
Informação foi classificada com o grau "reservado" quatro dias
depois de pedido de acesso. RICARDO MORAES/REUTERS
Estado alega
que divulgação dos dados pode vir a prejudicar ou causar risco a planos ou
operações estratégicas da Polícia Civil
A PCERJ (Polícia Civil do Rio de Janeiro) colocou em sigilo por cinco anos o nome de todos os policiais envolvidos na operação Exceptis, realizada na favela do Jacarezinho no último dia 6. O Termo de Classificação de Informação diz que os dados estão em sigilo "em face da segurança e da integridade física dos policiais civis". Embora não seja incomum, especialistas dizem que a decisão prejudica a transparência e pode afrontar previsões da Lei de Acesso à Informação.
A informação
foi classificada com o grau "reservado" quatro dias depois que o
Estadão registrou um pedido para acessá-la por meio do Sistema de Informação ao
Cidadão do Rio. No documento, o estado alega que os dados são
"considerados imprescindíveis à segurança da sociedade, da instituição
policial e seus agentes" e que sua divulgação "pode vir a prejudicar
ou causar risco a planos ou operações estratégicas dos órgãos da Polícia Civil
do Estado do Rio de Janeiro". Vinte e oito pessoas morreram durante a
operação.
O advogado
Bruno Morassutti, co-fundador da agência especializada na lei de acesso à
informação Fiquem Sabendo e conselheiro da Open Knowledge Brasil, diz que não
consegue identificar risco à sociedade ou ao Estado que justifique o sigilo.
"A operação já foi realizada. Não existe mais risco de prejuízo",
fala.
Além disso, ele
explica que há algumas informações que não podem ser classificadas e nem ter
seu acesso negado. Tanto a lei federal quanto o decreto 46.475/18, que
regulamentou a lei no Rio, determinam que "informações sobre condutas que
impliquem violação dos direitos humanos praticadas por agentes públicos ou a
mando de autoridades públicas" não podem estar sob sigilo.
"Tem fatos
importantes sobre a operação que possivelmente implicam na violação de direitos
humanos. Então eu entendo que essa decisão (de colocar o nome dos policiais
envolvidos na operação em sigilo) foi, no mínimo, equivocada", diz
Morassutti.
Para Rafael
Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o sigilo pode se
justificar neste caso porque as supostas violações de direitos humanos ainda
não são um fato consumado. Ele fala que o sigilo sobre esse tipo de informação
não é incomum e varia de acordo com o tipo de processo. A segurança dos
policiais é outro motivo que pesa para a ocultação das informações. "É
tudo uma questão de interpretação", diz.
O MPRJ
(Ministério Público do Rio de Janeiro) criou uma força-tarefa para investigar
as mortes, as tentativas de homicídio e a possível ocorrência de fraude
processual durante a operação. Questionado se o sigilo é comum nessas situações
e se isso poderia prejudicar o controle da sociedade sobre as investigações, o
MPRJ disse que "não tem conhecimento dessa informação" e que não vai
comentar "suposta política de sigilo das forças de segurança".
Na semana
passada, o Grupo de Trabalho de Defesa da Cidadania, coordenado pelo MPF
(Ministério Público Federal), pediu
que seja feita uma investigação independente sem a PCERJ e com
apoio da Polícia Federal. Organizações nacionais e internacionais, entre elas a
Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, o escritório
de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas e a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, condenaram a ação e pediram
uma investigação sobre os possíveis excessos cometidos.
Daniel Hirata,
professor de Sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenador
do Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) da instituição, diz que o
Estado está trabalhando para "blindar" as informações relacionadas à
operação. "É fundamental que a sociedade tenha essas informações para
compreender como agem as forças de segurança", fala.
Ele afirma que
há "todos os indícios" de que, durante a ação dos policiais, houve
graves violações de direitos humanos como tortura, desaparecimento de corpos,
invasão de domicilio e execução em frente de crianças. Por isso, as informações
relativas ao assunto deveriam ser públicas.
Jacqueline Muniz,
doutora em Estudos Policiais e professora do Bacharelado em Segurança Pública
da UFF, afirma que o trabalho do policial requer responsabilização e prestação
de contas. "Do contrário, é desvio de função. Só a luz do sol nos porões
decisórios é capaz de produzir controle da ação policial", fala.
Para
Jacqueline, o que distingue a força policial de um "bando armado" é,
entre outras coisas, a transparência da ação. Ela diz que a censura dos nomes
dos policiais indica a dificuldade de explicar os "resultados
trágicos" obtidos na operação.
Em nota, a
Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio informou que "falar em
violação aos Direitos Humanos antes da conclusão das investigações é
precipitado e busca politizar a discussão". Também disse que os órgãos
responsáveis pela investigação têm "amplo acesso a todas as informações,
sem qualquer sigilo, garantindo a transparência e eficácia da investigação''.
Agência Estado
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