Quarto dia do RioFW celebra a moda brasileira que pulsa com o ritmo da vida | Rio das Ostras Jornal

Quarto dia do RioFW celebra a moda brasileira que pulsa com o ritmo da vida

Quarto dia do RioFW celebra a moda brasileira que pulsa com o ritmo da vida

O quarto dia do Rio Fashion Week (RioFW) consolidou-se como um palco vibrante para a moda brasileira, demonstrando que a criatividade nacional transcende as passarelas tradicionais. Longe de uma progressão linear, os desfiles apresentaram uma coreografia de estilos que acelerou, desacelerou e, acima de tudo, reforçou a capacidade da moda de acompanhar o compasso multifacetado da vida. Foi um dia em que a identidade cultural e a expressão pessoal se manifestaram através de coleções que dialogam com a memória, o corpo, a cidade e a passagem do tempo, marcando a relevância do evento no cenário nacional e internacional.

No Pier Mauá, a atmosfera pulsava com a energia de sete desfiles distintos, cada um com sua linguagem particular, mas unidos pela sensação de que a moda, quando autêntica, desfila permanência e constante recomposição. Este evento não apenas exibe tendências, mas também reflete e molda discussões sociais e culturais, posicionando o RioFW como um termômetro da inovação e da diversidade no Brasil.

Angela Brito e a alma carioca em “Entropia”

A abertura do dia coube a Angela Brito, que com sua coleção “Entropia” apresentou uma visão do Rio de Janeiro que vai além do cartão-postal. A estilista mergulhou na essência contraditória da cidade, explorando seu lado saturado, quente, mineral e exuberante. A coleção é um tributo ao Rio de pedra, asfalto e vegetação insistente, traduzindo a energia que a metrópole gera ao ser tudo ao mesmo tempo.

A sustentabilidade e o artesanato local foram pilares fundamentais. Oito artesãos colaboraram na criação de peças com madeira descartada, trançados de couro, sementes naturais e crochê em palha com tingimento natural. Essa abordagem reforça o compromisso com a produção consciente e valoriza a riqueza do trabalho manual brasileiro, conectando a moda a práticas mais éticas e sustentáveis. A coleção de Angela Brito não apenas vestiu corpos, mas também narrou a complexidade e a beleza da vida carioca.

Karoline Vitto: o corpo como escultura na moda brasileira

A estreia de Karoline Vitto no RioFW foi um marco, reafirmando sua pesquisa sobre o corpo como uma escultura a ser celebrada, e não um problema a ser corrigido. Após inovar em Londres e Milão, a designer trouxe para o Brasil sua visão que contraria o culto farmacêutico à redução de vontades e excessos. Em sua coleção “Sunburn”, Karoline emoldura, dobra e cria uma armadura desconstruída para uma mulher que naturalmente demanda poder e visibilidade.

Suas peças utilizam cordas que sustentam, metais que envolvem e recortes que acompanham o olhar, revelando a pele não como provocação, mas como um gesto de quem compreende que no Rio o corpo é o primeiro lugar onde a cidade se manifesta. Vencedora do LVMH Prize e responsável pelo primeiro desfile 100% plus size da temporada italiana em 2022, Karoline Vitto reforça que o corpo brasileiro não precisa de moldes importados. Desde 2024, toda a produção, incluindo fibra celulósica, gabardine de algodão egípcio e denim bruto com tingimento sustentável, é feita no Brasil, abrangendo tamanhos do PP ao 3G, um exemplo de inclusão e valorização da indústria nacional.

Apartamento 03: narrativas e ancestralidade na passarela

A coleção da Apartamento 03, inspirada por uma imagem de Clarice Lispector em um cartaz de metrô, desdobrou-se em uma homenagem às mulheres que historicamente foram marginalizadas. Da Macabéa de “A Hora da Estrela” à ancestralidade reconhecida por Conceição Evaristo, a coleção é descrita como uma festa para quem nunca foi convidada, celebrando a obstinação silenciosa e o brilho que não precisa gritar.

A alfaiataria plissada apareceu leve, escorrendo pelo corpo em camisolas, cetins e rendas, misturando-se a elementos esportivos em uma leitura solar do Rio. As referências literárias sobre religiões de matriz africana e a mitologia dos orixás não foram meros adereços, mas a espinha dorsal da coleção, conferindo profundidade e significado cultural. Luiz Cláudio, o designer, destacou a chegada ao Rio como uma coroação de sua trajetória, apresentando roupas que, por si só, formam uma constelação completa de histórias e identidades.

Helô Rocha: memória e metamorfose em tecidos

Helô Rocha entregou um dos momentos mais delicadamente emocionais da noite. Suas noivas, sereias e piratas foram concebidas não em uma fantasia imaculada, mas em um rito atravessado pelo tempo. Partindo de referências vitorianas, pérolas, organzas e sedas, os looks avançaram, com sedas rasgadas e brancos que amarelavam, perdendo a falsa pureza para ganhar a riqueza da memória. Não havia melancolia, mas a beleza da sobrevivência.

A coleção de Helô Rocha, em colaboração com Camila Pedroza, utilizou tecidos de segunda mão, com manchas, desgastes e rasgos, toalhas antigas, lençóis inutilizáveis, metais reciclados, joias vintage e bordados feitos por artesãs de Timbaúba dos Batistas. Essa abordagem transformou a imperfeição em linguagem, mostrando que o tempo altera idealizações, mas aprofunda a força simbólica das coisas. Quando a Marcha Nupcial de Mendelssohn se converteu em funk, o desfile transmitiu a mensagem de que o amor e a vida devem ser aceitos em suas metamorfoses.

Adidas Originals e o pulso das ruas

O quarto dia do RioFW trocou a reverberação íntima pelo pulso da rua com a apresentação da adidas Originals. A marca trouxe o Megaride, tênis dos anos 2000 que se tornou um ícone nas periferias brasileiras, como fio condutor de sua coleção. A presença das rappers Tasha e Tracie no desfile reforçou a conexão da marca com a cultura urbana e a juventude contemporânea, celebrando a autenticidade e a influência do estilo de rua na moda brasileira atual. A adidas Originals demonstrou como a moda esportiva se integra e se inspira nas realidades e nos ritmos das grandes cidades, mantendo-se relevante e conectada com seu público.

O RioFW continua a ser um evento crucial para a indústria da moda, não apenas como vitrine de tendências, mas como um espaço de reflexão sobre a cultura, a sociedade e a identidade brasileira. A diversidade de abordagens e a profundidade das narrativas apresentadas neste quarto dia reforçam o potencial criativo e a capacidade de reinvenção dos designers nacionais, que, ao invés de seguir uma linha reta, preferem dançar no compasso da vida.

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