![]() |
O presidente
interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA) durante
coletiva
sobre sua decisão de suspender a tramitação do impeachment
contra Dilma
Rousseff, em Brasília –DF. (Andressa Anholete/AFP)
|
Em troca de proteção, Maranhão
topou participar da conspirata para tentar atrapalhar o impeachment. Dilma nada
fez para impedir o que se transformaria horas depois num brutal vexame
Não foi o acaso nem as convicções
pessoais que moveram o deputado Waldir Maranhão, presidente interino da Câmara,
na ação aparentemente amalucada que tentou anular o processo de impeachment da
presidente Dilma Rousseff. Na manhã de segunda-feira, quando pôs sua assinatura
no ato, Maranhão apenas cumpriu a sua parte numa trama. Uma trama articulada em
parceria com o vice-líder do governo, deputado Sílvio Costa (PTdoB-PE), que
envolveu uma oferta de proteção política e a promessa de uma vaga para o Senado
nas próximas eleições.
A manobra para tentar livrar Dilma
começou a ser costurada quando Maranhão assumiu o comando da Câmara no lugar de
Eduardo Cunha. O vice, desconhecido, despreparado e enrolado com a Justiça,
assumiu interinamente o posto, mas começou a sofrer pressões para renunciar e,
com isso, permitir que se fizessem novas eleições para a Mesa Diretora. Alvo
fácil, o deputado logo recebeu a solidariedade do líder do governo - e uma
proposta: "Você não tem apoio de ninguém. Eles vão te derrubar. Se quiser,
você terá o apoio político do governo, mas vai ter que deixar claro de que lado
está. Você quer jogar com a oposição ou com o governo?", perguntou Sílvio
Costa.
Olhos arregalados e visivelmente
interessado, o presidente interino quis saber o que teria de fazer para
conquistar a blindagem oferecida. O líder de Dilma então sacou o roteiro da
conspiração para derrubar o processo de impeachment no Congresso. Para ter o
apoio político do Planalto e permanecer no cargo, Maranhão teria, primeiro, que
atacar Michel Temer, o sucessor de Dilma, dando andamento a um pedido de
impeachment do vice. Depois, a parte mais importante: teria de tirar da gaveta
um recurso impetrado pela Advocacia Geral da União (AGU) que pedia a anulação
da sessão da Câmara que aprovou a abertura do processo de impeachment contra
Dilma.
"Você terá o apoio político
do governo se se comprometer a tocar essas duas coisas. Você topa?",
questionou Costa. Maranhão comprometeu-se a liberar o pedido de impeachment de
Temer e se comprometeu a estudar a possibilidade de acatar o pedido sobre o
pedido de Dilma, uma decisão que precisaria de mais reflexão. "Me
comprometo a analisar", disse o parlamentar, garantindo que voltaria a
conversar em sigilo com Sílvio Costa na noite de domingo (8), Dia das Mães.
Depois da conversa com Maranhão, Sílvio Costa acompanhou a presidente Dilma
Rousseff em uma agenda oficial em Pernambuco na sexta-feira. Na viagem, a
presidente foi informada de toda a operação que se desenhava.
A informação sobre o acordo com o
Palácio do Planalto chegou rápido ao Palácio do Jaburu, bunker do
vice-presidente Michel Temer, que ainda na sexta-feira destacou emissários para
tentar conversar com o presidente da Câmara. Guardando segredo sobre o pacto,
Waldir Maranhão chegou a conversar com Michel Temer, despistando o vice por
telefone. Depois, viajou para o Maranhão onde se encontrou com o governador
Flávio Dino. Era a parte final da bruxaria.
Para selar de vez o pacto, o
deputado queria garantias sobre seu futuro político - e as recebeu. Caso se
prestasse ao papel de coveiro do impeachment, ele ouviu do governador a
promessa de que teria o apoio e a máquina do governo do estado para disputar
uma das vagas do Senado em 2018. Era o que faltava para o indeciso parlamentar
se convencer de vez.
No domingo, acompanhado pelo
governador, ele embarcou para Brasília. Na capital, foi direto para a casa de
Sílvio Costa. Entre goles de uísque e petiscos de uma tábua de frios
improvisada de última hora, o vice interino acertou os últimos detalhes da
operação que desencadearia na manhã seguinte. Maranhão ainda estava preocupado
com as consequências do seu ato contra o impeachment, temia as reações da
opinião pública, temia a reação do Congresso e temia, sobretudo, a postura do
presidente do Senado, Renan Calheiros, diante da sua decisão.
Para conseguir dar segurança ao
interino, Sílvio Costa ligou para José Eduardo Cardozo e o convidou para expor
os "argumentos jurídicos" que embasariam a decisão do vice. "Eu
disse ao Maranhão que queria que ele seguisse a Constituição e o regimento da
Casa", explicou Cardozo.
A operação precisava ser mantida
em segredo. Ainda no domingo, Silvio Costa soube que emissários de Michel Temer
estavam de prontidão na entrada do prédio funcional de Maranhão. Para se
esconder, o vice foi dormir no hotel Royal Tulip, o mesmo que o ex-presidente
Lula costuma usar como escritório. Ele passou a noite no quarto acompanhado
pelo deputado Márcio Junqueira (Pros), que foi encarregado de garantir que nenhum
aliado de Temer conseguiria falar com o presidente.
Na manhã de segunda-feira, o
primeiro telefonema do dia de Maranhão foi para Sílvio Costa. "Siva!
Acabei de assinar. Está feito!". A vexatória conspirata que envolveu o
advogado-geral da União, o líder do governo e contou com o aval da presidente
Dilma Rousseff durou poucas horas.

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!