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© MIGUEL
SCHINCARIOL Lula, quatro dias após as eleições municipais.
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Em um roteiro já rascunhado, as
primeiras eleições municipais após o impeachment de Dilma Rousseff foram um desastre para o
Partido dos Trabalhadores, que na última década havia se estabelecido como a
principal legenda de esquerda da América Latina. O partido liderado pelo
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu mais da metade das
prefeituras, conseguindo eleger apenas 256 nomes no primeiro turno e tendo a
chance de garantir, no máximo, mais sete no segundo turno, que acontece no
final deste mês. É menos da metade do total de prefeitos petistas que chegaram
ao poder há quatro anos. Em 2012, dois anos depois da primeira vitória de
Rousseff à presidência, a sigla havia conseguido eleger 644 prefeitos, o maior
número até então. E, como a política não aceita vácuo de poder, o PSDB, que
vinha em declínio nas municipais desde que Lula assumiu a presidência, voltou a
aumentar sua participação: subiu de 701 eleitos, em 2012, para 793 agora,
podendo chegar a 812, caso eleja todos os tucanos que foram para o segundo
turno.
A derrota nas eleições já era
antecipada pelo partido, que desde 2013 vive uma crise que só se acentua. Mas,
mesmo diante das análises pessimistas, não se esperava que ocorresse nesta
extensão. Pouco antes de votar, no domingo passado, Lula dizia aos repórteres
que o PT iria surpreender nesta eleição. Mas, logo após os resultados, o
presidente nacional da legenda, Rui Falcão, afirmou em uma coletiva de imprensa
que "foi uma derrota forte, grande, e que merece um exame minucioso nos
próximos meses". As perdas não foram apenas numéricas, mas também
simbólicas. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad não conseguiu passar para
o segundo turno e perdeu para o candidato tucano, João Doria, até na periferia,
onde o PT antes dominava. No Nordeste, outro reduto petista, o partido elegeu
37% prefeitos a menos do que em 2012. Na Bahia, por exemplo, a sigla conseguiu
o comando de 39 prefeituras, enquanto em 2012 obteve 53.
Para além dos argumentos que
apontam os escândalos de corrupção como a principal causa da derrota, rechaçado
por cientistas políticos ouvidos pelo EL PAÍS, a análise do que motivou a
derrota passa pelo próprio impeachment de Rousseff. Com as movimentações partidárias
no Congresso, muitas das alianças que o PT havia costurado desde antes da
chegada de Lula ao poder federal acabaram desfeitas. Uma resolução do PT
nacional de maio deste ano afirmava que o partido não poderia se aliar a defensores do impeachment e
que, prioritariamente, os candidatos municipais deveriam formar chapas com
PCdoB e PDT. "A questão dos apoios é fundamental. Há uma correlação forte
entre o sucesso eleitoral e o número das coligações de uma chapa", explica
o cientista político Fernando Guarnieri, professor do Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ele
ressalta que em 2002 Lula só conseguiu vencer no Nordeste depois que obteve,
ainda que informalmente, o apoio de uma ala do PMDB importante nesses Estados,
como a de José Sarney, que estava descontente com a candidatura de José Serra
pelo PSDB, partido, na época, aliado dos peemedebistas.
Guarnieri ressalta ainda que a
derrota petista nas municipais deve ser vista não apenas pela ótica da perda de
votos, mas também pela da diminuição da oferta de candidatos do partido. Diante
do desgaste da imagem do PT, provocada pelos escândalos de corrupção e pelo
processo de impeachment de Rousseff, muitos prefeitos que tentaram a reeleição
já haviam deixado a sigla. Além disso, o partido lançou, neste ano, quase
metade dos candidatos que havia lançado na eleição municipal de 2012. Há quatro
anos, o PT era o segundo partido com o maior número de candidatos no país,
atrás do PMDB; nesta última eleição, foi o sexto, apontou o jornal Valor Econômico.
"Uma menor oferta significa uma menor votação", ressalta ele.
Para além das questões políticas,
o desempenho petista nestas eleições também deve ser visto pelo viés econômico,
aponta o economista Ari Francisco de Araújo Junior, professor do IBMEC de Minas
Gerais. Ele
é autor de um artigo, em parceria com outros especialistas, em que
analisava os motivos que levaram à reeleição de Lula, em 2006. Eles chegaram à
conclusão de que, na época, a boa situação econômica do país teve mais
influência nos votos pró-Lula do que os programas de transferência de renda
implementados pelo Governo, como o Bolsa
Família. "Quem define a eleição é o eleitor mediano, que tem uma renda
mais baixa. Em geral, para eles, a ideologia importa menos [do que para os
eleitores mais escolarizados], então a situação econômica do momento e as
perspectivas de que no futuro possam garantir uma melhor condição pesam na hora
do voto", explica ele. "Em resumo: as pessoas estão mais preocupadas
em pagar suas contas e querem que isso seja sustentável no futuro",
ressalta.
Ele acredita que o panorama
federal contaminou as eleições municipais e o PT foi punido por conta de uma
gestão econômica "muito ruim", que levou ao aumento da inflação e do
desemprego. É o mesmo fator que poderia explicar a queda do desempenho do PSDB
nas municipais entre 2000 e 2004. O ex-presidente tucano Fernando Henrique
Cardoso havia deixado o Governo, em 2002, com uma inflação acumulada de 12,53%
e uma taxa de desemprego que atingia, em dezembro daquele ano, 10,5% – pouco
menor que a atual (11,8%, no trimestre terminado em agosto). Em 2000, o PSDB
havia garantido 989 prefeituras e, em 2004, foi para 870, segundo levantamento da Folha de S.Paulo.
Menos prefeito,
menos palanque
O desempenho das eleições
municipais podem trazer efeitos para o partido em 2018, já que os aliados nos
municípios costumam garantir um número maior de palanques para as legendas.
Isso afeta, especialmente, os candidatos a deputados federais, que dependem mais
da campanha de rua do que os candidatos a presidente, que contam com maior
exposição na TV.
Mas a queda do desempenho do
partido preocupa, pois pode ser um sinal de que a rejeição à sigla será
igualmente alta para os votos presidenciais. Sob o PT recai ainda a insegurança
sobre a situação eleitoral de Lula em 2018. O ex-presidente e principal nome do
partido tornou-se réu na Operação Lava Jato, corre o risco de ser preso e,
até, de se tornar inelegível, o que é um problema para um partido que falhou em
produzir novas lideranças. Por isso, a legenda entra agora em um período de
autocrítica, para repensar os próximos passos. Já antecipou, por exemplo, as
eleições para a direção nacional, que agora devem acontecer no primeiro
semestre de 2017 e não mais no final daquele ano, como era previsto
inicialmente."O partido precisa se libertar da dependência em Lula e não
pode pensar em se reconstruir em torno da figura dele. É preciso criar novas
lideranças", destaca o professor de história da USP, Lincoln Secco, autor do livro "História do PT" (Ateliê Editorial).
Ele defende a formação de uma frente ampla de esquerda, que não tenha
necessariamente um protagonismo petista neste momento.
Uma visão parecida com a do
petista Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul pelo
partido, para quem essas eleições municipais representaram a "vitória de
ninguém",devido ao grande número de votos brancos, nulos e abstenções.
Para ele, o partido tem que pensar para além das eleições de 2018. "Temos
que ter uma renovação organizativa da esquerda programática, apontando como
tirar o país da crise. Se a esquerda não se unir, vai desaparecer",
ressalta ele, que afirma que essa frente poderia se apoiar, para a candidatura
em 2018, em nomes como Ciro Gomes, ex-ministro de Lula, hoje no PDT, o
governador do Maranhão pelo PCdoB, Flávio Dino, ou até Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem
Teto (MTST), que se diz apartidário.
Há um consenso dentro do partido
de que agora, na oposição federal, será o momento de se reaglutinar nas ruas
para se opor aos cortes que serão impostos pelo Governo de Michel Temer. Com
isso, a sigla poderá recuperar seus eleitores de esquerda e mais politizados.
No entanto, ao adotar a postura combativa que tinha antes de 2002, quando Lula
adotou o fisiologismo das alianças e venceu pela primeira vez a eleição, se
colocará contrário à maioria das legendas que hoje apoiam Temer. E, diante da
necessidade de aglutinar mais siglas para se colocar como um competidor ágil e
menos dependente do recall político de Lula, viverá, portanto,
um enorme dilema.
El País
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