Garota veneno: uma jovem assassina pode precipitar guerra nuclear

Mulher fatal: Ruby Ruby, nome de guerra da jovem recrutada
em casa de massagem, pode ser condenada a pena de morte
(Royal Malaysia Police/Reuters)
Aumenta o risco de conflito desde que vietnamita matou irmão do tirano da Coreia do Norte, contribuindo mesmo sem saber para situação de alta periculosidade
O que têm em comum um reator “de pesquisa” doado pela antiga União Soviética nos anos 60, segredos nucleares vendidos pelo Paquistão, um ditador hereditário que manda assassinar o irmão e uma jovem do ramo da prostituição que participa do complô ridiculamente mal tramado? 
É quase impossível não saber que tudo conflui para a Coreia do Norte, um país que entrou mais fundo no mundo paralelo ao qual parece pertencer depois do espantoso assassinato ocorrido no aeroporto de Kuala Lumpur, filmado em todos os detalhes por câmaras de segurança. 
As imagens entraram para a iconografia contemporânea. Na manhã de 13 de fevereiro, Kim Jong Nam, o meio- irmão mais velho e um pouco menos obeso de Kim Jong Un, caminha despreocupado pelo  terminal 2 do aeroporto quando duas garotas o abordam. A primeira parece abraçá-lo, a segunda vem por trás e passa um lenço de tecido ou de papel em seu rosto. 
É possível que nesse momento as duas tenham misturado os dois agentes que compõem o agente químico VX, substância de alta letalidade banida pelo tratado de controle de armas químicas.
Em vinte minutos, Kim Jong Nam estava morto. Em três dias, autoridades da Malásia  prenderam as duas prostitutas estrangeiras, a vietnamita Doan Thi Huong e a indonésia Siti Aisyah, filmadas no aeroporto.
Segundo uma excelente reconstituição feita pelo site Daily Beast, também não foi exatamente difícil retraçar o caminho de quatro norte-coreanos que, depois do assassinato, ainda continuaram por alguns dias em Kuala Lumpur. 
 Lá, fizeram contatos com outro norte-coreano, Ri Jong Chol, cientista que se estabeleceu na Malásia em agosto do ano passado. Pode ter sido ele o fornecedor dos agentes binários que, combinados, resultam numa substância amarelada e inodora que embaralha mensagens químicas nos organismos vivos e produz uma dolorosa morte por sufocamento.
Estes enviados especiais não devem ter um futuro muito promissor. Apesar da missão cumprida, expuseram, pela incompetência da trama, o rubicundo Kim Jong Un ao escárnio mundial. Um tirano ridicularizado fica mais perigoso ainda e os testes  com mísseis nucleares feitos recentemente aumentam muito o índice de periculosidade já bem alto. 
No universo bizarro da Coreia do Norte, tudo pode ser verdade e muito pode ser inventado pelos serviços de inteligência da Coreia do Sul. O tio de Kim Jong Un foi realmente preso em plena reunião do partido, fato confirmado por imagens. Mas a dilaceração  por cães famintos, a “morte por mil facas”, parece ter sido pegadinha de um blogger chinês.
Já a tia, inconvenientemente inconformada com a execução do marido, foi morta por envenenamento – segundo um norte-coreano importante que desertou do miserável império do medo que já está na terceira geração d ditadores Kim. 
Se dispõe de seu próprio “laboratório de venenos”  – título do livro do jornalista russo Arkadi Vaksberg sobre o arsenal de armas de morte silenciosa existente desde uma ordem assinada por Lênin em 1921 -, por que Kim Jong Un autorizaria o uso de um elemento de extremo risco como o VX? 
Esta é a primeira pergunta de uma série quase interminável. Por que usar duas mulheres recrutadas em casas de massagens? Por que elas sabiam em alguma medida dos riscos, tanto que lavaram as mãos no banheiro do aeroporto depois do abraço de serpente?
Ou será que foram medicadas preventivamente com atropina? Por que Doan Thi Huong, que usava o nome de guerra de Ruby Ruby, vestia no dia do assassinato exatamente a mesma camiseta branca de mangas compridas com as letras LOL (morrendo de rir, em linguagem abreviada) com que aparece no Facebook, entre fotos de biquíni e biquinhos? 
A jovem vietnamita, com sua camiseta comprometedora, foi a mais claramente capturada pelas câmeras, desencadeando a sequência de acontecimentos que levou ao esclarecimento do crime.
Ela e a parceira dizem que receberam o equivalente a cerca de 300 reais para fazer o que achavam ser uma pegadinha de televisão. Terão que provar isso, através de advogados de defesa, quando forem levadas a julgamento por um crime que, na Malásia, pode dar pena de morte. 
Entre todas as dúvidas levantadas pelo tosco assassinato, a maior é, evidentemente, a mais difícil de responder. Por que Kim Jong Un resolveu mandar matar agora o irmão que havia caído em desgraça em 2001, quando foi pego com passaporte falsificado numa viagem frustrada à Disneylândia do Japão. 
Numa tentativa de explicação lógica, com a ressalva de que o método nem sempre se aplica aos envolvidos, é possível que Kim Jong Un, do alto de seus 32 anos, tenha um pressentimento de ameaça a uma carreira que dificilmente terminará em morte natural.
E o mau agouro só pode vir da China, a garantidora, em última instância, da sobrevivência do regime norte-coreano. O regime chinês deu demonstrações recentes de mau humor com o pupilo incontrolável, que usa para incomodar os Estados Unidos, mesmo sabendo de sua alta instabilidade. 
Por causa dos recentes testes com mísseis, os americanos, ainda durante o governo Obama, começaram a instalar na Coreia do Sul um sistema de interceptação de mísseis inimigos na fase final da trajetória (THAAD, na sigla em inglês).
O sistema é móvel, com radares, plataformas de comunicação e de lançamento instalados em caminhões. Para funcionar, precisa ficar pertinho da fronteira com a Coreia do Norte – e, portanto, próximos da território chinês em algumas áreas. O regime chinês, que administra uma política permanente de expansionismo marítimo só controlada pelo poderio bélico americano,  está soltando fogo com o que considera uma manobra para desequilibrar estrategicamente o jogo. 
Apesar de viajar sozinho, com uma falsa sensação de anonimato, Kim Jong Nam desfrutava da proteção chinesa e era baseado em Macau. É possível que fosse considerado uma espécie de reserva técnica, privilegiado pela hereditariedade como opção de liderança caso seu meio-irmão tenha que ser rifado pelos chineses.
Com todas suas maluquices, Kim Jong Un foi criado na implacável escola da sobrevivência que garantiu o impossível a seu pai e seu avô: resistir ao poder dos Estados Unidos, mesmo ao preço de criar um regime insano em que a dinastia é tratada como uma entidade divina e as massas doutrinadas acreditam que vivem num paraíso, mesmo quando passam fome.
Foi Kim Il Sung, o fundador da linhagem vermelha, quem colocou os americanos em solo coreano, ao invadir a parte sul do país em 1950, acreditando numa vitória garantida pelo apoio da China e da União Soviética.
Sobreviveu ao caos e à destruição que provocou (ajudado pela contenção dos Estados Unidos, que rejeitaram a terrível opção de um segundo ataque nuclear, depois dos que puseram fim à guerra com o Japão. 
Enquanto a Coreia do Sul se reconstruía, com notável sucesso e a garantia do guarda-chuva nuclear americano, a parte norte continuou no atraso, mas com meios suficientes para buscar sua própria proteção atômica. O primeiro passo foi o reator soviético, fornecido nos anos 60, seguido de outro reator, secreto, de onde, com a propagação da tecnologia nuclear e alguns segredinhos fornecidos pelo Paquistão,  vieram o plutônio e o urânio enriquecidos. 
As primeiras explosões experimentais da Coreia do Norte datam dos anos 80. O primeiro teste nuclear foi anunciado em 2006. Como é preciso ter, além das bombas,  os meios para transportá-las, o desenvolvimento de mísseis, apesar de conhecidos fracassos, também evoluiu.
Hoje, a Coreia do Norte tem entre dez e 16 artefatos nucleares e pode mandar mísseis a 3 500 quilômetros de distância, bem além do Japão, considerado o maior alvo em potencial depois dos inimigos do sul. Mesmo no caso de que se desintegrem no caminho, a escala de destruição já teria dimensões catastróficas.
Um malefício adicional seria o uso de pequenas bombas táticas colocadas em mochilas e levadas nas costas por soldados que se infiltrariam em território sul-coreano. Técnicas de infiltração são exploradas há décadas.
Algumas parecem saídas de comédias como o filme A Entrevista. Mas existem também os casos de agentes infiltrados norte-coreanos que apareciam em localidades japonesas e sequestravam cidadãos inocentes para usá-los como instrutores de linguagem e cultura de futuros espiões.
Numa época de aproximação diplomática com o Japão, Kim Jong Il, pai do atual pequeno líder, admitiu trezes desses sequestros. Kim pai, cinéfilo apaixonado, também mandou sequestrar um conhecido diretor sul-coreano para dar uma força a indústria local do entretenimento. Seis meses depois, a mulher dele, que era atriz, também foi sequestrada. Os dois conseguiram fugir durante uma viagem a Viena e o caso, claro, virou filme. 
Ruby Ruby, a assassina de biquíni branco, certamente também vai virar. Se a falta de profissionalismo dela, por ingenuidade ou deliberação superior – nunca se sabe -, não contribuir para desequilibrar o jovem tirano e provocar um cataclismo, terá atingido a fama.

Por Vilma Gryzinski
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