Há cinco anos, Luiz Inácio Lula da
Silva deixou o Palácio do Planalto em meio a uma popularidade recorde, elogios
de líderes estrangeiros e tendo feito sua sucessora na Presidência da
República. Era o auge da trajetória política do ex-metalúrgico de esquerda e a
consolidação do mito popular Lula.
Esse mito se fundamenta no carisma
pessoal do ex-presidente, na história do homem simples que subiu na vida, nas
políticas econômicas e sociais que tiraram milhões de pessoas da miséria e
também na imagem de ser um dos principais representantes da integridade moral
que está na origem da fundação do PT. Esse mito é tão forte que faz de Lula, ao
natural, um dos nomes mais cotados para suceder Dilma Rousseff em 2018.
Nas últimas semanas, porém, esse
mito passou por aquele que é, até o momento, seu teste mais forte. É verdade
que a Presidência de Lula teve seus percalços, como o escândalo do mensalão,
mas a figura do líder operário que se empenha pelos mais pobres passou
inabalada por todas as turbulências, pois as investigações não indicaram
participação direta dele em nenhum caso.
Agora, no entanto, a situação
ameaça se tornar bem diferente, à medida que surgem suspeitas ligando o ex-presidente
a escândalos potencialmente incendiários. Elas envolvem um apartamento triplex
no Guarujá, um sítio no interior de São Paulo, tráfico de influência e negócios
entre seus filhos e grandes empresas.
Se, para muitos petistas e
apoiadores do ex-presidente, o mensalão tinha o "atenuante" de que
não era em proveito próprio, nas recentes denúncias esse raciocínio não se
impõe. É a família de Lula que frequenta o sítio em Atibaia.
A situação é tão grave que,
segundo relatos da imprensa brasileira, Lula estaria abatido. E cientistas
políticos afirmam que o ex-presidente, em vez de ser uma figura que emprestava
seu carisma a outros políticos e ao PT, pode estar se convertendo num fardo.
Nesta quarta-feira (17/02), o
ex-presidente e sua mulher, Marisa Letícia, deverão depor no Ministério Público
Federal de São Paulo para esclarecer a relação do casal com o imóvel no
Guarujá. É a primeira vez que Lula deporá como investigado.
Manchas na trajetória política
"Lula vinha cultivando uma
imagem de estadista e de potencial candidato à Presidência nas próximas
eleições. O problema é que a fórmula que salvou o presidente em 2005, que
envolvia culpar outras pessoas, parece não se aplicar desta vez. O efeito
imediato dessas investigações é inviabilizar qualquer conversa sobre a volta de
Lula em 2018. No longo prazo, elas mancham a trajetória política de Lula",
afirma o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).
As manchas na imagem de Lula podem
ser medidas em números. Pesquisas do instituto Datafolha divulgadas no final do
ano passado apontam que a rejeição ao ex-presidente saltou de 17% para 47% nos
últimos dois anos. Já a parcela dos entrevistados que o consideram o melhor
presidente que o Brasil já teve caiu de 56% para 39%. Lula só conta com 22% das
intenções de voto para as próximas eleições presidências – o que o coloca nove
pontos percentuais atrás do senador Aécio Neves (PSDB).
Mais recentemente, uma pesquisa do
instituto Ipsos divulgada no início de fevereiro afirmou que apenas 25% dos entrevistados
consideram que Lula é honesto (em 2005, durante o escândalo do mensalão, eram
49%). O levantamento também mostra que 68% da população acredita que Lula não
tem mais moral para falar de ética, e 67% disseram que o ex-presidente é tão
corrupto como outros políticos.
Em 2015 começaram a surgir as
primeiras suspeitas sobre o presidente. Elas envolviam sua relação com grandes
empreiteiras, que custearam viagens e pagaram milhares de reais para o
Instituto Lula em troca de palestras. A pecha de "lobista", no
entanto, nunca passou de uma acusação não comprovada.
Na segunda metade de 2015 foi a
vez do apartamento triplex num prédio no Guarujá, no litoral de São Paulo. A
defesa do ex-presidente afirma que Lula e sua mulher tiveram uma cota para um
imóvel no prédio, mas que o casal desistiu da compra e nunca foi proprietário
de qualquer unidade.
Ainda assim, o caso levantou
questões sobre o porquê de a construtora do prédio, a empreiteira OAS – cuja
cúpula foi presa na Operação Lava Jato – ter gasto mais de 700 mil reais em
reformas no imóvel, como a instalação de um elevador privativo. O promotor do
caso já afirmou que tem indícios para denunciar o casal por ocultação de
patrimônio.
Em outubro foi a vez de a Operação
Zelotes chegar a Luís Cláudio Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente. As
investigações apontam que Luis Cláudio, proprietário da LFT Marketing
Esportivo, recebeu 2,4 milhões de reais em pagamentos de uma consultoria ligada
a um suposto esquema de compra de medidas provisórias para beneficiar a
indústria automotiva com incentivos no final do segundo mandato de Lula. O
ex-presidente nega que a MP 471 tenha sido influenciada por lobbies. Já a
defesa de Luis Cláudio afirma que o valor foi pago por uma consultoria na área
esportiva que foi de fato prestada.
O nome de Lula também apareceu no
início deste ano ligado ao sítio em Atibaia, que é de propriedade do filho de
um amigo do ex-presidente, o empresário Fernando Bittar, também sócio de outro
filho de Lula, Fábio Luis. Lula frequentava regularmente o local e chegou a
enviar para o imóvel objetos pessoais que estavam no Palácio do Alvorada.
Investigações mostram que a propriedade teve uma reforma custeada pela OAS, a
Odebrecht e o pecuarista José Carlos Mumbai, um amigo do ex-presidente preso durante
a Operação Lava Jato. Foram gastos cerca de 500 mil reais só na compra do
material da reforma.
A defesa de Lula admitiu que ele
frequentava o sítio e nega qualquer irregularidade, mas até agora tem evitado
comentar as reformas feitas no local. A suspeita investigada na Operação Lava
Jato é que as empreiteiras tenham reformado o local para presentear o
ex-presidente.
Muito cedo para avaliar estrago
Para o cientista político Carlos
Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), a imagem de Lula está sendo
arranhada pelas denúncias. "É complicado quando uma das principais
lideranças políticas do país não consegue esclarecer essas relações. Lula
sempre quis passar a imagem do operário que chegou lá, não a de um
milionário", comenta.
Segundo Melo, a divulgação de
informações como a de que empreiteiras bancaram a compra de cozinhas de luxo e
a instalação de elevadores particulares têm um potencial de dano maior do que
denúncias envolvendo desvios de milhões ou bilhões, que são um tanto abstratas
para a população.
O cientista compara a situação de
Lula com a do ex-presidente Fernando Collor (1990-1992). "Collor já vinha
sendo sacudido por escândalos, mas o que realmente o atingiu foi a divulgação
de reformas suntuosas na Casa da Dinda [residência particular do então
presidente], antes mesmo da comprovação de algo ilícito. Esse é o tipo de coisa
que fica na mente das pessoas", afirma.
Melo, no entanto, ressalva que,
até agora, as denúncias contra Lula ainda estão longe de serem comprovadas, e
que, ao menos até o momento, as investigações não indicaram nenhuma troca
concreta de favores por reformas ou presentes. "Até aqui, essas
investigações têm um impacto maior do ponto de vista político do que do
jurídico", diz.
Para o especialista, o cacife
político do ex-presidente para 2018 está sendo comprometido. "O PT se
comportava como se tivesse um Pelé no banco, que pode ser chamado para o jogo a
qualquer momento. Agora ficou mais complicado", analisa. "Em 2010,
com o bom momento da economia, essas denúncias teriam sido ignoradas, não
significariam nada, mas agora têm mais potencial."
O cientista político Paulo Kramer
avalia que será difícil para o ex-presidente recuperar a sua imagem.
"Esses escândalos todos mostram que Lula e seu partido não só eram adeptos
do patrimonialismo, que confunde a coisa pública com a privada, como o agravaram.
Lula almejava ser uma figura maior que Getúlio Vargas, mas se as coisas
continuarem assim ele vai acabar em pé de igualdade com Eduardo Cunha",
afirma.
Já Melo afirma que, apesar dos
abalos, ainda é muito cedo para avaliar se as manchas na imagem são permanentes.
"Fernando Henrique Cardoso saiu desgastado da Presidência e se afastou por
algum tempo. Hoje ele é uma figura respeitada. O distanciamento permite outras
avaliações", afirma.
Autor: Jean-Philip Struck
Edição: Alexandre Schossler

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