Em crise, RJ só investe R$ 14,3 milhões de R$ 70,2 milhões previstos para a cultura até junho

Crise econômica do estado do Rio de Janeiro
 prejudica cenário cultural carioca
Bibliotecas, museus, patrimônios históricos, teatros – todos os setores culturais foram atingidos pela situação financeira fluminense. Situação não melhorou desde a decretação do estado de calamidade
O setor cultural não passou imune pelo terremoto que lançou o Rio de Janeiro em um abismo financeiro – situação que atingiu o ponto mais crítico com a decretação do estado de calamiade, há pouco mais de um ano.
Segundo dados da própria Secretaria de Estado de Cultura, entre 2016 e 2017, o orçamento da pasta caiu de R$ 82,1 milhões para R$ 70,2 milhões – destes, R$ 14,3 milhões haviam sido empenhados até o momento da publicação deste texto.
Bibliotecas, museus, patrimônios históricos, teatros – todos os setores culturais foram atingidos pela situação financeira fluminense. Sobrou até para um dos maiores símbolos na cultura do estado, o Theatro Municipal.
"Não perguntem. Está fechado!!". O aviso, curto e direto – que pode ser visto pelo pedestre mais atento ao passar pelo acesso traseiro da Biblioteca Parque Estadual, na Rua da Alfândega, Centro do Rio –, foi escrito com dois pontos de exclamação. A frase e o excesso na pontuação têm autor desconhecido, mas traduz de forma precisa não apenas o não funcionamento do espaço, mas também a sensação de urgência e preocupação de alguém que conhece de perto a situação de crise da cultura no Estado.
Bens culturais, que deveriam ser preservados, estão em avançado estado de deterioração. O projeto da Biblioteca Parque, anunciado com estardalhaço pelo governo, naufragou. O Theatro Municipal, um dos maiores orgulhos da cultura fluminense, está à míngua, com funcionários sem receber e espetáculos cancelados ou adaptados para formatos reduzidos.
E mesmo a Escola de Teatro Martins Penna – mais antigo centro de preparação teatral da América Latina – também teve problemas e chegou a ser ocupada pelos alunos como forma de protesto.
Imóvel fantasma
Os 15 mil metros quadrados de área do prédio da Biblioteca Parque, localizado na Presidente Vargas, se transformou em um imóvel fantasma desde o dia 30 de dezembro de 2016, quando o contrato firmado entre a Secretaria de Estado de Cultura e o Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), que cuidava do gerenciamento do espaço, foi encerrado.
Desde então, o prédio de linhas minimalistas está vazio e seu entorno se transformou em dormitório e banheiro para moradores de rua. Ao se aproximar das portas de vidro, é possível ver os corredores escuros e o aviso do fim do convênio. Uma realidade bem diferente dos tempos nos quais seu acervo de 260 mil itens atraíam, em média, 2,2 mil pessoas por dia. O conjunto de obras contava com 2,8 mil títulos em braile ou audiolivros. Os R$ 20 milhões anuais necessários à manutenção do projeto se tornaram uma realidade inviável.
Das quatro unidades da Biblioteca Parque – Centro, Manguinhos, Rocinha e Niterói – apenas esta última continua em operação, graças a um convênio firmado com a prefeitura.
"Alguns equipamentos que funcionavam no modelo Organização Social foram fechado e têm dificuldades para serem reabertos. É o caso das Bibliotecas Parque Estadual, que são muito importantes para a cultura e hoje não têm a possibilidade de funcionamento", explicou o presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Zaqueu Teixeira (PDT).
Por meio de sua assessoria, a Secretaria de Estado de Cultura informou que está em negociações com coletivos locais para reabrir a unidade Manguinhos até agosto.
Patrimônio em ruínas
Longe de ser um problema restrito a espaços fechados, como uma biblioteca, a crise na cultura do Rio de Janeiro pode ser percebida com facilidade por qualquer um que ande pelas ruas da cidade. Basta olhar para as más condições de preservação de alguns patrimônios imóveis cariocas.
Um exemplo claro pode ser visto na Praça Tiradentes. Depredada, a estátuta de João Caetano, ator e encenador cujo nome batiza o teatro no mesmo local, já se encontra desgastada – a lâmina da espada que empunha foi quebrada e roubada.
Localizado na esquina das ruas Riachuelo e Inválidos, na Lapa, o Solar do Visconde é outro exemplo evidente. Construído no século XVIII, o prédio em estilo colonial português foi residência de Francisco Targine, o Visconde de São Lourenço, conselheiro de Dom João VI. Mesmo tombado desde 1938 pelo Instuto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), o local entrou em decadência e hoje preserva apenas a fachada antiga, mesmo assim, em condições bastante precárias.
Havia planos para recuperar a construção e transformá-la no Centro de Referência da Arqueologia do Rio de Janeiro. Pretensão que parece muito distante diante da escassez de recursos destinados à cultura. Hoje, um estacionamento funciona no interior do imóvel.
"A preservação do patrimônio sofre muito mais. Verificamos que não há os aportes necessários para que os bens materiais sejam preservados. Testemunhamos todos eles se perderem", admitiu Zaqueu. "Nos últimos dois anos, a Secretaria de Estado de Cultura teve uma redução muito grande em seu orçamento e não há perspectiva de melhoras", concluiu o parlamentar.
Em 2015, um grupo de trabalho, que reunia representantes dos setores público e privado, foi formado junto à Comissão de Cultura. O objetivo era elaborar políticas de preservação de pelo menos 40 bens culturais que estão em situação de abandono pelo poder público. Diante da árida paisagem financeira fluminense, as intenções de recuperação do patrimônio nunca ultrapassaram o papel.
Sonhos frustrados
Uma das principais referências para artistas na cidade, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro também enfrenta a pior crise em seus 108 anos de existência. Músicos, bailarinos e funcionários da Casa fazem o que podem para continuar as produções. O problema é que, com três folhas salariais em atraso, tem sido difícil até sair de casa para ir trabalhar.
Para quem dedicou a vida inteira em função da arte e sempre sonhou em trabalhar no Theatro Municipal, é difícil acreditar que a situação chegou a esse nível.
“É como se tivessem tirando a nossa capacidade de viver e isso é muito angustiante. A gente vai ao banco e vê que não tem nada na conta. Tem até menos. E chegar aqui, não poder dançar, completar as seis horas diárias que a gente tem só dentro do Theatro, isso vai matando a gente”, lamentou a primeira bailarina Claudia Mota.
Integrante do corpo de baile há 21 anos, ela afirmou nunca ter visto situação semelhante ao que ela e seus colegas têm passado. Sem salário, muitos chegaram a deixar de lado o sonho que conquistaram de estar no palco do Municipal e optaram por profissões alternativas.
“É chocante. Alguns passaram a fazer até faxina, marmita, vender roupa em casa pela internet, fazer Uber. Eu trabalho com carnaval, mas uma hora o dinheiro acaba, então, eu comecei a fazer roupa de cena de ballet, que eu já fazia pra vender e é uma coisa que eu gosto muito, e que eu comecei ativamente a fazer porque eu estava precisando”, disse Claudia Mota.
Diante da situação atual, o vice-presidente do Municipal, Ciro Pereira da Silva, acredita que para que tudo volte ao normal, é preciso apenas que os salários estejam em dia.
“O que a gente pensa é que o Theatro volte à normalidade e ele só precisa dos funcionários receberem em dia pra isso voltar a funcionar, porque público tem, o público quer, os artistas querem, os técnicos querem, os administrativos querem”, disse Ciro, que está a 40 anos na Casa.
Público protestou
No último domingo (18), o público que foi ao Municipal e assistiu o espetáculo "Carmina Burana", de Carl Orff, também se manifestou com gritos como “Fora Pezão”, logo após um anúncio feito antes da apresentação explicando sobre a situação do atraso do pagamento dos servidores do teatro. No fim do espetáculo, a plateia aplaudiu de pé e voltou a protestar contra os políticos.
Devido à situação financeira do theatro, muitos espetáculos, como "O lago dos cisnes", de Tchaikovsky, precisaram ser cancelados. A ópera 'Norma', de Vincenzo Bellini, teve de ser transformada apenas em concerto. Outras tiveram que ser adiadas para o segundo semestre.
O corpo de funcionários do Theatro Municipal é formado por 550 pessoas, entre artistas e técnicos. A exemplo do que aconteceu em todos os setores da cultura estadual, o orçamento dedicado à casa também acabou reduzido. Em 2016, o local recebeu R$ 69,8 milhões. Este ano, o valor caiu para R$ 62,9 milhões. No entanto, quase metade desse total foi contingenciado e R$ 31 milhões ainda não foram repassados.
"A Secretaria de Estado de Cultura está contando com a dedicação e abnegação de muitos artistas, como os valorosos corpos artísticos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, para manter os equipamentos em pleno funcionamento e levando programação de qualidade à população, como acabou de acontecer com a estreia de 'Carmina Burana'", afirmou o órgão por meio de nota.

Por Carlos Brito e Fernanda Rouvenat, G1 Rio
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