Crise política na Nicarágua: por que o governo de Ortega está ruindo? | Rio das Ostras Jornal

Crise política na Nicarágua: por que o governo de Ortega está ruindo?

Foto de 7 de julho de 2018 mostra o presidente da Nicarágua,`
 Daniel Ortega, e sua mulher e vice-presidente, Rosario Murillo
 (Foto: Oswaldo Rivas/Reuters)

Presidente da Nicarágua controla instituições e sufoca manifestantes para permanecer no comando do país.
O último dos líderes revolucionários da América Latina comanda um regime cada vez mais parecido com o que ajudou a derrubar, há 39 anos. Em seu terceiro mandato consecutivo, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, usa força bruta para reprimir manifestantes e permanecer no poder. Carrega nas costas 350 mortos e mais de 200 desaparecidos em três meses de confrontos.
O triunfo da revolução sandinista sobre a ditadura perpetrada pela dinastia Somoza é celebrado nesta quinta-feira, mais conhecido como o Dia da Libertação na Nicarágua. Mas, agora, opositores, a quem o presidente chama de terroristas, querem libertar o país da dinastia Ortega.
No comando da repressão, o governo sufoca focos de protestos com detenções arbitrárias e tortura. Nos últimos dias, liderou ataques à Universidade Nacional de Manágua e também a um reduto indígena de Masaya, símbolo da resistência ao regime de Somoza.
A trajetória de Ortega a caminho da autocracia tem ingredientes inspirados em seus aliados bolivarianos: instaurou a reeleição indefinida, nomeando juízes para a Suprema Corte, o que lhe garante a permanência no poder até 2022.
Sua herdeira política é a mulher e também vice-presidente, a controversa Rosario Murillo. Os filhos ocupam cargos importantes em estatais e detêm o monopólio das emissoras de TV na Nicarágua. Aos poucos, o clã Ortega assumiu o controle do Exército, do Judiciário e da mídia.
O presidente voltou ao poder, em 2007, aliado a grandes empresários e também à Igreja Católica. Recebeu as benesses da era áurea do chavismo. Mas a fonte secou e a crise fiscal se avizinhou.
No comando da repressão, o governo sufoca focos
de protestos com detenções arbitrárias e tortura.
No início deste ano, Ortega aprovou uma polêmica reforma da previdência, que desagradou a empresários e trabalhadores e foi o estopim dos protestos. Sob pressão, acabou recuando e revogando a lei. Mas os manifestantes não deixaram as ruas. Denunciam a corrupção, querem eleições antecipadas.
Principal entidade de empresários do país, o COSEP, anunciou a ruptura com o governo. Ortega já não conta com o apoio da Igreja. A ONU e entidades de direitos humanos fazem coro contra a brutalidade das forças de segurança. A OEA pede a convocação de eleições em março do próximo ano, hipótese descartada veementemente pelo presidente.
Isolado e aferrado ao poder, deveria ouvir o conselho de outro ex-guerrilheiro que se tornou presidente, o uruguaio José Mujica, para quem a Nicarágua enfrenta o desvio de um sonho: “Há uma autocracia e aqueles que ontem foram revolucionários perderam a sensação de que na vida há um momento em que se diz 'eu estou indo embora.'”
Por Sandra Cohen, G1

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