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Maquinário
inoperante para extração de petróleo é visto
perto de
Atapirire (Foto: William Urdaneta/Reuters)
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Petro foi
criado para servir de lastro ao bolívar soberano, nova moeda do país.
O presidente da
Venezuela, Nicolás Maduro, garante que um pequeno povoado de 1.300 pessoas está
na crista da onda de uma inovação em criptomoedas.
Localizada em
uma savana isolada no centro do país, Atapirire é a única cidade em uma área
que o governo diz comportar 5 bilhões de barris de petróleo. A Venezuela
garantiu tais reservas como lastro para uma moeda digital batizada de
"petro" que Maduro lançou em fevereiro, e neste mês ele prometeu que
ela será o cerne de um plano de recuperação para a nação em crise.
Mas os
habitantes de Atapirire dizem que não viram nenhum esforço do governo para
explorar as reservas, e têm pouca esperança de que seu vilarejo em dificuldades
terá um lugar privilegiado em uma revolução financeira.
"Não há
sinal desse petro aqui", disse Igdalia Diaz, dona de casa de 35 anos que
logo passou a se queixar da escola em ruínas, das ruas esburacadas, dos
blecautes frequentes e dos moradores famintos da cidade.
A verdade é que
é difícil encontrar o petro em qualquer lugar. Durante um período de quatro
meses a Reuters conversou com uma dúzia de especialistas em criptomoeda e
avaliação de petróleo, viajou ao local das reservas prometidas e vasculhou
registros de transações da moeda digital na tentativa de saber mais sobre a
criptomoeda.
Essa busca
rendeu poucos indícios de um comércio vicejante do petro. A moeda não é vendida
em nenhuma grande casa de câmbio de criptomoedas e não se conhece nenhuma loja
que a aceite.
Os poucos
compradores que a Reuters conseguiu localizar foram aqueles que escreveram
sobre sua experiência em fóruns de criptomoeda na internet.
Nenhum quis se
identificar. Um se queixou de ter sido "ludibriado". Outro disse à
Reuters que recebeu seus petros sem problema, e culpou as sanções dos Estados
Unidos contra a Venezuela e a "imprensa detestável" por prejudicarem
o lançamento do petro.
Autoridades do
governo fizeram declarações contraditórias. Maduro afirma que a venda do petro
já rendeu US$ 3,3 bilhões, e que agora a moeda é usada para importar alimentos
e remédios. No entanto, Hugbel Roa, um ministro envolvido no projeto, disse à
Reuters na sexta-feira que a tecnologia por trás da moeda ainda está em
desenvolvimento e que "ninguém ainda fez uso do petro... e que nenhum
recurso foi recebido".
A
"Superintendência de Criptoativos", a agência do governo que
supervisiona o petro, é um mistério. Recentemente a Reuters visitou o
Ministério das Finanças, onde a Superintendência supostamente está abrigada,
mas foi informada por uma recepcionista que ela "ainda não tem uma
presença física aqui".
O site da
Superintendência não está funcionando. Seu presidente, Joselit Ramírez, não
respondeu a mensagens em suas contas de redes sociais. Telefonemas para o
Ministério da Indústria, que supervisiona a agência, não foram respondidos.
O Ministério da
Informação não respondeu a emails pedindo comentários.
Maduro ampliou
a confusão neste mês anunciando que salários, pensões e a taxa de câmbio da
moeda decadente da Venezuela, o bolívar, agora serão atrelados ao petro. A
medida provocou consternação nas ruas do país e entre economistas e
especialistas em criptomoeda que dizem que a correlação petro-bolívar é
impraticável.
"Não
existe maneira de ligar preços ou taxas de câmbio a uma moeda com que não se
comercializa, precisamente porque não existe maneira de saber por quanto ela é
vendida", disse Alejandro Machado, cientista da computação e consultor de
criptomoeda venezuelano que vem acompanhando atentamente o petro.
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Mulher
caminha pelas ruas de Atapirire, Venezuela,
em maio de
2018 (Foto: William Urdaneta/Reuters)
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O caos é prova
do desespero e da desorganização que estão tomando conta do governo Maduro em
meio ao colapso da Venezuela.
O petro deveria
ajudar Caracas a combater a hiperinflação, que tornou o bolívar praticamente
sem valor. O governo argumentou que uma criptomoeda, que permite que operações
financeiras possam ser feitas anonimamente, possibilitaria à nação driblar as
sanções financeiras dos EUA e obter moedas fortes para pagar as tão necessárias
importações de alimentos e remédios.
O governo
atrelou o valor do petro ao valor de um barril de petróleo venezuelano –
atualmente cerca de US$ 66 – e prometeu sustentá-lo com reservas de petróleo
localizadas em uma área de 380 quilômetros quadrados ao redor de Atapirire. Em
março o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu os norte-americanos de
comprarem ou usarem o petro.
Analistas
demonstraram ceticismo quanto às afirmações de Maduro de que o petro já está
rendendo milhões em moeda real. Segundo eles, os registros digitais associados
à moeda não fornecem informações suficientes para se determinar quanto exatamente
se arrecadou, em caso de algo realmente arrecadado.
"Isso
certamente não se parece com uma ICO (sigla em inglês para oferta inicial de
moeda) típica, dado o baixo nível de atividade das transações", disse Tom
Robinson, diretor de dados e cofundador da Elliptic, uma empresa de blockchain
sediada em Londres.
"Não
encontramos nenhuma evidência de que alguém tenha emitido um petro, nem que
tenha sido negociado ativamente em nenhuma bolsa."
Uma visita da
Reuters à área em torno de Atapirire mostrou poucas atividades ligadas à
indústria petroleira. As únicas perfuradoras visíveis eram máquinas pequenas
instaladas anos atrás e já envelhecidas. Várias estavam abandonadas e cobertas
de mato.
Em um artigo de
opinião publicado em 19 de agosto no Aporrea, um site de comentário e análise
venezuelano, o ex-ministro do Petróleo Rafael Ramírez estimou que seriam
necessários US$ 20 bilhões de investimentos para explorar as reservas locais,
dinheiro que a problemática estatal petroleira PDVSA não tem.
"O petro
está sendo estabelecido com um valor arbitrário, que só existe na imaginação do
governo", escreveu Ramírez. Ele supervisionou a indústria petroleira da
Venezuela durante uma década à época do falecido presidente Hugo Chávez, e hoje
vive exilado em um local secreto por ter sido acusado por Caracas de corrupção,
o que ele nega.
A PDVSA não
respondeu a um email pedindo comentário.
"Fomos
ludibriados"
Ao contrário
dos compradores de criptomoedas conhecidas, como o Bitcoin e o Ethereum, os
donos de petros são difíceis de encontrar. Um local para isso é o fórum de
criptomoedas online Bitcointalk, no qual entusiastas de criptomoedas começaram
a publicar mensagens no início de 2018.
Algumas
postagens iniciais eram otimistas, mas esse entusiasmo azedou à medida que o
tempo passou. Vários se queixaram da falta de informações e dos atrasos no
recebimento de suas moedas, e um reclamou por não conseguir transferi-las ou
vendê-las.
"Até agora
sim, fomos ludibriados, o tempo dirá se foi um bom investimento ou não",
escreveu um participante do fórum identificado como cryptoviagra em 25 de
junho.
Outro
comprador, o único a responder a perguntas da Reuters, disse através de
mensagens em redes sociais que sua experiência comprando petros "funcionou
bem no geral". Ele culpou a proibição dos EUA pelas vendas fracas da
moeda, além do que considerou uma cobertura midiática negativa. Ele pediu que
seu nome não fosse revelado por temer "perseguição do governo dos
EUA", acrescentando que "não considera a Reuters uma organização de
notícias honesta".
A Reuters não
conseguiu confirmar de forma independente se algum participante do fórum
investiu no petro.
As criptomoedas
ganharam popularidade ao longo da última década, graças a defensores que
disseram que elas reduziriam os custos das transações financeiras, dariam aos
cidadãos alternativas a bancos comerciais e os protegeriam da inflação induzida
por políticas dos bancos centrais.
As transações
são validadas por uma rede de computadores e registradas em um livro-razão
público chamado blockchain. Operações individuais estão disponíveis para a
consulta de qualquer pessoa na internet, mas as identidades dos envolvidos são
mantidas em segredo. As operações são protegidas por criptografia, a
codificação e decodificação computadorizada de dados.
As compras
frenéticas de criptoativos em 2017 elevaram o preço do Bitcoin para quase US$
20 mil, e seu sucesso deu ensejo a uma onda de ofertas de moedas de outras start-ups,
inclusive golpes que arrecadaram milhões de dólares antes de serem
desmantelados pelas autoridades.
Os emissores de
criptomoeda preocupados em mostrar transparência na arrecadação usam
blockchains para exibir cada compra individual da nova moeda. Isso dá a
investidores em potencial uma ideia de quanto dinheiro está fluindo e
proporciona uma referência relativa sobre a procura.
O governo da
Venezuela, em contraste, não oferece um registro explícito de compras. Ao invés
disso, seus registros digitais só mostram o movimento de petros entre contas,
não permitindo que se determine por quanto a moeda foi vendida ou se fundos
realmente trocaram de mãos.
O "Livro
Branco" do petro, um documento público que descreve as condições de oferta
para os possíveis compradores, diz que a principal plataforma para a moeda é o
NEM – uma plataforma descentralizada de blockchain promovida por uma
organização sem fins lucrativos de Cingapura. Proprietários de contas NEM são
anônimos, mas podem revelar suas identidades na descrição de suas moedas se
desejarem.
Em março, uma
conta NEM que aparece como sendo operada pelo governo da Venezuela emitiu 82,4
milhões de moedas como parte de sua oferta inicial. Essas aparentemente
correspondem a uma conjunto de moeda "preliminares" descritas no
Livro Branco que compradores poderiam futuramente trocar por petros quando a
oferta inicial for concluída.
Cerca de 2.300
destas moedas foram transferidas para 200 contas anônimas em pequenas
quantidades no início de maio, revelaram registros da NEM.
Esse período de
tempo é condizente com comentários postados por participantes do fórum
Bitcointalk que disseram estar comprando petros. Se vendidas ao preço
estabelecido por Maduro com base nos preços do petróleo na ocasião, estas
moedas teriam arrecadado cerca de 150 mil dólares, de acordo com cálculos da
Reuters.
Em abril, outra
conta anônima emitiu uma série de moedas que descreveu como parte de uma
diferente fase do petro voltada a grandes investidores.
Registros da
NEM mostram que em junho essa contra transferiu cerca de 13 milhões destas
novas moedas a cerca de uma dúzia de contas anônimas. Estas moedas teriam
arrecadado aproximadamente US$ 850 milhões a preços oficiais, mas não há como
provar que se tratou de vendas, e nenhum grande investidor admitiu estar
lidando com o petro.
Roa, ministro
da Alta Educação, supervisiona uma agência estatal chamada Observatório
Venezuelano de Blockchain. Ele pareceu validar as suspeitas dos analistas de
que o petro, atualmente, não existe como moeda funcional.
A Reuters
conversou com ele brevemente nos bastidores de um evento sobre o petro em
Caracas na semana passada. Roa descreveu as transações da NEM como
"modelos iniciais", acrescentando que a Venezuela estava agora
trabalhando em sua própria tecnologia blockchain. Ele disse que os compradores
fizeram "reservas" para adquirir petros, mas que nenhuma moeda foi
liberada.
O que está
claro é que o petro não é negociado em nenhuma grande casa de câmbio.
Sediada em Hong
Kong, a Bitfinex, uma das maiores casas de câmbio de criptomoeda do mundo em
volume, disse em março que não pretende listar o petro jamais por causa de sua
"utilidade limitada", e baniu a moeda oficialmente de sua plataforma
na esteira das sanções dos EUA.
Três outras
grandes casas de câmbio – a Coinbase e a Kraken, ambas de San Francisco,e a
Bittrex, de Seattle – não quiseram comentar ou não responderam a perguntas
quando indagadas por que não listaram o petro.
Em 26 de abril
Maduro anunciou que 16 casas foram "certificadas" para negociar com o
petro, acrescentando que "elas começam a operar a partir de hoje". A
maioria é pouco conhecida no mundo das criptomoedas.
A Reuters não
conseguiu localizar sete delas, que não estão presentes na internet. Sete
outras não responderam a pedidos de comentário.
A Italcambio,
uma casa de câmbio venezuelana estabelecida que Maduro disse que trabalharia
com a moeda, não negocia ou vende petros, afirmou seu presidente, Carlos
Dorado, em resposta por email à Reuters.
A única casa de
câmbio que debateu publicamente planos para listar o petro é a indiana
Coinsecure. Seu diretor-executivo, Mohit Kalra, disse em uma entrevista
concedida à Reuters neste mês que a Coinsecure dentro de dois meses fornecerá à
Venezuela um sistema para negociações de petros, junto com tecnologia para
operá-lo, e que a Venezuela pagará royalties por seu uso.
Kalra não
respondeu a ligações pedindo informações adicionais.
"O que
é um petro?"
O petróleo está
no cerne da economia da Venezuela. Ao escolher atrelar o petro a ele, o país se
uniu a um número pequeno, mas crescente, de emissores de criptomoeda que ligam
o valor de suas moedas a commodities físicas. A Casa da Moeda Real, que produz moedas
para o Reino Unido, anunciou em 2017 uma moeda digital atrelada ao ouro chamada
RMG.
A grande
diferença é que estas criptomoedas são atreladas a ativos físicos que podem ser
negociados de imediato. Já Maduro prometeu que o petro terá como garantia reservas
de petróleo que ainda estão nas profundezas do solo em um bloco conhecido como
Ayacucho I, próximo de Atapirire. O governo sustenta que o campo tem 5,3
bilhões de barris, citando uma "agência de certificação internacional
independente".
A PDVSA não respondeu
um email pedindo detalhes.
Independentemente
de quanto petróleo contenha, a área carece de infraestrutura crucial para sua
extração, como estradas, oleodutos e geração de energia, disse Francisco
Monaldi, nativo da Venezuela que hoje leciona políticas energéticas da América
Latina na Universidade Rice de Houston.
"Não
existe plano de investimento para essa área e nenhuma razão para pensar que
seria desenvolvida antes de outros campos com condições melhores".
A simples
localização do bloco exige um esforço considerável. Funcionários da PDVSA que
concordaram em levar um repórter até o local o confundiram com um bloco
diferente. A Reuters teve que mapear o Ayacucho I com GPS usando coordenadas
publicadas pelo governo como parte da criação do petro.
Enquanto isso,
os habitantes de Atapirire dizem ter sido esquecidos.
Um criadouro de
peixes usado para oferecer empregos está abandonado. A clínica da cidade não
tem médicos nem ambulâncias funcionando. Muitas pessoas passam horas esperando
junto à estrada poeirenta os ônibus chineses que servem como o único meio de
transporte público para El Tigre, importante polo petrolífero situado 60
quilômetros ao norte.
A professora
Rosa Alvarez disse que cerca de metade dos alunos de primeiro grau que ela
ensina pararam de ir às aulas por estarem com fome e que a escola não oferece
mais comida com verba estatal.
Ela disse que
as autoridades governamentais ignoraram suas queixas, mas em maio o Ministério
da Educação emitiu uma nova instrução: ensinar aos alunos as virtudes da nova
criptomoeda do país.
Rosa ficou
espantada.
"Como
explicarei isso a eles se ninguém me diz o que é um petro?", questionou.
"Como eu compro um petro? Com quê?"
Por Reuters


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