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'Meu estupro
foi a primeira pedra do edifício', diz
indiana (Foto: Arquivo Pessoal Sunitha
Krishnan)
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Sunitha
Krishnan já ajudou, por meio de organização, 18,5 mil pessoas abusadas; na
última semana, novos casos de violência sexual abalaram o país asiático.
Sunitha
Krishnan tinha 15 anos quando aprendeu que na Índia a violência sexual não é
apenas fruto de impulsos não controlados. Estuprada por oito conhecidos, ela
entendeu que o crime também responde às necessidades de uma sociedade
conservadora e patriarcal que busca manter seu poder intacto.
"Fui
estuprada como lição. O motivo foi vingança", sentencia essa pequena
mulher de 46 anos, que na época já militava por direitos sociais no vilarejo
onde nasceu, na região de Bangalore.
"Meus
estupradores eram homens que achavam que tinham que me dar uma lição porque eu
estava fazendo algo no vilarejo para mudar as mentalidades. Questionar,
despertar as pessoas para que pensem diferente. Isso não é aceitável para esses
homens."
Ativismo
Krishnan fala
com a autoridade de uma sobrevivente, mas também de quem já ajudou mais de 18,5
mil vítimas de exploração e violência sexual com sua organização não
governamental Prajwala (Chama Eterna, em sânscrito), fundada em 1996.
O trabalho,
iniciado com ajuda do missionário católico José Vetticatil, já falecido, rendeu
à ativista vários reconhecimentos internacionais e a indicação como finalista
ao Prêmio Aurora pelo Despertar Humanitário deste ano, que será entregue no
próximo 10 de julho, em Erevan (Armênia).
"Meu
estupro foi a primeira pedra do edifício. Acho que aquele foi meu primeiro
momento de transformação, porque pela primeira vez eu entendi o que é a
rejeição", afirma a ativista, hoje pós graduada em trabalho social
psiquiátrico.
Ela prefere não
falar sobre como ocorreu o ataque, apesar dos detalhes ainda voltarem em forma
de flashbacks e sonhos quase 30 anos mais tarde. Do episódio, o que mais a
marcou "não foi o estupro em si, mas o estigma, a vergonha, o
ostracismo" ao que foi condenada pela própria família e comunidade,
assegura.
"Fui
culpada pelo que aconteceu comigo. Eu era motivo de vergonha para minha
família, era vista como uma prostituta pela comunidade. O impacto dessa
injustiça despertou uma raiva dentro de mim que só cresceu. Aquilo me fez
entender como as pessoas tratam as vítimas de crimes sexuais: como um
criminoso, apesar de você não ter nenhuma culpa", contou à BBC Brasil por
telefone.
Estigma
Prajwala nasceu
da vontade de combater essa estigmatização, comum na Índia entre as vítimas de
estupro e mais forte entre as pessoas forçadas a trabalhos sexuais, pessoas que
"são estupradas inúmeras vezes durante sua vida".
"Vítimas
de exploração sexual sofrem uma vida inteira de dor. São traumatizadas,
estigmatizas por toda uma vida, e isso continua de geração a geração. Se você é
filho de uma escrava sexual, espera-se que você também seja um escravo
sexual", explica a fundadora da ONG.
Para mudar essa
realidade, o primeiro passo de Krishnan foi abrir uma pequena escola para cinco
crianças, filhos de prostitutas de um bordel fechado pelas autoridades de
Hyderabad, a 570 quilômetros de Bangalore.
"As
prostitutas ficaram sem teto e sem opção. Queríamos evitar que os filhos delas
se vissem obrigados a se prostituir também por necessidade", lembra.
Hoje a ONG
conta com 17 escolas desse tipo, além de um centro de formação profissional
onde as vítimas de exploração sexual podem desenvolver uma atividade econômica.
Prajwala também
administra três centros de crise em delegacias de polícia e um abrigo para
mulheres vítimas de tráfico sexual e seus filhos, a maioria contaminados com
HIV.
Entre os casos
mais chocantes, Krishnan recorda o de uma criança de 2 anos estuprada por um
vizinho em 2017.
Poder e
dominação
A especialista
afirma que não há origem, idade ou nível de educação predominantes entre os
estupradores indianos. No entanto, o perfil psicológico segue dois padrões.
"São
homens profundamente inseguros a seu próprio respeito, que precisam validar seu
poder. Na nossa sociedade patriarcal, as mulheres são estereotipadas, usadas
como objeto para satisfazer os homens. E há essa necessidade (de certos homens)
de dominar. É aí que o problema começa", analisa.
Krishnan também
identifica entre os criminosos "homens guiados por uma noção equivocada de
sexo e sexualidade".
"Há, por
exemplo, muitos adolescentes que veem material pornográfico e buscam, com o
estupro, viver as mesmas cenas. Estupro é uma questão de poder e dominação. Mas
não posso deixar de ver também um desvio psicológico em quem estupra."
'Problema
global'
Na última
semana, novos casos de violência sexual abalaram a Índia e ganharam as
manchetes dos principais jornais mundiais.
Duas jovens de
16 e 17 anos foram estupradas e queimadas vivas em episódios diferentes
ocorridos na mesma região do estado de Jharkhand, ao leste do país. A mais
jovem faleceu e a outra está internada em estado grave.
Poucas semanas
antes, milhares de pessoas haviam saído às ruas para protestar contra a prisão
de oito suspeitos - entre eles quatro policiais - de participar do sequestro,
estupro e assassinato de uma menina de oito anos no norte do país.
Segundo a
acusação, os criminosos, todos hindus, planejaram o crime para afastar da
região uma comunidade nômade muçulmana conhecida como Bakarwals, da qual a
vítima fazia parte.
O crime,
ocorrido em janeiro, levou o governo a instaurar, no mês passado, a pena de
morte para casos de esturpo de menores de 12 anos.
Em 2016 as
autoridades indianas registraram 40 mil estupros em todo o país, mas ativistas
acreditam que a cifra real seja muito superior. A maioria das vítimas não
denuncia os agressores por medo ou pressão da sociedade.
Apesar das
notícias, Krishnan insiste que a violência sexual não é um problema exclusivo,
nem predominante, da Índia.
"Pode
parecer que há mais casos porque a população é maior na Índia, mas o estupro é
um problema global. Também existe na Europa, nos Estados Unidos. O problema
real aqui é o recrudescimento da violência nos casos de estupro. Por isso se
fala mais da Índia", ela acredita.
A própria
ativista é alvo de ameaças de morte por parte des redes de tráficos de mulheres
e já foi vítima de várias agressões, uma das quais lhe causou danos permanentes
na audição.
Mudanças
Apesar de tudo,
a especialista acredita que a sociedade indiana está mudando a maneira de
encarar a violência sexual desde 2012, quando o país inteiro protestou pela
morte de uma estudante de 23 anos em consequência de um violento estupro
coletivo dentro de um ônibus.
"O mundo
agora está do lado das vítimas. Há muitas situações que provocam manifestações
de apoio. Mais pessoas estão denunciando e o governo endureceu as penas para
estupradores. Por isso os criminosos sentem essa necessidade de usar violência,
para impedir as vítimas de denunciar."
Por outro lado,
os homens indianos passaram a se envolver na luta contra a violência sexual.
"Há cada
vez mais homens ativos na luta contra a violência de gênero. Os homens indianos
estão começando a entender que são parte do problema e agora que fazer parte da
solução", confia Krishnan.
Por BBC

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