![]() |
Jovem
amarrado a sua cama em uma instituição para 32
pessoas com
deficiência no Rio de Janeiro
(Foto: Reprodução/ Human Rights
Watch)
|
Human Rights
Watch detalha a precariedade no atendimento a quem tem mobilidade e sentidos
reduzidos. Falta de respeito é ponto em comum nas instituições.
Leonardo
Barcellos, de 25 anos, sofre de distrofia muscular. Ele foi colocado em uma
instituição para pessoas com necessidade de apoio intensivo aos 15 anos de
idade. Lá, ele divide um grande quarto com outras 24 pessoas, homens e
mulheres. Por causa da falta de atividades complementares e de funcionários,
ele passa a maior parte do dia na cama.
“Eu sou
colocado na cadeira de rodas pela manhã, mas depois tenho que ser colocado de
volta na minha cama porque sou pesado, e não há ninguém para me colocar durante
a noite. Sinto falta da minha casa e gostaria de morar com a minha mãe, mas
entendo que ela está envelhecendo e que não poderia me aguentar fisicamente”,
explicou Leonardo.
Ele foi um dos
entrevistados pela Human Rights Watch no Estado do Rio de Janeiro para a
elaboração do relatório “Eles ficam até morrer”, que mostra as condições
degradantes às quais os internos de instituições de várias partes do país são
submetidos. O documento com a pesquisa completa foi divulgado nesta quarta-feira
(23).
Os relatos
mostram uma vida de isolamento, maus-tratos e falta de privacidade e de
individualidade. Em uma instituição, dezenas de pessoas com deficiências
consideradas severas ficavam separadas no andar superior do imóvel. Até oito
delas conviviam em quartos pequenos, algumas presas às barras de metal das
camas por um pano amarrado na cintura. Uma enfermeira falou aos pesquisadores
que eles “nunca saem do quarto”.
Antônia, uma
mulher com deficiência intelectual que vive em instituições de acolhimento
desde criança, tem o mesmo sonho que Leonardo: o de voltar para casa.
“A equipe me
trata bem aqui, mas eu preferia morar com a minha família. Minha família não
consegue cuidar de mim. Eu vivi em muitas instituições [diferentes] na minha
vida porque algumas delas fecharam. Quando eles fecham a instituição, eu sou
mandada para outra”, explicou aos pesquisadores.
O relatório
destaca que a legislação existente, a Lei Brasileira de Inclusão, prevê
diversos benefícios para os portadores de deficiência, mas quase nenhum deles é
cumprido.
A Human Rights
Watch recomenda que o governo brasileiro desenvolva um cronograma para dar fim
às instituições de internação de crianças e adultos com deficiência e
desenvolva serviços que permitam que elas permaneçam em suas comunidades e que
exista uma estrutura para que elas sejam criadas em suas casas.
Falta de
consentimento
Funcionários na
maioria das instituições visitadas afirmaram dar regularmente medicamentos aos
adultos sem consentimento.
“Não pedimos
consentimento porque são pessoas com deficiências graves. Eles não falam, eles
não pensam”, afirmou a direção de uma das instituições visitadas.
Em uma das
instituições visitadas no Rio, os funcionários falaram que a quantidade de
fraldas para os internos era insuficiente, o que fazia com que eles
permanecessem longos períodos com fraldas sujas.
Em outra, uma
enfermeira confessou: “Não temos escovas de dentes separadas para cada um
deles. Eles dividem”.
Sem
atividades
A falta de
atividades ocupacionais foi outro problema encontrado. Os portadores de
deficiência tinham pouca ou nenhuma atividade relevante ao longo do dia. Por
isso, muitos ficavam deitados nas camas sem fazer nada ou eram colocados na
frente de uma televisão por horas a fio. Em um lar para crianças, todas
passavam os dias deitadas nos berços.
“Diversos estudos de caso demonstram que a
institucionalização de crianças, independentemente de suas condições materiais,
é prejudicial ao seu desenvolvimento emocional, cognitivo, físico e social
quando o cuidado prestado foca apenas nas necessidades básicas, sem uma relação
individualizada”, destacou um trecho do documento.
Em Nova
Friburgo, na Região Serrana, a Human Rights Watch encontrou um homem de 70 anos
que estava em uma instituição há 65 anos.
Por Cristina Boeckel, G1 Rio

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!