23/05/2018

Relatório mostra vida de solidão e maus-tratos de deficientes em instituições do RJ

Jovem amarrado a sua cama em uma instituição para 32
pessoas com deficiência no Rio de Janeiro
(Foto: Reprodução/ Human Rights Watch)

Human Rights Watch detalha a precariedade no atendimento a quem tem mobilidade e sentidos reduzidos. Falta de respeito é ponto em comum nas instituições.
Leonardo Barcellos, de 25 anos, sofre de distrofia muscular. Ele foi colocado em uma instituição para pessoas com necessidade de apoio intensivo aos 15 anos de idade. Lá, ele divide um grande quarto com outras 24 pessoas, homens e mulheres. Por causa da falta de atividades complementares e de funcionários, ele passa a maior parte do dia na cama.
“Eu sou colocado na cadeira de rodas pela manhã, mas depois tenho que ser colocado de volta na minha cama porque sou pesado, e não há ninguém para me colocar durante a noite. Sinto falta da minha casa e gostaria de morar com a minha mãe, mas entendo que ela está envelhecendo e que não poderia me aguentar fisicamente”, explicou Leonardo.
Ele foi um dos entrevistados pela Human Rights Watch no Estado do Rio de Janeiro para a elaboração do relatório “Eles ficam até morrer”, que mostra as condições degradantes às quais os internos de instituições de várias partes do país são submetidos. O documento com a pesquisa completa foi divulgado nesta quarta-feira (23).
Os relatos mostram uma vida de isolamento, maus-tratos e falta de privacidade e de individualidade. Em uma instituição, dezenas de pessoas com deficiências consideradas severas ficavam separadas no andar superior do imóvel. Até oito delas conviviam em quartos pequenos, algumas presas às barras de metal das camas por um pano amarrado na cintura. Uma enfermeira falou aos pesquisadores que eles “nunca saem do quarto”.
Antônia, uma mulher com deficiência intelectual que vive em instituições de acolhimento desde criança, tem o mesmo sonho que Leonardo: o de voltar para casa.
“A equipe me trata bem aqui, mas eu preferia morar com a minha família. Minha família não consegue cuidar de mim. Eu vivi em muitas instituições [diferentes] na minha vida porque algumas delas fecharam. Quando eles fecham a instituição, eu sou mandada para outra”, explicou aos pesquisadores.
O relatório destaca que a legislação existente, a Lei Brasileira de Inclusão, prevê diversos benefícios para os portadores de deficiência, mas quase nenhum deles é cumprido.
A Human Rights Watch recomenda que o governo brasileiro desenvolva um cronograma para dar fim às instituições de internação de crianças e adultos com deficiência e desenvolva serviços que permitam que elas permaneçam em suas comunidades e que exista uma estrutura para que elas sejam criadas em suas casas.
Falta de consentimento
Funcionários na maioria das instituições visitadas afirmaram dar regularmente medicamentos aos adultos sem consentimento.
“Não pedimos consentimento porque são pessoas com deficiências graves. Eles não falam, eles não pensam”, afirmou a direção de uma das instituições visitadas.
Em uma das instituições visitadas no Rio, os funcionários falaram que a quantidade de fraldas para os internos era insuficiente, o que fazia com que eles permanecessem longos períodos com fraldas sujas.
Em outra, uma enfermeira confessou: “Não temos escovas de dentes separadas para cada um deles. Eles dividem”.
Sem atividades
A falta de atividades ocupacionais foi outro problema encontrado. Os portadores de deficiência tinham pouca ou nenhuma atividade relevante ao longo do dia. Por isso, muitos ficavam deitados nas camas sem fazer nada ou eram colocados na frente de uma televisão por horas a fio. Em um lar para crianças, todas passavam os dias deitadas nos berços.
 “Diversos estudos de caso demonstram que a institucionalização de crianças, independentemente de suas condições materiais, é prejudicial ao seu desenvolvimento emocional, cognitivo, físico e social quando o cuidado prestado foca apenas nas necessidades básicas, sem uma relação individualizada”, destacou um trecho do documento.
Em Nova Friburgo, na Região Serrana, a Human Rights Watch encontrou um homem de 70 anos que estava em uma instituição há 65 anos.
Por Cristina Boeckel, G1 Rio

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