Após mais de 20 anos no poder, a
esquerda sofreu uma derrota amarga na Bolívia. Desde 2019, o país tem vivido
denúncias de golpe, crise econômica desenfreada e tentativa de boicote
eleitoral
O primeiro turno das eleições na
Bolívia confirmaram dois candidatos de direita para a sequência da disputa.
Rodrigo Paz Pereira, do Partido Popular Cristão, e Jorge “Tuto” Quiroga, do
Liberdade e Democracia, derrotaram Andrónico Rodríguez, da Aliança Popular, e
Eduardo del Castillo, do Movimento ao Socialismo (MAS).
Na frente da disputa, Paz Pereira
conquistou 32,08% dos votos, enquanto Tuto teve 29,94%. Em terceiro lugar ficou
o político e empresário milionário Samuel Doria Medina, com 19,93%, relegando a
esquerda ao quarto e sexto lugar na disputa.
O esquerdista Andrónico Rodríguez
teve 8,15%, seguido por Manfred Reyes Villa, da aliança de centro-direita
APB-Sumate, com 6%, e somente em sexto lugar figurou Eduardo del Castillo, do
MAS, partido que governou o país nos últimos 20 anos.
A derrota histórica da esquerda
boliviana está cercada de polêmicas, em especial pelos resultados econômicos
fracassados do país nos últimos anos. A Bolívia enfrenta uma crise econômica e
escassez de alimentos e combustíveis desde 2014, época em que iniciou a queda
na produção de gás e petróleo no país.
Diante disso, a nação viu a
diminuição das suas reservas internacionais, utilizadas em parte para sustentar
subsídios, aumento do déficit fiscal e uma inflação que chegou perto de 25% em
julho de 2025, pior índice desde 2008.
Derrota para Evo Morales
O ex-presidente Evo Morales tem
amargado uma sequência de derrotas no país. Mandatário entre 2006 e 2019, o
político, até então do MAS, emendou três mandatos consecutivos, alterando,
inclusive, a Constituição do país para tentar um quarto mandato.
O político se elegeu em 2005 pela
primeira vez, com 54% dos votos, já em 2009 foi reeleito, com 64%. Para
concorrer em 2014, alegou na justiça que a Constituição foi aprovada em 2009,
durante seu primeiro mandato. A justiça então entendeu que o político poderia
concorrer pela terceira vez, pois a regra constituicional que impediria tal
ação não estava em vigor quando ele se elegeu pela primeira vez. Foi então que
Morales concorreu e se reelegeu com 61% dos votos.
Até então, Evo Morales havia
conseguido diminuir em mais da metade o índice de pobreza no país e dobrar o
crescimento econômico com políticas de nacionalização dos hidrocarbonetos
(exploração de petróleo e gás natural) e independência econômica.
Porém, em 2015, o político
conseguiu aprovação no parlamento de uma mudança na Constituição, o que lhe
permitiria um quarto mandato consecutivo. Após vencer as eleições daquele ano,
com 47,07% dos votos, Morales viu o pleito ser questionado pela oposição. Ali
foi deflagrado o início da crise do governo Morales.
O começo do fim de Evo Morales
no poder
Na Bolívia, se um candidato tiver
mais de 40% dos votos e uma distância superior a 10% do segundo colocado, vence
em primeiro turno. Porém, o pleito de 2019 foi altamente questionado pela
oposição. O candidato Carlos Mesa, da Aliança Comunidade Cidadã, conquistou 36,51%
dos votos, mas questionou a lisura do pleito.
A apuração na Bolívia conta com
dois modelos de contagem, sendo um rápido – Sistema de Resultados Preliminares
(SIREPRE) ou Transmisión de Resultados Electorales Preliminares (TREP) -, e um
mais longo, definitivo, conhecido como Sistema de Cómputo Oficial de Resultados
Consolidades (SCORC), que conta com três etapas de checagem e agrega todos os
resultados oficiais, baseados nas atas físicas assinadas. Em 2019, a primeira
checagem contou com uma interrupção abrupta, que durou quase 24h e mudou a
tendência que, até então, mostrava que o país teria segundo turno.
Diante da denúncia de “fraude”
por parte de Carlos Mesa, o país viu se instalar uma onda de
manifestações. Relatório da Organização dos Países Americanos (OEA) afirmou
que as eleições tiveram fortes indícios de fraude. Os protestos logo se
alastraram e resultaram na saída de Evo Morales do poder. O líder da esquerda
local e seus sucessores imediatos renunciaram, afirmando que havia pressão das
Forças Armadas para isso.
Foi então que a Jeanine Añez
assumiu o poder. Até então, a política era vice-presidente do Senado da Bolívia
e se autoproclamou chefe do Executivo nacional, com a missão de conclamar novas
eleições imediatamente. Cristã, Jeanine afirmou que a Bíblia estaria de volta
ao palácio e recebeu apoio dos Estados Unidos e outros países.
Porém, um novo pleito só ocorreu
após mais ondas de manifestações pelo país, em plena pandemia de Covid-19.
Volta do MAS ao poder e nova
crise para Evo Morales
Em 2020, Luis Arce, do MAS, foi
eleito com 55,1%, até então como aliado de Evo Morales. Jeanine Añez foi presa,
em março de 2021, por golpe de estado envolvendo as Forças Armadas, o que
voltou a fortalecer o discurso de Morales.
Mas não demorou para os políticos
de esquerda começarem a se degladiar em público. Morales comandava o MAS desde
1988, mas deixou o comando em fevereiro de 2025, acusando Arce de forçar uma
“perseguição judicial” contra ele para o impedir de se candidatar.
Mas a justiça do país entendeu
que o ex-presidente não poderia ser candidato, uma vez que já comandou a
Bolívia por mais de dois mandatos consecutivos. Além disso, Morales é alvo de
um mandado de prisão e vive sob proteção de apoiadores, que o circundam onde
quer que vá.
O mandato foi expedido depois que
o político não compareceu para depor em um caso de suposto abuso de uma menor,
em 2016, quando era presidente. A menina em questão teria, inclusive, tido uma
filha do político, segundo a acusação.
Eleições de 2025 com mais
turbulências
E foi diante de todo esse cenário
conturbado que o país foi para as urnas no último domingo (17) e escolheu dois
candidatos de direita para mudar os rumos da nação. Mas isso não aconteceu sem
novas crises, durante o final de semana, foram registradas explosões em locais de votação no país.
Morales ainda tentou mais uma cartada, pedindo para a população votar nulo, em uma tentativa de tumultuar, mais uma vez, as eleições bolivianas. Por mais que, assim como no Brasil, votos nulos não tenham poder de cancelar o resultado de uma eleição, Morales pretendia usar a narrativa de que o povo da Bolívia não se sentia representado por nenhum dos candidatos e questionar a legitimidade do processo eleitoral. Mas o político viu esse plano fracassar também. Segundo dados da justiça eleitoral do país, mais de 78% da população apta a votar escolheu um dos candidatos.
O segundo turno na Bolívia está
marcado para o dia 19 de outubro de 2025.
Por Erick Mota/RIC.Com



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