Um ano após estado de calamidade, servidores do RJ relatam vergonha, depressão e dívidas

Mesa de aposentada reúne remédios, contas atrasadas
e balas para vender (Foto: Marcos Serra Lima/ G1)
G1 visitou servidores públicos que enfrentam dificuldades, como dívidas que superam R$ 15 mil. Aposentada virou camelô e outra servidora acumula funções para ganhar dinheiro extra.
Sintomas de depressão, falta de dinheiro para o velório de familiares, desenvolvimento de doenças cardíacas e até volta ao trabalho após a aposentadoria. Todas estas situações aconteceram com servidores públicos do Rio de Janeiro desde que o estado, em crise, passou a atrasar e parcelar salários e benefícios. O estado de calamidade foi decretado há um ano, mas o drama dos trabalhadores do setor público estadual continua.
O G1 conversou com algumas pessoas que passam dificuldades para tentar sobreviver enquanto a situação financeira não volta ao normal. E a falta de esperança aparece como "marca registrada" em muitos dos relatos.
Após atuar como auxiliar de enfermagem na secretaria estadual de Saúde por 37 anos, Mariá Casanova, se aposentou no início de 2017. Alguns meses depois e com salários atrasados, ela se viu obrigada a voltar a trabalhar aos 66 anos, desta vez como vendedora ambulante. Ela contou que, mesmo tendo uma “vida miserável”, ela fez questão de voltar a trabalhar.
 “Eu estou desde o carnaval vendendo bala. No carnaval aqui na porta eu vendi água, botei o isopor. Vendi água, refrigerante, amendoim, uma porção de coisinhas, desde fevereiro. Eu tenho que dar um jeito. Eu preciso viver, eu gosto da minha vida, mesmo miserável como está, mesmo sofrida”, desabafou a aposentada.
Apesar da disposição para lutar, dona Mariá admitiu que passa por momentos críticos, durante os quais "não sabe de onde tirar forças". Em sua pior fase de desespero, ela chegou a ficar três dias sem tomar banho. Há pouco mais de um mês, ela perdeu a mãe e não tinha dinheiro para fazer o velório. Além disso, a aposentada relata que desenvolveu doenças cardíacas e passou a tomar remédios tarja preta.
“Para enterrar a minha mãe, a minha amiga Nilceia fez no cartão dela o enterro. O cartão dela vence no dia 15. Eu apelei aos meus amigos, apelei para todo mundo, para os meus amigos dos Bombeiros, do Sepe [Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação], porque eu preciso dar esse dinheiro para ela. São R$ 560 para a minha amiga que cobriu o velório da minha mãe. Eu não tenho dinheiro.”
“Eu me sinto um lixo. Eu trabalhei muito, suei sangue para salvar vida de crianças dentro do Getulinho [Hospital Getúlio Vargas Filhos]. Eu subia morro, descia morro com [pessoas com] metralhadora, mas nessa época eu ainda tinha dignidade. Hoje não tenho respeito, a minha vida foi jogada no lixo”, afirmou.
Mudanças para superar crise
A auxiliar de serviços gerais da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) Katerine Brandão Figueiredo, de 41 anos, teve que transformar sua rotina para não deixar de colocar comida dentro de casa. Moradora de Bangu, na Zona Oeste do Rio, ela agora atua como cuidadora de idosos, mas ainda assim enfrenta dificuldades para cuidar sozinha do próprio filho, de 8 anos.
“A esperança é a última que morre, e a minha luz no túnel foi esse trabalho extra. Eu fiz o curso de cuidador de idoso por acaso. Tem uma faculdade aqui próxima que dava curso de verão aos finais de semana e uma amiga falou para eu fazer. Eu fiz e foi o que me salvou, embora não seja minha única opção. Eu sou eletricista residencial, sou soldadora, eu me viro. (...) É o que está me salvando, está salvando as contas e permite que eu faça as minhas compras e minha dispensa não fique vazia”, contou Katerine ao G1.
O dinheiro que sobrava no fim do mês para os passeios com o filho hoje é usado para pagar contas atrasadas. O pouco dinheiro que tinha aplicado acabou por causa das dívidas acumuladas. Para ela, além da crise financeira, há uma crise moral no Rio.
“Do estado, eu não espero mais nada. Não é só uma crise financeira, é uma crise moral e política. Se não existir uma consciência dos políticos para fazer uma reforma dentro da própria política deles, em mudar a consciência deles e olhar para o povo. A maior agressão que a sociedade está sofrendo é moral”, disse Katerine.
Seis meses e nenhuma mudança
No fim de 2016, o G1 mostrou que os servidores públicos do Rio tiveram que fazer mudanças na ceia de Natal por causa da falta de dinheiro. Muitos deles elaboraram o cardápio natalino a partir de doações. Seis meses depois, a equipe de reportagem voltou à casa de uma servidora que teve de improvisar a ceia e constatou que a situação está ainda pior.
A pensionista Carmen Lucia Sales, de 57 anos, contou que suas dívidas chegaram a R$ 15 mil. Além disso, por falta de pagamento, ela perdeu o carro que tinha. Ela conta que, por causa da crise, que se arrasta desde o fim de 2015, há relatos até sobre a morte de colegas que não tiveram dinheiro para pagar remédios.
 “Todo e qualquer funcionário público se sente envergonhado. Não tem um de nós que não está com problema, muitos passam fome porque não tem ninguém para ajudar. Acho que todos nós estamos sendo pisados e humilhados pelos nossos governantes.”
Atualmente, não sobra dinheiro para Carmen passear ou comprar algo “além do necessário”. Segundo ela, suas refeições são feitas com o que as pessoas doam para ela e não com o que ela quer comer. Toda esta dificuldade fez com que ela perdesse a esperança numa solução da crise.
“Eu não vejo uma luz no fundo do túnel. Ao invés de ir para frente, está indo para trás de um modo geral. Está tudo de cabeça para baixo. É a maldição jogada no estado do Rio de Janeiro, porque não é possível isso. Ninguém resolve, ninguém pensa em ninguém. Cada um que se dane, e a cada vez aparece mais coisa, mais sujeira, mais imundice e a gente vai ficando mais prejudicado. Essa é a realidade do funcionário público no momento”, lamentou Carmen.
O G1 entrou em contato com a Secretaria Estadual de Fazenda para questionar o pagamento dos servidores. A pasta informou que o estado pagou integralmente o mês de março e parte do mês de abril para os servidores. Em relação ao mês de abril, ainda faltam receber 207 mil servidores ativos, inativos e pensionistas.
Sobre o não pagamento do 13º salário de 2016, a secretaria informou que o valor líquido da folha salarial do benefício, que encontra-se em aberto, é de R$ 1,2 bilhão para 124 mil servidores ativos e 103 mil aposentados e pensionistas.

Por Matheus Rodrigues, G1 Rio
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