Artigo — Por Angel Morote
Quando vi os novos operadores de trânsito trabalhando nas
ruas de Rio das Ostras, principalmente em pontos estratégicos e nos horários de
maior movimento, pensei que a iniciativa pode representar um avanço importante
para a organização da cidade. A Prefeitura informa que esses profissionais
atuam na orientação, organização do fluxo e prevenção de acidentes, em conjunto
com a Guarda Civil Municipal, e não têm como função aplicar multas.
É uma presença que pode fazer diferença. Quem está diariamente
nas ruas consegue perceber problemas que muitas vezes não aparecem nos
relatórios ou nas reuniões. Um veículo parado irregularmente, uma motocicleta
circulando de maneira perigosa, um condutor sem capacete, uma placa
aparentemente irregular ou qualquer outra situação de risco pode ser
identificada por quem está justamente na linha de frente da mobilidade.
Mas existe uma pergunta que considero necessária: como essas informações chegam rapidamente a
quem tem competência para fiscalizar e tomar as providências cabíveis?
Não estou defendendo que os novos operadores sejam
transformados em agentes de fiscalização ou que passem a aplicar multas. A
própria Prefeitura já deixou claro que essa não é a função deles. O que defendo
é que eles possam funcionar, quando necessário, como uma importante ponte de
comunicação com a Guarda Civil Municipal e com os servidores responsáveis pela
fiscalização do trânsito.
A tecnologia pode ajudar muito nesse processo. Um rádio, um
canal de comunicação eficiente ou outro sistema integrado poderia permitir que
uma situação de risco observada pelo operador fosse rapidamente comunicada à
equipe competente. Assim, cada profissional atuaria dentro de sua atribuição,
mas o cidadão teria uma resposta mais rápida.
A mobilidade também acontece nas calçadas
Quando falamos em trânsito, normalmente pensamos nos carros,
ônibus e motocicletas circulando pelas ruas. Mas existe uma parte fundamental
da mobilidade que muitas vezes fica esquecida: a calçada.
É nela que circulam pessoas com deficiência, idosos com
mobilidade reduzida, gestantes, crianças e pedestres em geral. Para essas
pessoas, uma calçada obstruída, desnivelada ou ocupada irregularmente pode
representar um obstáculo tão sério quanto um problema encontrado na pista.
Por isso, acredito que os novos operadores também poderiam
ter uma presença estratégica nas calçadas do Centro e em outros locais de
grande circulação de pedestres, ajudando na orientação e na identificação de
situações que comprometem o direito de ir e vir.
E isso se torna ainda mais necessário diante de uma nova
realidade que já está nas ruas: bicicletas elétricas, triciclos, patinetes e
outros equipamentos de mobilidade.
Bicicletas elétricas exigem orientação e respeito
Rio das Ostras está vivendo uma transformação na maneira
como as pessoas se deslocam. Os veículos elétricos e outros equipamentos de
mobilidade já fazem parte do cotidiano da cidade e não devem ser tratados como
inimigos.
Ao contrário. São alternativas que podem contribuir para uma
mobilidade mais sustentável.
Mas tecnologia nova exige também educação, regras claras e
fiscalização adequada.
Nas áreas de grande circulação, é fundamental orientar quem
conduz esses equipamentos sobre a necessidade de respeitar os pedestres. Em
determinados locais, pode ser necessário conduzir o equipamento com cuidado,
reduzir a velocidade ou até empurrá-lo durante um trecho de maior concentração
de pessoas.
Não podemos permitir que a modernização da mobilidade
aconteça em prejuízo de quem anda a pé.
Lembro que, no passado, havia presença de guarda municipal
em determinados trechos do Centro justamente para orientar ciclistas e
organizar a convivência entre bicicletas e pedestres. Hoje, diante do
crescimento dos veículos elétricos, essa presença educativa nas calçadas pode
voltar a ser necessária, agora adaptada à nova realidade.
A própria Câmara Municipal já debate o assunto. O Projeto de
Lei nº 16/2026 propõe a criação do Programa Mobilidade Segura, com diretrizes
para o uso seguro e responsável de bicicletas elétricas. Isso mostra que o
município já percebeu que essa transformação precisa ser acompanhada por regras
e políticas públicas.
Calçada livre também é mobilidade
Outro problema precisa entrar definitivamente nessa
discussão: a ocupação das calçadas.
É preciso discutir, com responsabilidade e respeito, a
situação dos permissionários da Renda Alternativa, dos comerciantes que colocam
produtos sobre as calçadas, dos estabelecimentos que utilizam o espaço público
de maneira inadequada e de outras situações que acabam reduzindo a área
destinada aos pedestres.
Não se trata de ser contra o comércio ou contra quem
trabalha nas ruas. Muito pelo contrário. A atividade econômica precisa ser
respeitada e valorizada.
Mas o espaço público também precisa ser respeitado.
Uma cidade organizada precisa encontrar o equilíbrio entre o
direito de trabalhar e o direito de caminhar. Uma pessoa com deficiência
utilizando cadeira de rodas, um idoso com dificuldade de locomoção ou uma mãe
empurrando um carrinho de bebê não pode ser obrigado a disputar espaço com
mercadorias, estruturas ou outros obstáculos.
Nesse ponto, um verdadeiro Choque de Ordem nas calçadas pode contribuir para organizar a
cidade sem transformar a ação pública em perseguição a quem trabalha.
O mesmo vale para situações em que estabelecimentos utilizam
vagas de estacionamento da via pública para colocar produtos, realizar serviços
ou expor bicicletas, ou quando vagas são reservadas informalmente com cones e
outros objetos.
A vaga na rua é espaço público. Não pertence ao
estabelecimento comercial da frente.
A cidade precisa decidir que mobilidade quer ter
O crescimento de Rio das Ostras exige que o município pense
além do trânsito tradicional.
Precisamos falar de carros, motocicletas e transporte
público, mas também de bicicletas convencionais, bicicletas elétricas,
triciclos, patinetes, pedestres e pessoas com deficiência.
Precisamos discutir ciclovias, calçadas acessíveis,
travessias, sinalização, estacionamento, fiscalização, educação no trânsito e
ocupação do espaço público.
E tudo isso precisa ser pensado de maneira integrada.
O município já possui uma trajetória nesse debate. Em 2024
foi criado o Conselho Gestor da Mobilidade Urbana, resultado de um processo que
reuniu poder público, entidades e população. Em 2025, o 2º Fórum de Mobilidade
Urbana Sustentável voltou a reunir diferentes setores para discutir
acessibilidade, segurança, ciclovias, transporte e planejamento urbano.
Agora, precisamos avançar.
9 de setembro pode ser um novo ponto de partida
É nesse contexto que considero extremamente importante o 3º
Fórum de Mobilidade Urbana Sustentável, marcado para o dia 9 de setembro, às 15h, na Câmara Municipal de
Rio das Ostras.
Mais do que um evento no calendário, o Fórum pode ser uma
oportunidade para colocarmos sobre a mesa os problemas que encontramos
diariamente nas ruas.
Que cidade queremos construir?
Uma cidade pensada apenas para os veículos?
Ou uma cidade em que o motorista tenha seu espaço, o
ciclista tenha segurança e o pedestre tenha o direito de caminhar com
tranquilidade?
E, principalmente, uma cidade em que uma pessoa com
deficiência possa sair de casa sem precisar enfrentar obstáculos que poderiam
ser evitados com planejamento e fiscalização?
Essa discussão não pode ficar restrita ao poder público.
Precisa envolver comerciantes, trabalhadores, ciclistas, motoristas,
motociclistas, pessoas com deficiência, idosos, entidades, especialistas e toda
a população.
Os novos operadores podem ser parte dessa transformação
Vejo com bons olhos a chegada dos novos operadores de
trânsito.
Eles podem ajudar a organizar o fluxo, orientar a população
e prevenir acidentes. Mas acredito que podemos aproveitar ainda mais essa
estrutura.
Se esses profissionais estarão presentes nos pontos de maior
movimento, eles também podem ajudar o município a enxergar aquilo que acontece
diariamente nas ruas e nas calçadas.
Um obstáculo na calçada.
Uma situação de risco.
Um equipamento elétrico sendo utilizado de maneira perigosa.
Uma vaga pública ocupada irregularmente.
Uma sinalização inadequada.
Um comportamento que pode provocar um acidente.
Tudo isso pode ser observado, orientado e, quando
necessário, comunicado à equipe responsável pela providência adequada.
Não precisamos transformar cada problema em multa. Muitas
vezes, a orientação correta no momento certo evita que uma infração se
transforme em acidente.
Mas também não podemos confundir orientação com ausência de
fiscalização. Cada profissional deve cumprir sua atribuição, e os órgãos
responsáveis precisam agir quando a situação exigir.
Rio das Ostras está crescendo e sua mobilidade também está
mudando.
Por isso, o desafio agora é fazer com que ruas e calçadas
sejam pensadas como partes de um mesmo sistema.
Mobilidade urbana não termina no meio-fio. Ela começa
onde as pessoas caminham.
O futuro da nossa cidade precisa ser construído com
planejamento, educação, fiscalização, acessibilidade e, principalmente,
respeito à vida.
E o dia 9 de setembro pode ser uma excelente oportunidade
para começarmos essa conversa.

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