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© Agência
Brasil Manifestantes na na Comissão Especial
sobre o Estatuto da Família, apoiada pelos
evangélicos, em 2015.
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Dois meses
antes das eleições mais acirradas da história brasileira, a mandatária máxima
do país e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), uma
ex-guerrilheira que já deixou escapar sua visão agnóstica, se deslocou de
Brasília até São Paulo para assistir a um culto evangélico de quase três horas.
A exposição foi marcada pela fala de um pastor, que contou sobre a época em que
fumava "até cem pedras de crack por noite". "O vício é um
espírito, um encosto, que domina o sistema nervoso", explicava ele, já
"curado pela fé", diante de uma plateia que, além de Rousseff, reunia
a nata do poder brasileiro: o então vice-presidente Michel Temer, ministros, o
governador e o prefeito de São Paulo e os membros mais importantes do
parlamento do país.
Naquele julho
de 2014 eles participavam da inauguração do Templo de Salomão, a
mega-igreja de 100.000 metros quadrados com capacidade para receber até 10.000
fiéis construída no centro da maior capital do país pelo bispo Edir Macedo,
líder da Igreja Universal do Reino de Deus. A IURD, sigla pela qual é
conhecida, é uma das principais expoentes da religião evangélica, doutrina que
mais cresce no Brasil. Estava ali, naquela convençãosuprapartidária,
o retrato fiel da importância política que os evangélicos adquiriram no país
nos últimos anos. Ninguém pode correr o risco de desagradá-los, de olho em um
apoio para as próximas eleições.
Na última
década, Macedo e as principais lideranças evangélicas, que se multiplicaram
diante de disputas e desentendimentos internos, apoiaram o PT, em uma aliança
antes improvável e que em muitos momentos obrigou o partido de esquerda a
recuar na adoção de pautas progressistas. Mas, no processo que levou
ao impeachment de Rousseff, no ano passado, esses apoios foram ficando
pelo caminho e o partido de Luiz Inácio Lula da Silva acabou abandonado. A
dúvida, agora, é para onde esses apoios migrarão em 2018, em um cenário em que
despontam as preferências pelas ideias do militar reformado Jair Bolsonaro,
que inclusive passou por um batismo evangélico em Israel no ano passado, e
nomes do PSDB, em especial o do prefeito João Doria.
Esse capital
político evangélico foi construído ao longo de décadas, seguindo a tendência de
aumento do número de praticantes da religião no país. Nos últimos dez anos, a
quantidade de evangélicos saltou 61%, segundo dados do último Censo do IBGE, de
2010, marcando uma tendência contrária a seguida pela igreja Católica, que
perdeu fiéis. É uma massa de 42,3 milhões de brasileiros (22,2% da população),
que, segundo um Datafolha mais recente, já teria chegado a 32%. Um aumento que
se refletiu também na quantidade de evangélicos no parlamento brasileiro. Se no
final da década de 1980 eles conseguiram eleger 32 parlamentares com a campanha
"irmão vota em irmão", nas últimas eleições o número chegou a 77
(incluindo três senadores), segundo o Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (DIAP). A bancada do PMDB na Câmara, por exemplo, a
maior da Casa, tem 60 deputados em exercício atualmente. "É razoavelmente
barato eleger parlamentares evangélicos. Os gastos são menores porque há a
estrutura da igreja para se usar na campanha", explica Ronaldo Almeida,
professor de antropologia da Unicamp e pesquisador do Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento (Cebrap).
Essa mecânica
sociopolítica criou um capital de barganha para os líderes religiosos que se
divide em duas frentes. A primeira é o apoio no Congresso Nacional, que têm
peso especialmente em votações mais apertadas. E a segunda, a abertura de
espaço nas igrejas para a exposição de candidatos, ainda que antes das
eleições, já que a legislação eleitoral proíbe no período eleitoral —uma
espécie de propaganda gratuita que atinge milhares de pessoas e não tem limite
de tempo. No último dia 26, por exemplo, o prefeito de São Paulo, João Doria
(PSDB), que oscila entre disputar a presidência e o Governo do Estado no
próximo ano, esteve no palco da Assembleia Mundial do Poder de Deus, controlada
pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-discípulo de Edir Macedo, com quem brigou.
Diante de uma plateia de 15.000 pessoas, o prefeito, cuja taxa de
aprovação caiu no mês passado, escutou o religioso afirmar que estava
satisfeito com seu trabalho na prefeitura, antes de fazer um apelo para que
seus fiéis fossem mais pacientes com os resultados de sua gestão. A exposição
durou 13 minutos, mais do que os 12 minutos e 45 segundos diários a que Doria
teve direito durante sua campanha para prefeito.
Doria é um dos
nomes que pode receber apoio de boa parte dos grupos evangélicos, caso decida
concorrer em 2018. Em agosto, ele e o governador Geraldo Alckmin, o mais cotado
para a disputa pelo PSDB, participaram da Expo Cristã e tomaram um café da
manhã com líderes evangélicos como o midiático Silas Malafaia, pastor da
Vitória em Cristo, uma vertente da Assembleia de Deus. Malafaia deu a eles um
recado: "Não vamos apoiar em nenhuma eleição quem apoia ideologia de
gênero. Essa é uma das maiores engenharias do diabo para destruir a
família", ressaltou o pastor. "Eu conheço o sexo macho e fêmea e não
negociamos nossos valores". Ao EL PAÍS, Malafaia afirmou que não gostou da
resposta pública de Alckmin após ouvir o recado. "Ele disse que é a favor
do amor. Então siga o caminho dele! Alckmin é um ensaboado", ressaltou
Malafaia.
Para o pastor,
Doria teria mais chances com os evangélicos por ser “liberal na economia e
competente”, além de não estar citado em nenhum escândalo de corrupção. Mas
terá que mostrar o que defende nos aspectos sociais. "Ainda não decidi
quem apoiar. Mas existem algumas coisas que são caras para os evangélicos e
católicos praticantes. Qualquer candidato que apoiar aborto, ideologia de
gênero ou casamento gay já perde o espaço", afirma o pastor." Acredito
que, querendo ou não, se Doria for candidato pelo PSDB já perde muito por causa
do envolvimento do partido com corrupção", ressalta ele, que é muito
próximo de outras lideranças evangélicas fortes.
Por ter
posições claras e similares às defendidas por boa parte dos evangélicos,
Bolsonaro deverá ter mais chances com os praticantes da religião. "Ele vai
capitanear grande parte do voto evangélico. Grande, grande, grande parte",
ressalta. "Não tem para ninguém, mais de 50% dos votos vai para ele. Se o
Alckmin for o candidato [no lugar de Doria], então, vai ser 90%", destaca.
Já para o
deputado evangélico Ronaldo Fonseca (PROS), que tenta criar no ano que vem um
"partido cristão conservador", o Partido Republicano Cristão (PRC),
um nome da centro-direita seria a melhor opção. Ele acredita que até janeiro
conseguirá tirar a legenda do papel e levar mais de dez deputados, hoje em
diferentes partidos, para sua agremiação, aproveitando-se da mudança da
legislação que permite a criação de novas legendas até seis meses antes das
eleições. Fonseca é ligado ao pastor José Wellington Bezerra da Costa, do
Ministério do Belém, um outro braço da Assembleia de Deus, a maior denominação
evangélica do país, e que também apoiou Rousseff à reeleição e a abandonou
antes do impeachment.
"A
corrupção [do PT] ficou muito generalizada, muito explícita", explicou
Fonseca para justificar o abandono. "Muitos evangélicos estão vendo no
Bolsonaro uma forma de extravasar o que pensam. Mas eu tenho muitas críticas a
ele. Não acho que ele é conservador. É radical. Representa um personagem e está
aproveitando de uma situação em que o Brasil está frustrado com a esquerda. Não
é porque eu sou contra o casamento gay que eu tenho que ser radical com os
gays. Não posso achar que toda polícia tem que matar. Isso não representa os
evangélicos", diz ele. O deputado não deixa claro quem o PRC apoiaria,
caso seja de fato criado, mas dá pistas que mostram a inclinação ao PSDB.
"Neste momento de transição que estamos vivendo, queremos que o Brasil
atravesse numa ponte já experimentada, que sabe que é segura, ou queremos uma
aventura?", afirma, enigmático. Mas e o apoio ao PT? "[O partido]
teria dificuldade", enfatiza.
O partido de
Lula já trabalha com a certeza de que não conseguirá o apoio da cúpula das
igrejas e tenta apelar para as bases de fiéis. Membros do partido têm se
reunido em igrejas de bairro e tentado apelar para os fiéis com o discurso de
seu combate à desigualdade social. O PT sabe que tem duas vantagens a seu
favor. A primeira é que uma recente pesquisa Datafolha mostrou que a taxa dos
fiéis evangélicos que segue a recomendação de seus pastores no momento de votar
é pequena: apenas 26%. E a segunda é que Lula tem melhor desempenho entre os
mais pobres, justamente a parcela que mais concentra evangélicos. Esta massa de
pessoas viu, ao longo dos anos, sua situação econômica melhorar e costuma ser a
mais afetada por políticas de austeridade, como as implementadas pelo Governo
Temer.

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