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| "A humanização no atendimento exige que o profissional enxergue a pessoa antes da deficiência." A. Morote. |
O sistema de
saúde de Rio das Ostras enfrenta desafios crônicos, mas
existe uma camada de dificuldade que raramente é discutida fora dos nossos
círculos de convivência: a desumanização da pessoa com deficiência dentro dos
hospitais, clínicas e laboratórios. Muitas
vezes, somos reduzidos à nossa condição clínica ou ao "membro que
falta", como se a nossa identidade fosse absorvida por um diagnóstico. Esse fenômeno, conhecido como modelo
médico da deficiência, ignora que somos indivíduos com desejos, opiniões e,
acima de tudo, autonomia sobre o próprio corpo.
No dia a dia
dos nossos postos de saúde, a falta de preparo atitudinal dos profissionais é
gritante. É comum, por exemplo,
que médicos ou enfermeiros se dirijam ao acompanhante para perguntar sobre a
nossa saúde, mesmo quando somos perfeitamente capazes de nos comunicar. Essa infantilização da Pcd é uma forma de violência simbólica
que mina a nossa autoestima e desrespeita a nossa trajetória. Além disso, a infraestrutura técnica
deixa muito a desejar. Quantas
vezes nos deparamos com mesas de exames fixas, onde a transferência de um
cadeirante se torna um exercício de risco e humilhação por falta de
equipamentos reguláveis ou guinchos de transferência?
A humanização
no atendimento exige que o profissional enxergue a pessoa antes da deficiência.
Para um amputado, o cuidado com
o coto e a manutenção da prótese são questões técnicas que exigem conhecimento
específico, mas o acolhimento psicológico é igualmente vital. Rio das Ostras precisa investir urgentemente em capacitação para que as
equipes de saúde entendam que a Pcd
não é apenas um "paciente complexo", mas um cidadão que merece ser
ouvido e respeitado em sua singularidade. A acessibilidade comunicacional também é um gargalo; pacientes
surdos ou cegos muitas vezes saem de consultas sem compreender plenamente o
tratamento devido à falta de intérpretes ou materiais adaptados.
Minha
vivência como paratleta me ensinou que o nosso corpo é uma ferramenta de
superação, mas ele também exige um suporte de saúde que seja parceiro da nossa
autonomia. Não queremos
privilégios; queremos igualdade de condições no acesso ao cuidado. Saúde é um estado de completo
bem-estar físico e social, e isso é impossível de alcançar em um sistema que
nos olha com estranheza ou com pressa de nos dispensar para o próximo
"caso".
Diante desse
cenário, pergunto aos gestores da saúde municipal: quando o plano de metas da
prefeitura passará a incluir a humanização atitudinal e a adequação técnica das
unidades de saúde como prioridades reais para a nossa população?

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