Birn
tem dificuldade para falar. Faz uma pausa, fria, no fim de cada frase. Sua
respiração parece a de um nadador olímpico quando emerge. Mas sua história está
muito acima da água. Precisamente a 8.848 metros acima do nível do mar, no
Monte Everest.
- Parece que
você está com dor. Você não prefere fazer a entrevista depois ou que a gente
converse pelo WhatsApp?
- Não,
por favor, eu estou vivo. Tenho muita coisa para contar.
Ricardo está
internado em um hospital de Katmandu, no Nepal, desde quinta-feira (23). Está
com pneumonia. Um dia antes, 22 de maio, a montanha mais alta do mundo foi
notícia por um inédito "engarrafamento".
Um
engarrafamento de alpinistas que, aproveitando o clima bom, fizeram fila para
chegar ao pico. Isso, diz Ricardo, foi o que quase o matou. Não foi a altura.
Não foi a neve.
"Não se
pode fazer fila, parado, literalmente, com 30 graus abaixo de zero. É a morte.
Eu comecei a cuspir sangue. No começo eu hesitei, porque desta vez eu queria
chegar até o fim. Mas tive que tomar a decisão de não continuar. Depois, já era
diretamente descer para continuar vivendo", diz.
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| © clarin.com A perigosa fila de alpinistas no Everest, onde alpinistas de diferentes nacionalidades morreram nos últimos dias. (Foto: Gesman TAMANG / AFP) |
A pessoa que
"hesitou" lá em cima não era um marinheiro de primeira viagem.
Ricardo, que é professor de Educação Física na cidade argentina de Córdoba, faz
parte do movimento 7 Cumbres, que busca atingir o pico da montanha mais alta de
cada um dos sete continentes. Ele já conseguiu chegar a cinco. Esta foi sua
segunda tentativa no Everest.
"Eu tentei
há dois anos, mas houve um erro estratégico dos guias com os quais eu vim.
Fiquei sem cilindros de oxigênio porque os guias não fizeram bem o trabalho
deles de colocá-los ao longo do caminho. Eu comecei a perder a visão de um olho
e meus dedos congelaram. Então tivemos que descer", diz.
Por causa desse
erro ele ficou com um problema nos brônquios. A empresa que tinha contratado
cobrou agora apenas US$ 30.000 dólares e ofereceu os serviços de um guia de
elite nesta sua tentativa de escalar novamente. Uma escalada no Everest pode
chegar a custar cerca de US$ 80.000.
"Desta vez
foi diferente. Fui com um bom guia. Fizemos tudo direito. Fiz o treinamento de
um mês e meio, passando pela Geleira de Khumbu, muito perigosa. Tem que fazer
três vezes, até chegar no campo 3, a 7.200 metros de altitude. Aí dá para saber
se a pessoa está em condições de continuar. E a minha aclimatação foi perfeita.
Tomei o remédio e estava 100% preparado. Mas tive que fazer fila, parado.
Infelizmente, o dia que eu escolhi para subir coincidiu com dia escolhido por
mais 250 pessoas", diz.
Ricardo e seu
guia, Chebbi Tipeka, de 43 anos e com muita experiência, começaram a escalada
às 19h do dia 21 de maio, para chegar no pico às 22h. Não conseguiram chegar e
Ricardo foi protagonista de "um dos resgates históricos do Everest".
Após duas
horas de escalada, encontraram o primeiro engarrafamento na imensidão branca. "Não
dava para acreditar. Tive que ficar meia hora parado no gelo, não era neve, era
gelo. A 8.200 metros de altitude".
Falar em gelo
não é um eufemismo. Esse lugar se chama zona da morte. "Você precisa se
mexer. Sair dali. A gente vê como os outros começam a congelar. Eu comecei a
tossir e a tosse só expelia sangue". Mas Ricardo resolveu não voltar
atrás. Eram 22h.
"Continuamos.
Mas eu via uma fileira de luzes (as lanternas dos capacetes dos montanhistas).
Vi que ia ser muito complicado". Ricardo está falando do degrau Hillary.
Ali foi tirada a foto que viralizou porque mostra o engarrafamento.
"Era uma
infinidade de gente fazendo fila", diz Ricardo e questiona o fato de não
existirem limites para as autorizações porque isso é um perigo para os
alpinistas.
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| © clarin.com Ricardo, no hospital de Katmandú, de onde falou com o Clarín. |
Ele chegou aos
8.400 metros de altitude, onde trocam os tubos de oxigênio e decidiu voltar. Em
outras condições, mais três horas de escalada e chegariam ao topo. Nesse dia
teriam demorado cinco horas. E sempre cuspindo sangue.
"Se não
descia, ia morrer, como morreram vários", diz. Exatamente, até
agora, morreram 11 pessoas nessa escalada do Everest. "Pensei que tinha
quebrado uma costela pelo esforço para respirar", algo que pode acontecer
nessas condições. Mas, finalmente, ele não teve um pneumotórax. Teve um edema
de pulmão.
A partir do
campo 4, começaram a descer. O guia o ajudou e cinco horas depois chegaram ao
campo 3. Os helicópteros de resgate, porém, só chegam até o campo 2. Mas
Ricardo não podia continuar a descer.
"Falei
pelo telefone satelital com Erika, minha esposa, e ela falou com o dono da
empresa para que fossem me resgatar. Ela fez de tudo para que chegassem lá onde
eu estava", diz Ricardo.
Ele mesmo se
aplicou uma injeção de dexametasona que o acalmou. E quando desmaiava o guia
fazia o impossível para acordá-lo. Dormir nessas condições não é garantia de
acordar. Ele também tinha pouco oxigênio.
"Às seis
da manhã escutei o helicóptero", diz Ricardo. Como o helicóptero não podia
aterrissar no campo 3, o piloto jogou uma corda de 30 metros que o guia prendeu
no arnês de Ricardo. E ele levantou voo. Gritando de dor. Como se fosse um
pacote, o piloto o levou a outro ponto, onde um socorrista se ajustou a ele e
-já como dois pacotes- foram levados, suspensos no ar, até a base seguinte.
Ricardo vai
voltar para Buenos Aires nesta semana.
Com 80 quilos,
10 quilos a menos, e talvez alguma nova sequela pulmonar. Erika, sua esposa, e
seus filhos Camila, de 23, Agustina, de 21, Gael, de 13 e Simón, de 6, já o
estão esperando.
- Você vai
tentar novamente chegar ao pico do Everest?
- Não sei. Mas
já provei que o meu corpo superou a parte extrema. Eu estava lá em cima.
Freado. Fazendo fila, literalmente, com tanta gente.
clarin.com



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