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Airbus A330
da Air France é visto no Aeroporto Internacional
Simón Bolívar, em Caracas, em imagem de
arquivo.
(Foto: Thierry Monasse/dpa/AFP)
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Ao menos 15
empresas aéreas estrangeiras deixaram de voar para o país nos últimos anos,
entre elas Avianca, Latam e Gol; número de passageiros embarcados caiu quase
30% neste ano.
A crise
política e econômica na Venezuela deixou o país mais isolado e com menos oferta
de transporte aéreo. Pelo menos 15 companhias aéreas deixaram de voar no país
nos últimos anos devido à falta de acordo sobre repatriação de recursos. Quem
quiser viajar para o exterior terá de pagar mais caro e fazer mais escalas para
chegar a outras capitais latino-americanas do que nos anos anteriores.
A lista da
Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, em inglês) de companhias
que saíram do país é grande: American Airlines, Alitalia, Avianca, Delta,
Lufthansa, Gol, Latam, Aeromexico, United, Iberia, Caribbean Airlines, Insel
Air e Aruba Air. A Air France também suspendeu os voos na Venezuela em meio à
crise política, mas restabeleceu a operação.
Entre as brasileiras,
a Gol suspendeu os dois voos semanais em fevereiro de 2016. A Latam parou de
voar para o aeroporto Internacional Simón Bolívar (Caracas) em 1º de agosto.
Desde 2014, o
número de passagens à venda para viagens internacionais não parou de cair, indica
a Iata. O número de passageiros saindo de Caracas com destino a outros países
caiu de 413,3 mil em janeiro de 2014 para 245,3 mil no mesmo mês de 2017
(40,6%). Em julho, outro mês de férias, o número caiu de 267,6 mil em 2014 para
173,3 mil (35,2%).
O número de
passageiros entre janeiro e julho deste ano caiu 26,9%, em comparação com o
mesmo período de 2016. Com destaque para o mês de fevereiro de 2017, que
registrou o menor número de passageiros deixando Caracas rumo ao exterior desde
janeiro de 2016.
A Iata explica
que a recusa da Venezuela de repatriar US$ 3,8 bilhões das companhias aéreas
motivou a decisão das empresas de suspender os voos para o país. Na prática, as
empresas não conseguem mandar para suas matrizes os valores que arrecadaram com
as vendas de passagens aéreas na Venezuela.
“Muitos acordos bilaterais de serviços aéreos,
por exemplo, incluem a repatriação de receitas para o país de origem da
companhia aérea. Os tratados bilaterais de investimento para os quais a
Venezuela é signatária possuem obrigações similares”, diz nota enviada ao G1 pela
Iata.
Além de impedir
a repatriação de recursos, o governo venezuelano ainda exige que as empresas
paguem com dólares o combustível que compram no país para abastecer os aviões.
Ou seja, elas não podem usar o dinheiro que têm no país para arcar com o custo
do combustível, que tradicionalmente representa entre 30% e 40% da despesa de
uma companhia aérea.
Essa decisão
torna mais grave a situação, principalmente porque “a compra de combustível é
uma das poucas maneiras que as companhias aéreas têm de gastar os fundos
acumulados em moeda local e que não podem repatriar”, diz uma nota da Iata
divulgada em 28 de julho deste ano.
Conexões e
alta nos preços
Com a saída das
empresas aéreas, a oferta de voos ficou menor. Antes, a capital do país tinha
voos diretos para várias capitais latino-americanas. Hoje, quem pega um voo na
Venezuela frequentemente precisa fazer conexões em outros países para chegar ao
seu destino final.
A principal
companhia aérea que ainda está na Venezuela é a panamenha Copa Airlines. Pela
regra do setor, uma empresa que voa para o exterior precisa decolar ou pousar
no seu país-sede. Assim, quem viaja com a Copa precisa fazer pelo menos uma
escala no Panamá antes de seguir para qualquer outro destino.
Outra opção é
utilizar alguma companhia venezuelana que vai direto para o Equador ou
Colômbia, mas há reclamações frequentes sobre a qualidade dos serviços. “Uma ou
outra companhia nacional faz viagens para Lima ou Bogotá, mas o serviço é
inconstante. São comuns os cancelamentos de voos”, conta o diretor da
Associação Venezuelana dos Hotéis Cinco Estrelas (Avecintel), o brasileiro
Gustavo Jarussi.
Um conceito
básico de economia é que, com a redução da oferta, o preço sobe. E foi
exatamente o que aconteceu com as passagens aéreas na Venezuela. “O preço das
passagens triplicou. Há quatro, cinco anos, eu comprava passagem para ir ao
Estados Unidos por US$ 550. Hoje sai por US$ 1 mil, US$ 1,3 mil”, observou.
Para quem tem
renda em moeda local, o bolívar, o preço ficou ainda mais inacessível diante da
intensa desvalorização da moeda local.
Mais difícil
vir ao Brasil
A advogada
brasileira Aline* conta que a diminuição na oferta de voos e a disparada de
preços dificultam suas visitas ao Brasil. “Quando eu cheguei à Venezuela,
quatro companhias voavam para o Brasil: Gol, Tam, Copa e Avianca. Elas foram
parando aos poucos. Hoje só a Copa faz esse trajeto, e os bilhetes estão
ficando cada vez mais caros”, afirma.
A necessidade
de fazer conexões também desanima na hora de viajar. “A viagem para cá ficou
mais desgastante, cansativa. Antes nós vínhamos umas duas vezes por ano. Agora
a gente pensa duas vezes quando quer viajar”, confessa.
Ela também
reclama do serviço de companhias venezuelanas. “Ficamos um pouco reféns das
linhas venezuelanas, que vão para os Estados Unidos, Aruba, Curaçao, Punta
Cana, mas o serviço não é satisfatório. Elas atrasam muito, têm muito overbooking.”
Aline, que
passava férias em Belo Horizonte quando conversou com a reportagem, em
setembro, teve que comprar um bilhete às pressas para um funcionário que a
acompanhava. “Depois de comprar o bilhete de volta para o meu funcionário,
fomos informados de que a Avianca
suspenderia a operação no mês de agosto. Foi uma decisão repentina.
Eles devolveram o dinheiro e tivemos que comprar um outro bilhete para ele”,
conta.
Ela também
acabou escolhendo uma passagem para a capital venezuelana com escala em
Maracaibo (700 km a oeste do país), para economizar. “Pagamos U$ 1 mil via
Maracaibo. Se fosse via Caracas seria o dobro do preço.”
Impacto no
turismo
O turismo de
negócio e de lazer tem sofrido impacto direto da escassez de voos para a
Venezuela. O número de passageiros que embarcaram do Brasil em direção a
Caracas caiu 54% no acumulado de janeiro a agosto deste ano, com relação a
2016, de acordo com um levantamento do site de venda de passagens aéreas
Decolar.com. O número de buscas por passagens para a Venezuela também caiu
25,5% no período.
“A falta de
voos e o preço do serviço inviabiliza o mercado corporativo e o de lazer. Se
você tem preços acessíveis, fica mais fácil o deslocamento interno. Do jeito
que está, fica inviável para qualquer operador turístico. E não é só a questão
aérea. Tem mais todos os agravantes da instabilidade política, os protestos”,
observa o diretor da Avecintel, que dirige a associação que reúne 54 hotéis em
todo o país.
Além do setor
aéreo, empresas de diversos setores deixaram a Venezuela com o agravamento da
crise política. A americana General Motors, que estava no país desde 1948,
encerrou suas operações este ano, assim como a italiana Pirelli. E diversas
multinacionais têm evitado mandar seus executivos em viagens de negócios ao
país por questões de segurança.
A chegada de
turistas a Caracas, que recebe principalmente turistas de negócios, vem caindo
nos últimos quatro anos, segundo dados da Avecintel. A associação destaca que a
queda foi mais acentuada no último ano e impacta todo o país.
“A média de
ocupação em hotéis de luxo em toda a Venezuela está em torno de 35%, 45% nas
categorias corporativo e lazer. Há quatro anos, estava em 86% e 90%”, afirmou
Jarussi.
Jarussi observa
que o impacto não se restringe ao setor hoteleiro. “Dados da Organização
Mundial do Turismo mostram que um turista gasta, em média, entre US$ 150 e US$
200 em transporte, diária em hotel, alimentação. O impacto dessa redução na
economia é grande.”
*nome
fictício. A entrevistada não quis dar seu nome verdadeiro.
Por Letícia Macedo, G1

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