Enquanto isso, os indígenas
brasileiros continuam reféns de uma legislação engessada e muitas vezes sofrem
com a miséria
New Town — A rua principal de New
Town, no Estado norte-americano de Dakota do Norte, pouco difere das outras
cidades de seu tamanho: há um posto dos Correios, uma lanchonete da rede
Subway, um café, um restaurante chinês e um mexicano. Também é possível ver um
pequeno mercado, uma igreja e dois hotéis.
Volta e meia, um carro da polícia
passa, sem pressa, já que parece não haver bandidos a perseguir. Tudo normal. A
única diferença é que New Town fica dentro de uma reserva indígena.
A reportagem de Oeste esteve
lá para entender melhor as diferenças que permitem aos nativos norte-americanos
tomar as rédeas da própria vida, enquanto os indígenas brasileiros, donos de
14% do território nacional, são reféns de uma legislação engessada e muitas
vezes sofrem com a miséria.
A reserva indígena de Fort
Berthold
Em Fort Berthold, os carros de
polícia (alguns do modelo Dodge Charger, que custa aproximadamente R$ 170 mil)
são identificados com o símbolo da Nação MHA: um emblema mostrando três figuras
com um cocar na cabeça, cada uma representando uma das tribos que deram origem
à reserva — Mandan, Hidatsa e Arikara. O símbolo também aparece na bandeira em
frente a cada um dos prédios da administração local. Na reserva de Fort
Berthold, os indígenas estão no controle, e a administração é eficiente.
A situação dos indígenas começou
a se transformar a partir de 1993, com a construção de um hotel com cassino. O
empreendimento gerou empregos para a comunidade, tornou-se uma fonte de renda e
foi aos poucos se expandindo, para incluir um restaurante e uma área de lazer
com toboágua.
A segunda aposta, entretanto, foi
muito mais ousada: a extração de petróleo. O projeto teve início pouco mais de
uma década atrás, quando as pradarias começaram a ser perfuradas em busca do
recurso natural.
A comunidade firma parcerias com
empresas de fora, que se comprometem a pagar royalties e
impostos sobre o que produzem. Com a demanda em alta, e o preço em crescimento
quase constante, a economia local deu um salto.
Hoje, a receita anual da reserva
indígena ultrapassa os US$ 400 milhões (quase R$ 2 bilhões), e aproximadamente
90% disso vem da exploração do petróleo.
A comunidade de Fort McKay
Fort Berthold fica em um Estado
relativamente conservador, em um país que ainda é visto como o símbolo do
capitalismo. No vizinho Canadá, contudo, um exemplo semelhante mostra que,
mesmo numa nação com valores ditos progressistas, é possível conciliar o desenvolvimento
econômico com a preservação da cultura indígena e do meio ambiente.
A busca pelo progresso econômico
em Fort McKay, na província de Alberta, foi facilitada por um elemento da
natureza: uma reserva gigantesca de petróleo. Um dos dois blocos sob
controle dos indígenas tem aproximadamente 150 milhões de barris de petróleo.
Uma estimativa com base nos
preços atuais revela que a reserva pode valer mais de US$ 10 bilhões (R$ 50
bilhões). Nada mal para uma comunidade de aproximadamente 800 membros, dos
quais apenas metade vive atualmente na reserva.
A abundância de recursos per
capita permitiu à comunidade um nível de prosperidade inimaginável
para os brasileiros — indígenas ou não. Cada criança nascida na comunidade tem
direito a dividendos dos negócios mantidos pela tribo.
O jovem atinge os 18 anos com uma
poupança de aproximadamente US$ 100 mil canadenses (cerca de R$ 390 mil). Se
fizer um curso de educação econômica, já pode sacar metade do valor. Aos 21,
ele tem o direito de retirar a outra metade.
As reservas indígenas
brasileiras
Os exemplos dos Estados Unidos e
do Canadá não necessariamente são reproduzíveis no Brasil. Existem diferenças
geográficas importantes. As comunidades de Fort Berthold e Fort McKay já se
distanciaram muito de seu modo tradicional de vida. Além disso, eles não vivem
em áreas de mata fechada, como muitas tribos brasileiras.
Ainda assim, a diferença
essencial permanece: por que os indígenas do Brasil dependem dos escassos
recursos do governo federal enquanto suas terras oferecem incontáveis
oportunidades de desenvolvimento econômico?

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