Rio das Ostras precisa preparar a cidade para 35 mil veículos elétricos | Rio das Ostras Jornal

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Rio das Ostras precisa preparar a cidade para 35 mil veículos elétricos

 


Artigo – Por Angel Morote

Rio das Ostras está diante de uma transformação que já não pode ser ignorada. Bicicletas elétricas, patinetes, triciclos e outros veículos de mobilidade individual autopropelidos passaram a fazer parte da rotina da cidade e estão criando uma nova forma de deslocamento para milhares de pessoas.

Um levantamento apresentado durante uma visita que fiz acompanhado do presidente da AME – Associação de Mobilidade Elétrica aponta para uma realidade que merece atenção: cerca de 35 mil veículos elétricos já estão presentes no mercado e na rotina de usuários de Rio das Ostras. Não estamos mais falando de uma novidade que poderá chegar à cidade. Ela já chegou.

E existe uma característica especialmente importante nessa transformação: entre os consumidores desses equipamentos estão idosos e pessoas com deficiência que encontraram na mobilidade elétrica uma possibilidade de independência e autonomia para realizar atividades que muitas vezes ficam limitadas pela dificuldade de acesso ao transporte coletivo e pela própria estrutura urbana.

Por isso, a discussão precisa mudar de direção. Em vez de perguntar se a cidade deve permitir ou não esses novos veículos, precisamos perguntar: como Rio das Ostras pode se preparar para que eles circulem com segurança?

35 mil veículos mudam a dimensão do debate

Quando falamos em 35 mil veículos, não estamos tratando de uma tendência distante. Estamos falando de uma quantidade expressiva de equipamentos que precisa ser considerada no planejamento da mobilidade urbana.

É importante deixar claro que esse número é um levantamento apresentado pelo setor durante a visita realizada à loja especializada e não um cadastro oficial do Município. Ainda assim, ele serve como um sinal importante de que a mobilidade elétrica já ganhou espaço entre os moradores.

E quanto mais esses veículos forem incorporados à rotina da população, maior será a necessidade de organizar os espaços onde eles circulam.

O problema não está na bicicleta elétrica, no patinete ou no triciclo. O problema aparece quando uma nova tecnologia encontra uma cidade que ainda não conseguiu adaptar completamente sua infraestrutura a essa realidade.

A solução, portanto, não deve ser impedir o avanço da mobilidade elétrica. Deve ser planejar a cidade para ela.

A legislação já reconhece essa nova realidade

O Brasil não está sem regras para esses equipamentos. A Resolução nº 996/2023 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) estabelece critérios para ciclomotores, bicicletas elétricas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos.

A norma define, por exemplo, características para enquadramento de equipamentos autopropelidos e bicicletas elétricas, incluindo limites de potência e velocidade. Também estabelece diferenças importantes entre essas categorias e os ciclomotores.

Essa diferenciação é fundamental porque nem todo veículo elétrico deve ser tratado da mesma maneira.

Uma bicicleta elétrica não é necessariamente um ciclomotor. Um patinete não deve ser confundido com uma motocicleta. Um triciclo elétrico pode ter características diferentes de outro equipamento.

Por isso, informação, orientação e sinalização precisam acompanhar o crescimento desses veículos.

A própria regulamentação federal prevê que o órgão ou entidade com circunscrição sobre a via regulamente a circulação desses equipamentos nas vias abertas ao trânsito público, dentro das regras estabelecidas nacionalmente.

É justamente aí que Rio das Ostras tem uma oportunidade.

A cidade precisa preparar o caminho antes que o problema apareça

Uma cidade com 35 mil veículos elétricos precisa pensar em infraestrutura de forma diferente.

Não basta construir uma ciclovia isolada em determinado bairro. É necessário criar uma rede conectada, permitindo que o usuário consiga sair de casa e chegar ao seu destino sem precisar abandonar a estrutura segura no meio do caminho.

Também é preciso olhar para os cruzamentos, acessos, sinalização, iluminação, pavimento, rampas, travessias e velocidade das vias.

O próprio Plano de Diretrizes para Mobilidade Urbana de Rio das Ostras já trabalha com a ideia de redes para o transporte não motorizado, incluindo uma rede pedonal e uma rede cicloviária. Isso mostra que não estamos começando do zero.

O município já possui planejamento e estudos que reconhecem a necessidade de organizar os deslocamentos não motorizados. O desafio agora é atualizar esse planejamento diante de uma realidade que mudou rapidamente.

A mobilidade elétrica precisa entrar definitivamente nessa conversa.

Ciclovias precisam ser seguras, conectadas e bem sinalizadas

Quando defendemos a ampliação das ciclovias e ciclofaixas, não estamos defendendo apenas mais faixas pintadas no asfalto.

Estamos falando de infraestrutura capaz de proteger quem utiliza esses equipamentos.

Uma ciclovia precisa ter continuidade. Precisa estar conectada aos bairros, áreas comerciais, escolas, unidades de saúde, praias e demais pontos de interesse. Precisa ser compreensível para quem utiliza e para quem cruza seu trajeto.

A sinalização também precisa deixar claro quem pode circular naquele espaço, qual a velocidade adequada e como deve ocorrer a interação entre ciclistas, usuários de veículos elétricos, pedestres e motoristas.

O planejamento municipal já reconhece a importância da rede cicloviária. O próprio PDMURO apresenta propostas para organização das vias e prevê diferentes soluções para ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, de acordo com a hierarquia viária. (Prefeitura de Rio das Ostras)

Agora precisamos transformar esse conhecimento técnico em uma rede que funcione no cotidiano.

Para idosos e PCDs, não é apenas transporte. É autonomia

Talvez esse seja o ponto mais importante de toda essa discussão.

Para muitas pessoas, comprar uma bicicleta elétrica, um triciclo ou outro equipamento de mobilidade não significa simplesmente adquirir um veículo.

Significa poder sair de casa sem depender de alguém.

Significa conseguir ir ao comércio, à consulta médica, à praia, ao trabalho, à igreja ou visitar familiares.

Para uma pessoa idosa, isso pode representar independência.

Para uma pessoa com deficiência, pode representar autonomia.

E quando o transporte coletivo não oferece condições adequadas para todos os cidadãos, essas alternativas ganham ainda mais importância.

Por isso, mobilidade elétrica também precisa ser discutida como política de inclusão.

Uma cidade acessível não deve obrigar uma pessoa com mobilidade reduzida a escolher entre ficar em casa ou se arriscar em uma via sem estrutura adequada.

Calçada é espaço de pedestre

Ao mesmo tempo, defender a mobilidade elétrica não significa aceitar que esses equipamentos sejam utilizados de maneira indiscriminada nas calçadas.

É preciso separar as coisas.

Pedestres precisam ter segurança. Crianças precisam de espaço. Idosos precisam poder caminhar sem medo. Pessoas com deficiência precisam encontrar calçadas acessíveis, livres de obstáculos e adequadas às suas necessidades.

Quando um equipamento circula de maneira inadequada e em velocidade incompatível com aquele espaço, todos ficam vulneráveis.

Por isso, a organização da mobilidade elétrica precisa caminhar junto com a defesa da acessibilidade.

Não devemos retirar um problema de uma via para simplesmente colocá-lo sobre a calçada.

A solução está em criar espaços adequados para cada forma de deslocamento.

Fiscalização precisa vir acompanhada de educação

Também não acredito que a resposta esteja apenas em multas.

Fiscalizar é necessário, mas educar é fundamental.

Rio das Ostras pode desenvolver campanhas permanentes explicando as diferenças entre bicicletas elétricas, equipamentos autopropelidos e ciclomotores, além das regras de circulação e dos equipamentos obrigatórios.

A Guarda Municipal e os setores responsáveis pelo trânsito podem trabalhar em conjunto com entidades, empresas e usuários para orientar a população.

A AME, por exemplo, nasceu justamente com uma proposta de fortalecer a mobilidade elétrica consciente, atuando com educação, prevenção e convivência urbana.

Esse tipo de parceria pode ser muito importante.

O empresário que comercializa o equipamento também pode orientar o consumidor. A associação pode contribuir com campanhas. Os usuários podem participar da construção das regras. E o poder público pode organizar e fiscalizar.

Quando todos participam, a chance de a solução funcionar é muito maior.

Setembro pode ser o começo de uma nova conversa

O Fórum previsto para setembro pode representar uma oportunidade importante para Rio das Ostras.

Em vez de transformar o encontro em mais uma reunião para listar problemas, podemos utilizá-lo para construir uma agenda positiva de mobilidade elétrica.

Poderíamos começar pelo levantamento dos principais trajetos utilizados pelos 35 mil veículos estimados no município.

Depois, identificar os pontos de maior risco e os locais onde uma ciclovia ou ciclofaixa poderia ser implantada ou conectada.

Também seria possível discutir uma sinalização específica, rotas prioritárias, travessias mais seguras, redução de velocidade em determinados trechos e acessibilidade para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

Outro passo importante seria criar um grupo permanente de diálogo entre Prefeitura, usuários, AME, entidades de pessoas com deficiência, idosos, ciclistas, empresários e especialistas.

Assim, a cidade não precisaria esperar acidentes para corrigir problemas.

Rio das Ostras pode transformar o desafio em oportunidade

A boa notícia é que Rio das Ostras já tem alguns dos elementos necessários para começar essa transformação.

Tem planejamento de mobilidade. Tem uma população que utiliza bicicletas e outros meios não motorizados. Tem uma quantidade crescente de veículos elétricos. Tem empresários interessados no setor. Tem entidades que podem colaborar. E tem pessoas com deficiência e idosos que precisam ser ouvidos porque conhecem, na prática, as dificuldades encontradas nas ruas.

Além disso, o município continua realizando intervenções relacionadas à mobilidade. Em abril deste ano, por exemplo, a Prefeitura informou que uma próxima fase da revitalização da Rodovia do Contorno prevê a construção de uma ciclovia em toda a extensão da via. 

Esse tipo de iniciativa pode fazer parte de uma rede maior.

Precisamos conectar as soluções.

Não basta uma ciclovia aqui e outra ali. Precisamos pensar na cidade como um sistema.

O momento não é de procurar culpados, mas de construir aliados

Durante muito tempo, a mobilidade urbana foi discutida principalmente a partir das reclamações.

Eu acredito que podemos avançar de outra maneira.

O momento é de construir aliados.

O governo municipal precisa dos usuários. Os usuários precisam de infraestrutura. Os empresários precisam de regras claras. As entidades precisam participar. As pessoas com deficiência e os idosos precisam ser ouvidos.

E todos precisam entender que segurança é responsabilidade coletiva.

Não queremos uma cidade sem regras.

Também não queremos uma cidade que proíba novas tecnologias simplesmente porque sua infraestrutura ainda não acompanhou a evolução.

Queremos uma cidade que se prepare.

Rio das Ostras pode ser referência regional em mobilidade elétrica e acessibilidade se conseguir transformar esse crescimento em planejamento.

Uma cidade inteligente é aquela que se adapta às pessoas

A Política Nacional de Mobilidade Urbana trabalha com princípios de acessibilidade universal, desenvolvimento sustentável e integração entre os diferentes modos de transporte.

É esse conceito que precisamos trazer para a realidade de Rio das Ostras.

A cidade de hoje já não é a mesma de alguns anos atrás. Os veículos mudaram. Os hábitos mudaram. A população envelheceu. Novas necessidades surgiram.

Agora precisamos fazer com que a infraestrutura acompanhe essa transformação.

Os 35 mil veículos elétricos não devem ser vistos apenas como um número.

Eles representam 35 mil possibilidades de deslocamento, autonomia e transformação da mobilidade urbana — e também um alerta de que precisamos planejar antes que os conflitos aumentem.

Bicicletas elétricas, patinetes, triciclos e outros equipamentos podem fazer parte de uma cidade mais limpa, acessível e humana.

Mas para isso precisamos oferecer caminhos seguros.

Ciclovias conectadas. Sinalização adequada. Calçadas acessíveis. Educação. Fiscalização. Diálogo.

Não é preciso escolher entre tecnologia e segurança.

Podemos ter as duas.

E talvez esse seja o melhor caminho para Rio das Ostras: não frear o futuro, mas preparar a cidade para recebê-lo.

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