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Movimentação
de carga no Porto de Maceió
(Foto: Porto de Maceió/Divulgação)
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Diante da
ofensiva protecionista que Trump e a consequente cascata de represálias
internacionais, acordo com o Mercosul pode se tornar estratégico para União
Europeia.
Dois dias de
negociações de alto nível entre representantes dos Estados Unidos e da China
não bastaram para os países saírem do clima de guerra comercial, desde que o
presidente americano, Donald Trump, decidiu diminuir à força o déficit
comercial com o país asiático. Neste confronto entre as duas maiores economias
do planeta, o resto do mundo assiste ao desfecho de camarote – e a países
emergentes como o Brasil, não resta alternativa a não ser aproveitar os poucos
efeitos positivos, mas limitados, desse combate.
Na reunião
bilateral, ocorrida na semana passada em Pequim, americanos e chineses
mantiveram profundas divergências, mas se comprometeram a intensificar a
comunicação para tentar chegar a um entendimento. Intempestivo como de costume,
Trump anunciou que, mesmo assim, decidira dobrar para US$ 200 bilhões o
objetivo de redução do excedente comercial chinês com os Estados Unidos.
Enquanto isso,
a metralhadora do imprevisível presidente americano segue apontada para
diversos outros países. Ele joga com o tempo nas suas ameaças de barreiras
tarifárias contra o alumínio e o aço europeu, canadense e mexicano.
Quanto ao
Brasil, Trump teve menos piedade. Desde o dia 26 de abril, Washington impôs um
ultimato a Brasília nesta questão: ou o país aceita o aumento das tarifas de
importação para 10% e 25%, respectivamente, ou terá de se conformar com uma
cota máxima de exportação dessas matérias-primas para os americanos.
O cenário
desagrada Brasília, que se vê com pouquíssima margem de manobra: o país é,
incontestavelmente, o lado fraco da disputa. “O Brasil não tem muito o que
fazer. Em briga de dois elefantes, somos a grama”, ressalta o atual
vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro Camargo Neto.
Vácuos na
agricultura – mas por pouco tempo
Temporariamente,
a briga entre Washington e Pequim tem gerado alguns efeitos positivos para a
agricultura brasileira. Graças à retaliação imposta aos americanos, os chineses
têm importado mais de outros países. Os preços de carne suína, por exemplo,
subiram, e a soja do Brasil poderá se beneficiar do espaço deixado pelos
americanos no mercado chinês.
“Ninguém sabe
se eles vão entrar em acordo, e nessa guerra o Brasil pode ser beneficiário,
com preços melhores. Mas é um enorme risco, porque no dia em que eles entrarem
em acordo, os preços voltam ao normal”, nota Camargo Neto. “Às vezes, o Brasil
faz investimentos para atender ao preço maior, mas depois esse valor não existirá
mais. O Brasil tem competitividade para vender para a China independentemente
dessa guerra, e o que queremos é ser um supridor de longo prazo e estável.”
Acordo com o
Mercosul: uma resposta da Europa?
Outro ponto que
pode ser favorável ao país é mais indireto. Diante da ofensiva protecionista
que Trump e a consequente cascata de represálias internacionais, o acordo
comercial com o Mercosul pode se tornar estratégico para União Europeia.
A finalização
das negociações, que já duram quase 20 anos, seria uma resposta não só
comercial, como política às investidas do presidente americano.
“O colapso do
acordo Transatlântico (Tafta), devido à postura de Trump, e a necessidade da
União Europeia de aprofundar alguns mecanismos do seu processo político – que
também está em crise e é questionado pelos populismos europeus – fazem com que
se abra uma oportunidade muito particular, favorável a um acordo com os
latino-americanos. Com todas as resistências e o custo que têm esse tratado,
não se pode perder de vista que há uma oportunidade que pode ser limitada no
tempo”, avalia Carlos Winograd, professor da Paris School of Economics, de
Paris. “Neste momento, há incentivos muito fortes para negociar o melhor acordo
possível.”
China na
OMC: o calcanhar de Aquiles de Trump
Experiente nas
negociações internacionais agrícolas e nas disputas comerciais envolvendo o
Brasil, Camargo Neto avalia que, no fundo, Trump quer rever as condições que
marcaram a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), há 17
anos. Desde então, Pequim se transformou em uma máquina exportadora, quase
impossível de controlar.
“O que Trump
contesta hoje são iniciativas que foram lideradas pelos Estados Unidos. Quando
a China entrou na Organização Mundial do Comércio, em 2001, eu achei que o acordo
estava bom demais para a China, que passaria a ter acesso a tanta coisa. Me
questionei por que os Estados Unidos aceitaram um acordo excessivamente
benéfico para os chineses, mas acho que hoje eles se arrependeram”, comenta o
empresário.
O momento, complementa
Winograd, é de uma discussão profunda da dinâmica do comércio internacional no
futuro. Neste contexto, a relevância da própria OMC está à prova.
“O que se
observa é uma mudança estrutural entre o modelo industrial do século 20 e um
novo modelo de serviços de tecnologia no qual alguns setores e regiões
clássicos do emprego nos Estados Unidos estão em queda e parcelas da população
se sentem ameaçadas. E não só nos Estados Unidos, como em todas as economias
desenvolvidas”, afirma o economista.
Por RFI

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