Inclusão além do discurso: a barreira do "favor" em Rio das Ostras | Rio das Ostras Jornal

Inclusão além do discurso: a barreira do "favor" em Rio das Ostras



Por Angel Morote

Em Rio das Ostras, a palavra "acessibilidade" costuma ser pronunciada com uma leveza que ignora a dureza da realidade enfrentada pelas pessoas com deficiência (PCD). Nas peças publicitárias da prefeitura e nos discursos em palanques, a inclusão é apresentada como um compromisso inabalável. No entanto, para quem depende de uma prótese, como eu, ou de uma cadeira de rodas, o que encontramos nas ruas é um cenário onde o nosso direito constitucional é tratado, muitas vezes, como um "favor" ou uma "bondade" da gestão pública. Essa mentalidade assistencialista é o primeiro grande muro que precisamos derrubar para alcançar uma cidadania de fato.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI - Lei 13.146/2015) é clara: a acessibilidade é um direito que garante à Pcd o exercício de sua autonomia e de sua participação social. No entanto, ao percorrermos o Centro ou bairros em expansão como o Cantagalo e o Âncora, percebemos que o planejamento urbano ainda ignora o conceito de desenho universal. Quando uma calçada é construída sem o rebaixamento correto ou quando um prédio público possui uma rampa com inclinação que desafia as leis da física, a mensagem enviada à Pcd é de que ela não foi convidada para ocupar aquele espaço. O cumprimento da lei não deveria ser motivo de propaganda, mas o padrão básico de qualquer obra pública que se preze.

Além das barreiras físicas, enfrentamos o preconceito atitudinal. Muitas vezes, ao cobrarmos melhorias na mobilidade urbana, somos vistos como "reclamões" ou "exigentes demais". Esse é o reflexo de uma sociedade que ainda enxerga a deficiência sob a ótica da caridade e não do direito. É preciso que os gestores de Rio das Ostras entendam que cada rampa mal projetada e cada ônibus sem elevador funcionando representam uma violação direta à nossa dignidade humana. A inclusão não se faz com palavras bonitas em datas comemorativas, mas com orçamento público destinado a reformas estruturais e fiscalização severa sobre as obras que ignoram as normas da ABNT.

Como ex-presidente do Conselho Municipal e membro da Comissão de Mobilidade Urbana, afirmo que não aceitaremos mais migalhas de acessibilidade. Queremos uma cidade onde o acesso ao comércio, à cultura e aos serviços públicos seja fluido e natural. Rio das Ostras tem potencial para ser uma referência em inclusão, mas para isso precisa abandonar o amadorismo nas obras e a condescendência no atendimento. A nossa luta é para que o direito de ir e vir não seja uma aventura perigosa, mas uma garantia cotidiana.

Afinal, até quando a gestão pública e a própria sociedade de Rio das Ostras continuarão tratando a nossa presença nos espaços comuns como uma concessão especial e não como um dever irrevogável do estado?

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