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© BBC Urbanista
coordenou proposta de criação do Ministério
das Cidades, mas deixou pasta após o mensalão
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Maior programa
habitacional da história do Brasil e uma das vitrines dos governos do PT, o
Minha Casa Minha Vida (MCMV) piorou as cidades, agravou as dificuldades de
acesso a moradia entre os mais pobres e criou bairros especialmente vulneráveis
ao crime organizado.
A avaliação é
de Ermínia Maricato, uma das mais experientes urbanistas do país e secretária
executiva do Ministério das Cidades nos primeiros anos do governo Lula, antes
da criação do programa, em 2009.
"Tivemos
um movimento imenso de obras, mas quem o comandou e definiu onde se
localizariam não foi o governo federal, e sim interesses de proprietários
imobiliários, incorporadores e empreiteiras", diz Maricato, que estuda o
MCMV desde sua implantação e é professora aposentada da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Em entrevista à
BBC Brasil em sua casa na Vila Madalena, em São Paulo, ela afirma que conjuntos
residenciais do programa erguidos longe dos centros urbanos levarão várias
décadas para se integrar às cidades. "Esse investimento gigantesco, aliado
a uma especulação de terras ciclópica, tornou as cidades ainda mais inviáveis
no Brasil."
Líder da
Reforma Urbana
Autora de nove
livros sobre habitação e urbanismo, Maricato coordenou a proposta de criação do
Ministério das Cidades, executada por Lula após sua ascensão à Presidência, em
2003.
Ela havia se
projetado nas décadas anteriores como uma das líderes do movimento pela Reforma
Urbana, que pretendia tornar as cidades brasileiras menos desiguais e se
organizava nas Comunidades Eclesiais de Base (grupos ligados à Igreja Católica
nas periferias e zonas rurais).
Maricato
discursou em nome do movimento na Assembleia Constituinte, em 1988, e articulou
a inclusão do conceito de função social da propriedade na Constituição. Um dos
principais trunfos de movimentos sem-teto e sem-terra, o conceito define que as
propriedades devem atender interesses coletivos, e não apenas individuais.
Entre 1989 e
1992, ela atuou como secretária da Habitação e Desenvolvimento Urbano no
governo da então petista Luiza Erundina, em São Paulo. A urbanista diz que um
de seus objetivos era tornar favelas e periferias menos insalubres, reduzindo a
incidência de epidemias e doenças pulmonares por falta de ventilação. Outra
prioridade era construir moradias em parceria com movimentos sociais.
Nesse modelo, o
governo providencia terrenos e contrata arquitetos e engenheiros para projetar
as casas. As unidades são construídas com recursos do governo pelos próprios
moradores ou com a ajuda deles. Ela afirma que o programa foi um grande
sucesso. O Minha Casa Minha Vida prevê a possibilidade de construir moradias
dessa maneira, mas os gastos com esse modelo representam 2% dos investimentos
totais do programa, segundo Maricato.
Ciclo virtuoso
Maricato diz
que, nos anos 1990, iniciativas bem sucedidas em habitação se espalhavam por
várias cidades, entre as quais Recife, Salvador, Belém, Goiânia e Porto Alegre.
Os avanços
ocorriam apesar dos tempos de vacas magras. "Tínhamos um ciclo virtuoso
produzindo políticas inovadoras. Esse ciclo se rompe exatamente no momento em
que o Ministério das Cidades é criado."
Não era isso o
que Maricato esperava ao batalhar pela criação do órgão, projetado para
integrar as políticas de habitação às de transporte, saneamento e regulação do
solo urbano.
Para chefiar o
órgão recém-criado, Lula escolheu um quadro histórico do PT: o ex-governador
gaúcho Olívio Dutra, que nomeou Maricato como secretária executiva. Ela conta
que seu objetivo era federalizar as experiências positivas das prefeituras. Os
trabalhos, porém, foram interrompidos com o escândalo do mensalão, quando o PT
foi acusado de comprar apoio político no Congresso.
Entre outras
medidas para acalmar sua base, Lula entregou o Ministério das Cidades ao
Partido Progressista (PP). Olívio e Maricato deixaram o órgão.
O governo
estava prestes a dar outro rumo às políticas urbanísticas e habitacionais - e
justamente quando os cofres do governo estavam mais cheios, graças à
arrecadação turbinada pela exportação de matérias-primas e pelo consumo das
famílias.
"Enquanto
não tínhamos recursos e estávamos sob ajuste fiscal, com dívida pesada, tivemos
controle sobre os gastos. Quando apareceram os recursos, os capitais tomaram
conta."
'Como uma luva'
Em 2008, para
tentar atenuar os efeitos da crise financeira global, o governo Lula buscou
estimular a construção civil. Muitas empresas do setor estavam
descapitalizadas.
"O Minha
Casa Minha Vida veio como uma luva: as empreiteiras e os incorporadores
imobiliários privados se reuniram em torno dele", diz Maricato.
Para tirar o
programa do papel, o governo transferiu recursos do Ministério das Cidades para
a Caixa. Nas obras da faixa 1, para famílias com renda de até R$ 1.600 por mês,
construtoras recebem recursos do banco para erguer as residências. O governo
arca com até 90% do custo dos imóveis, e o valor restante é quitado pelas
próprias famílias.
Nas faixas 2 e
3, que cobrem famílias com renda de até R$ 6.500, a Caixa oferece empréstimos
subsidiados às pessoas interessadas em comprar as residências.
Para as
construtoras participantes, uma das maneiras de ampliar os lucros é economizar
na compra dos terrenos - por isso muitas buscaram áreas mais baratas nos
arredores das cidades.
Segundo o
governo federal, o MCMV contratou a construção de cerca de 5 milhões de
residências, o que o torna o maior programa habitacional da história do país. A
Caixa diz que 14,7 milhões de pessoas - o equivalente a 7% da população
brasileira - já receberam moradias pelo programa.
Entre as
unidades contratadas, cerca de 39% se destinavam à faixa 1, 49%, à faixa 2, e
12%, à faixa 3.
Deficit
habitacional
Ao lançar o
programa, o governo Lula tinha como meta reduzir o deficit habitacional - que,
em 2009, era calculado em 5,7 milhões de domicílios pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea).
Maricato
afirma, porém, que nem sempre construir moradias é a melhor forma de reduzir o
deficit, pois o índice contabiliza moradias precárias, muitas das quais
poderiam se adequar aos padrões com reformas.
Outro problema,
segundo Maricato, é a contabilização de moradias habitadas por mais de uma
família. Em muitos casos, diz ela, as famílias moram juntas por opção.
"Entendo
que tanto os movimentos (de luta por moradias) quanto os empresários gostem de
trabalhar com o conceito de deficit, mas moradia é uma mercadoria especial, não
dá para pensá-la como fábrica de automóvel."
Segundo ela, a
mesma doutrina já havia dominado as políticas habitacionais durante a ditadura
militar (1964-1985), quando o Banco Nacional de Habitação (BNH) financiou a
construção de cerca de 4 milhões de residências, grande parte, em áreas
periféricas.
Maricato diz
que o Minha Casa foi concebido não no Ministério das Cidades, mas sim na Casa
Civil, à época chefiada pela então ministra Dilma Rousseff. "Mas o DNA do
programa vem da ditadura e das empreiteiras, exatamente como (a hidrelétrica
de) Belo Monte".
A BBC Brasil
enviou as críticas de Maricato sobre o programa ao PT, que sugeriu
encaminhá-las à assessoria de Dilma. A ex-presidente não quis se pronunciar.
Urbanização de
favelas
Maricato afirma
que, ao lançar o primeiro Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC), em 2007,
o governo ainda destinou investimentos significativos para a urbanização de
favelas, mas que esses recursos foram minguando à medida que o governo passou a
priorizar a construção de casas novas.
Para Maricato,
construir residências era importante, mas descuidar das favelas e periferias
foi um grande erro. "Tem que fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Construir sem regular as áreas já ocupadas gera uma demanda fora da cidade
consolidada."
Outro problema
sério, segundo ela, foi a construção de residências em áreas distantes dos
centros urbanos. "As cidades explodiram horizontalmente, algo que todo
urbanista condena, porque você tem de estender a rede de água, esgoto, de
transporte. Quem paga por isso? Todos. E os que ganham são muito poucos: as
empreiteiras, as incorporadoras imobiliárias e os donos de terrenos."
Ela conta que a
Caixa, executora do programa, criou uma regra para impedir a realização de
obras fora das cidades. Mas as Câmaras Municipais, responsáveis por definir as
zonas rurais e urbanas dos municípios, passaram a estender os limites dos
perímetros urbanos para atrair construções.
"As
Câmaras incluíram fazendas no perímetro urbano. O que acontece no fim de semana
nos conjuntos habitacionais criados nessas áreas? O ônibus não vai, você tem um
exílio na periferia."
A Caixa não
quis se pronunciar sobre as críticas de Maricato.
A urbanista
afirma ainda que, por estarem longe das cidades e dos empregos, os novos
bairros também são mais difíceis de policiar e vulneráveis ao crime organizado.
"A cidade
segura é compacta, com mix de uso: tem moradia e trabalho, está viva de dia e
de noite."
Ela diz ter
visitado conjuntos dominados por criminosos em Campina Grande (PB) e afirma que
40 mil pessoas que viviam no centro do Rio de Janeiro se mudaram para
condomínios do MCMV controlados por milícias na Baixada Fluminense. Em 2015, 39
desses conjuntos foram alvo de uma operação da polícia fluminense contra
milícias.
Valorização de
terrenos
Maricato diz
que um dos pontos positivos do MCMV foi criar um mercado para as classes
média-média e média-baixa. Até então, segundo ela, esses grupos tinham de construir
suas próprias casas.
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© BBC Condomínio
do MCMV em Campina Grande (PB) cercado
por propriedades rurais (Foto: Ermínia
Maricato)
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A professora
diz que investimentos do programa nas faixas 2 e 3 verticalizaram bairros em
Osasco, Guarulhos, São Bernardo do Campo e Santo André, nos arredores de São
Paulo.
"Foi
positivo para essas áreas. Mas tem um problema: o pessoal mais pobre foi
empurrado para a periferia da periferia, inclusive áreas de proteção de
mananciais. A fronteira de ocupação predatória foi ampliada, porque o preço da
terra subiu na periferia."
tro aspecto
positivo foi o alívio financeiro e melhoria das condições de habitação para as
famílias mais pobres beneficiadas pelo programa.
Nos conjuntos
que visitou por todo o Brasil, Maricato diz que a maioria das famílias está
satisfeita com as casas. "Antes, muitas delas viviam de aluguel. Hoje
pagam parcelas ínfimas e podem até alugar os imóveis."
Por outro lado,
afirma que os moradores passaram a perder mais tempo e dinheiro se deslocando
no cotidiano. Mesmo em cidades médias como Uberlândia (MG), Maricato diz que se
tornaram comuns casos de moradores do MCMV que levam até uma hora e meia para
chegar ao trabalho.
Em cidades
grandes, ela diz que muitas famílias vivem o seguinte dilema: ou gastam mais
para morar no centro e economizar com o transporte, ou vão para a periferia,
onde economizam com a moradia, mas gastam mais com o deslocamento.
Não é uma
equação fácil, afirma Maricato. Em São Paulo, o aluguel de um cortiço na região
central pode custar R$ 800 ou R$ 900, quase um salário mínimo. Na periferia, há
quem gaste R$ 400 ou mais com transporte público todo mês.
Segundo ela, as
condições levam muitas famílias a ocupar prédios vazios no centro da cidade.
"Há movimentos sociais incríveis, que prestam serviços e ocupam imóveis
ociosos que não estão seguindo a lei. Mas também surgem aproveitadores, porque
há uma multidão precisando morar e que não consegue pagar nem transporte nem
aluguel."
Após deixar o
governo Lula, Maricato diz que continuou próxima do PT. Só se afastou anos
depois quando percebeu "que nem o PT nem os movimentos sociais estavam em
linha de mudança".
"Ao invés
de transformar o Estado, eles foram transformados pelo Estado."
Mesmo assim, a
professora avalia que o PT está sendo perseguido pela Justiça - e que Lula foi
preso injustamente.
"Sou
crítica à política que o PT fez, mas não deixo de reconhecer que houve
distribuição de renda e liberdade", afirma.



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