Abbas Araghchi representou o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, que não viajou ao Rio de última hora por causa do conflito com Israel. PEDRO KIRILOS/ESTADÃO CONTEÚDO
‘A República Islâmica do Irã expressa reservas
à ideia de dois Estados proposta na declaração final dos líderes do Brics e
registra suas reservas enviando uma nota’, disse o ministro das Relações
Exteriores, Abbas Araghchi
O ministro das Relações
Exteriores do Irã,
Abbas Araghchi, expressou uma divergência do país em relação à Declaração de
Líderes do Brics, adotada neste domingo (6). O país decidiu reafirmar sua
histórica oposição à existência do Estado de Israel, e o apoio a um Estado
Palestino único. “A República Islâmica do Irã expressa reservas à ideia de dois
Estados proposta na declaração final dos líderes do Brics e registra suas
reservas enviando uma nota”, disse Araghchi, no que a diplomacia costuma considerar
uma explicação de voto em separado. A declaração final do Brics repetiu a
histórica proposta de apoio à existência de dois Estados.
Ao apresentar a nota, o chanceler
formalmente deixou de impedir uma declaração de consenso entre o Brics, o que seria
um sinal de mais desacordo ainda no grupo e um fracasso diplomático para o
Brasil. Ele representou o presidente Masoud Pezeshkian, que não viajou ao Rio
de última hora por causa do conflito com Israel. O Irã já tinha reservado 70
quartos de hotel para a delegação presidencial, em três andares do Windsor, na
Barra da Tijuca.
Durante almoço de trabalho com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chanceler iraniano expressou a posição
do país sobre a questão palestina e pediu que os chefes de Estado e de governo
fossem “realistas” e observassem a situação no terreno. “Todos sabemos que,
enquanto a questão palestina não for resolvida de forma justa, seu direito à
autodeterminação não for garantido e os crimes do regime sionista contra os
palestinos não forem interrompidos, a insegurança e a tensão não acabarão em
nossa região e a paz e a estabilidade não serão estabelecidas”, disse o
ministro.
“A solução de dois Estados, que
vem sendo repetida há anos, não chegou a lugar nenhum, e está claro para todos
que o próprio regime israelense é o maior obstáculo para sua concretização. Por
favor, sejam realistas. Observem a situação”, afirmou o chanceler. Ele recordou
que desde a discussão da partilha da Palestina, nas Nações Unidas, seu país
vota contra. Essa é também a posição oficial adotada pela revolução islâmica,
que trata o país como “regime sionista” ou “entidade sionista”, tamanha a
rivalidade.
“A República Islâmica do Irã
considera que uma solução justa para a Palestina seria um referendo com a
participação de todos os habitantes originais da Palestina, incluindo judeus,
cristãos e muçulmanos, e esta não é uma solução irrealista ou inatingível”,
afirmou. A maior autoridade da diplomacia iraniana comparou a situação ao fim
do apartheid na África do Sul, quando “surgiu um Estado democrático” com a convivência
pacífica de negros e brancos.
“Em nossa opinião, o mesmo padrão
deve ser repetido na Palestina. A solução de dois Estados não funcionará, assim
como não funcionou no passado”, afirmou. “Em nossa opinião, a solução deve ser
a formação de um Estado único e democrático, no qual os principais habitantes
da Palestina, incluindo judeus, muçulmanos e cristãos, vivam juntos em paz, e
esta é a maneira de garantir a justiça, pois sem justiça, o problema palestino
não será resolvido, e sem resolver o problema palestino, outros problemas na
região não serão resolvidos”, disse.
Em outro discurso, o ministro
agradeceu aos líderes do Brics por elevarem o tom e passarem a condenar os
bombardeios promovidos por Estados Unidos e Israel. “Gostaria de expressar
minha sincera gratidão aos estimados membros do Brics que, cientes de sua grave
responsabilidade pela paz e segurança internacionais, condenaram os atos de
agressão contra meu país por dois regimes nucleares desde 13 de junho”, disse o
ministro.
JP

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