida de pelo menos 48 milhões de
brasileiros.
Esse é o número
estimado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos) de pessoas que têm a renda referenciada no mínimo, seja porque
esta é sua remuneração ou porque recebem aposentadoria ou pensão do INSS.
O valor
sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro é R$ 8 inferior ao que já havia sido
aprovado pelo Congresso no Orçamento enviado pela equipe de Temer, R$ 1.006.
A mudança gerou
insatisfação em muita gente, mas estava dentro da lei: levou em consideração o
PIB (Produto Interno Bruto) de dois anos antes - o de 2017, que foi de 1% - e a
inflação do ano anterior - o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) em
2018, que será informado apenas no fim deste mês e que foi estimado em 3,6%.
A proposta
feita pela equipe de Temer incorporava uma projeção mais elevada para a
inflação de 2018, de 4,2%.
Salário mínimo até 2019
Veja a variação dos valores nos últimos anos
2014
724
724
Fonte: governo federal
Desde 2011 o
Brasil usa a mesma fórmula para o cálculo. Ela foi negociada pelas centrais
sindicais ainda no governo Lula, adotada por volta de 2008 e formalizada em lei
no governo Dilma Rousseff. A medida, com duração de 4 anos, foi renovada em
2015 e perde a validade neste ano.
O salário
mínimo é uma medida importante não apenas no Brasil ou em países com alto nível
de pobreza - nos últimos anos, ele tem sido tema nacional de debate inclusive
em países desenvolvidos.
Parte dos
economistas acredita que, em um mundo em que os sindicatos perdem cada vez mais
relevância e os laços entre empresas e empregados se tornam mais etéreos, a
existência de um patamar mínimo de renda fixado pelo Estado é um importante
mecanismo para evitar o aumento da desigualdade.
Outros defendem
que um valor estipulado por lei como nível mínimo das remunerações desestimula
contratações formais, na medida em que torna mais cara a folha de pagamentos
das empresas, e, por isso, aumenta o desemprego.
O que vai
acontecer com o salário mínimo daqui para frente?
Em tese, o novo
governo tem até abril para definir se mantém a regra atual ou se propõe algo
diferente.
Com o fim da
vigência da lei aprovada em 2015, o Executivo fica livre para definir se haverá
reajuste anual e, em caso positivo, como ele será calculado - se baseado apenas
no índice de inflação, por exemplo, em vez da fórmula "inflação mais
PIB".
Abril é o
prazo para que o Executivo envie ao Congresso a proposta de Orçamento para 2020
- e, como o salário mínimo é base para uma série de pagamentos da União, como
as aposentadorias, a equipe econômica precisa estipular seu valor para ter uma
dimensão de quanto vai gastar.
Na prática, o
governo teria até o fim do ano para formalizar a mudança através de um projeto
de lei.
Uma das
questões em torno do salário mínimo é justamente seu impacto sobre as finanças
do governo. A Constituição de 1988 o fixou como piso dos benefícios pagos pelo
INSS, pela assistência social e para o seguro desemprego.
O Dieese
estima, por exemplo, que cada real de reajuste no salário mínimo aumenta em
cerca de R$ 302 milhões os gastos da Previdência em um ano.
Aumentos reais do salário mínimo
Ganho frente à inflação medida pelo INPC, em %
2009
5,79
5,79
Fonte: Dieese
Salário
mínimo e reforma da Previdência
Ao contrário do
reajuste em si, que deve ser proposto por meio de Projeto de Lei, a indexação
do salário mínimo aos benefícios previdenciários e assistenciais só poderia ser
modificada por meio de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), que exige
apoio mais amplo do Congresso para ser aprovada.
Algumas das
propostas de reforma da Previdência apresentadas durante a transição de governo
ao ministro da Economia, Paulo Guedes, contemplam essa desvinculação - entre
elas está o estudo apresentado pelos economistas Paulo Tafner e Armínio Fraga e
outro entregue pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) com apoio
de entidades previdenciárias.
"Esse vai
ser um debate simultâneo ao do financiamento da Previdência", diz Clemente
Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese.
A entidade,
mantida pelo movimento sindical, defende a manutenção do vínculo entre salário
mínimo e benefícios pagos pelo INSS para "garantir certa distribuição da
riqueza" produzida pelo país e um nível mínimo de renda para as classes
mais baixas.
"Isso (o
reajuste pela regra atual e a indexação) é insustentável indefinidamente (do
ponto de vista das contas públicas)? Pode ser, mas o salário mínimo já é muito
aquém do necessário", ele afirma.
O Dieese estima
em cerca de R$ 3.960,00 o "salário mínimo necessário", que atenderia
necessidades básicas de uma família conforme estabelecido na Constituição, como
moradia, alimentação, educação, saúde e transporte.
Para
especialistas como o professor da FGV-EBAPE Kaizô Beltrão, não faz sentido que
as aposentadorias e pensões sejam reajustadas pela mesma regra que corrige os
salários de quem está na ativa.
"O
reajuste deveria ser apenas a reposição da inflação, já que o discurso do
salário mínimo é o de (incorporação nos salários dos) ganhos de
produtividade".
O governo
deve apresentar sua proposta de reforma da Previdência no início de fevereiro e
ainda não se manifestou sobre o salário mínimo - seja em relação à indexação ou
à fórmula de reajuste.
Uma década
de redução da desigualdade
A valorização
do salário mínimo é apontada como um dos motores por trás da redução da desigualdade
que o Brasil assistiu entre 2004 e 2015.
Seu valor, que
correspondia a cerca de 25% da renda média no país em 1995, saltou para mais de
40% recentemente, destaca o coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP)
do Insper, Naercio Menezes Filho.
O economista
lembra que, pela regra atual, o mínimo praticamente não sofreria aumento real
pelos próximos dois anos. Isso porque o crescimento esperado para a economia
para 2018 e 2019 - o PIB, variável que compunha o cálculo junto com o INPC -
ainda é modesto.
"A questão
seria se a economia voltar a crescer, quando a regra pode ter impacto forte
sobre as contas públicas", ele pondera.
Nesse sentido,
ele avalia que uma boa fórmula, "mais cautelosa", levaria e conta a
inflação mais crescimento do PIB per capita, em vez do PIB em si.
Visto por
muitos especialistas como indicador de bem-estar, o PIB per capita é a razão
entre a riqueza produzida pelo país e seu número de habitantes - e, por isso,
costuma variar menos do que o PIB.
"O que não
pode acontecer é voltar ao que já aconteceu, quando o salário mínimo chegou a
ficar sem qualquer reajuste", defende o especialista.
A polêmica
do salário mínimo nos países desenvolvidos
Depois de 15
anos de discussões, a Alemanha instituiu seu salário mínimo nacional em 2015.
Até então, o que valiam eram os pisos salariais negociados por cada categoria
com as entidades patronais.
Demanda antiga
do Partido Social Democrata (SPD), ele entrou na pauta do Legislativo quando os
democrata-cristãos (CDU) da sigla da chanceler Angela Merkel tiveram de fazer
uma ampla coalizão com o partido rival em nome da governabilidade.
O salário
mínimo de 8,5 euros por hora - reajustado para 9,19 euros por hora em 2019 -
foi adotado sob forte oposição das empresas. Na época, uma estimativa do Deutsche
Bank projetava a perda de cerca de 400 mil postos de trabalho por causa da
medida, que teoricamente tornaria alguns funcionários caros demais para as
empresas.
Até o ano
passado, a comissão formada por representantes das empresas, de sindicatos e da
academia, a Mindestlohn Komission, não havia encontrado evidências de impacto
significativo.
"Em um
nível macroeconômico, a introdução de um salário mínimo estatutário não mostrou
efeitos mensuráveis em indicadores padrão de competitividade como custo do
trabalho, custo unitário do trabalho, produtividade e lucro", diz o
documento divulgado em junho de 2018.
"O salário
mínimo virou uma forma de tentar proteger a renda dos mais pobres", diz
Naercio Menezes Filho, do Insper.
Também nos
países desenvolvidos os sindicatos, que já tiveram grande poder de barganha
para negociar salários, têm perdido força. O número de empregados na indústria
diminui e o do setor de serviços, mais pulverizado e com menor representação
sindical, só aumenta.
Nos Estados
Unidos, pontua o economista, a queda nos salários reais - ou seja, quando
descontada a inflação - nos últimos anos ajuda a explicar o aumento da
desigualdade no país. E é por isso que o debate sobre salário mínimo também
está em ebulição entre os americanos.
Um dos exemplos
com maior repercussão é o da cidade de Seattle, que aprovou em 2014 uma lei que
aumentava o salário mínimo de US$ 9,47 por hora para US$ 15, o dobro do piso
federal na época.
A justificativa
foi o avanço da desigualdade de renda e da pobreza na cidade desde a crise
financeira de 2008.
Por BBC


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