Côrtes virou secretário de Cabral para continuar esquema de propina, diz MPF

Procuradores do Ministério Público Federal no Rio detalham
 esquema de propina na área da saúde no RJ
(Foto: Cristina Boeckel / G1 Rio)
Propina foi instituída desde que Sérgio Cabral entrou no governo, diz procurador José Augusto Vagos.
De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público, o secretário de saúde de Sérgio Cabral, Sérgio Côrtes, foi escolhido pelo ex-governador do Rio com o objetivo de dar prosseguimento ao esquema de propinas na área da saúde que existia no Into.
"A propina foi instituída desde que Sérgio Cabral entrou no governo, em 2007, e Sérgio Côrtes foi nomeado para transferir o esquema do Into para o sistema de saúde", destacou o procurador regional da República, José Augusto Vagos.
Em nota, a assessoria de imprensa do ex-governador informou que "ainda não tivermos acesso a nova denúncia e iremos nos manifestar nos próprios autos do processo".
Nesta terça (16), o MPF denunciou o ex-governador, César Romero, Carlos Miranda, Carlos Bezerra, Sérgio Côrtes, Miguel Iskin e Gustavo Estellita por corrupção passiva e ativa e organização criminosa por irregularidades cometidas na Secretaria Estadual de Saúde, entre 2007 e 2014. Eles são acusados pela Força-tarefa Lava Jato no Rio de Janeiro de pagar ou receber propina para fraudar contratos da área de saúde.
De acordo com o MPF, a escolha de Côrtes e de outros aliados em cargos estratégicos tinha como objetivo conseguir captar para um esquema criminoso o maior calor possível nas secretarias consideradas mais "rentáveis".
"Ele direcionava licitações para ter um aumento dos gastos dentro da secretaria. E empresários conseguiam cartelizar as escolhas e enviar o dinheiro para a organização criminosa", explicou o procurador Rodrigo Timóteo.
De acordo com o procurador José Augusto Vagos, a investigação é apenas o começo para desvendar o esquema. "Essa investigação é a ponta do iceberg na corrupção da saúde no Rio de Janeiro", explicou Vagos.
Segundo a denúncia, cada contrato da secretaria de saúde tinha um desvio de verba de 10% destinado a propina. O ex-governador Sérgio Cabral ganhava 5% sobre os valores dos contratos fraudados, 2% eram para Sérgio Côrtes, 1% para Cesar Romero, 1% para alguém do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, que as investigações ainda estão tentando identificar. Outro 1% era usado para as despesas administrativas da quadrilha.
Cesar Romero é apontado pelas investigações como o "homem da mala". O ex-secretário teria realizados 35 aportes de R$ 400 mil a R$ 500 mil por mês para a quadrilha, somando cerca de R$ 16 milhões.
O esquema de propina era alimentado por Miguel Iskin, que comprava os agentes públicos. Levantamento da receita federal indica que as despesas da Secretaria de Saúde com importações foi de US$ 277 milhões. "Estamos dando início a um procedimento de cooperação internacional para rastrear o dinheiro pago a Miguel Iskin e a outros agentes", explicou a procuradora Marisa Ferrari.
Mais de 200 procedimentos licitatórios foram analisados pelos investigadores. Segundo os documentos, Miguel Iskin fazia negociação com os fornecedores que estavam no exterior e servia como intermediário, recebendo os pagamentos e encaminhando para fora do Brasil.
Ainda de acordo com o MPF, Iskin tentava eliminar a concorrência determinando fatores técnicos muito específicos nas licitações. Dessa forma, apenas em empresas aliciadas por ele conseguiam cumprir os requisitos. Agendas com contabilidades paralelas, grampos telefônicos autorizados pela justiça e colaboração de envolvidos são as principais provas usadas pelos procuradores.
A investigação também apura se a quadrilha comandada por Sérgio Cabral tentava ocultar o próprio patrimônio quando a ação do Ministério Público já estava em curso. "Os presos denunciados ainda tentavam obstruir e tentar manter oculto o patrimônio amealhado", explicou a procuradora Fabiana Schneider.

Por Cristina Boeckel, G1 Rio
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