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Marcos
Valério, operador do mensalão
(Paulo
Filgueiras/D.A.Press/VEJA)
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Operador do mensalão pode
esclarecer a participação do PT em caso de chantagem que envolve a morte do
ex-prefeito de Santo André Celso Daniel
Condenado pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) a 38 anos de prisão por ser o operador financeiro do mensalão, o
empresário Marcos Valério está disposto a se tornar o mais novo delator da
Operação Lava Jato. Preso em Minas Gerais, Valério acompanha pela televisão os
desdobramentos do petrolão e já sabe que o pecuarista José Carlos Bumlai, preso
em Curitiba, confirmou aos investigadores uma das histórias narradas por ele em
2012, quando tentou fechar um acordo com a Procuradoria Geral da República. Em
depoimento prestado nesta segunda-feira, Bumlai confessou aos investigadores
ter servido de testa de ferro do PT para tomar um empréstimo de 12 milhões de
reais no Banco Schahin e honrar compromissos financeiros do partido durante o
primeiro governo Lula. A história em torno do empréstimo envolvendo o Banco da
família Schahin, o pecuarista amigo de Lula e o PT é um dos episódios mais
nebulosos da Era Lula no poder. É também um mistério que Valério pode ajudar os
investigadores a desvendar. "Meu cliente quer colaborar, desde que haja
algum benefício. Se for proposto um acordo de delação premiada, ele está
disposto, com certeza", diz o advogado Marcelo Leonardo, que defende o
mensaleiro.
O nome de Marcos Valério ressurgiu
nas investigações no ano passado, depois que os investigadores da Lava Jato
encontraram no escritório de Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto
Youssef, um contrato de empréstimo de 6 milhões de reais entre a 2S
Participações, de Marcos Valério, e a Expresso Nova Santo André, de Ronan Maria
Pinto. Quando depôs ao Ministério Público, em 2012, pouco antes de ser
condenado, Valério contou que, no primeiro mandato de Lula, foi procurado pelo
então secretário do PT, Silvio Pereira, com um pedido de ajuda. Na época,
segundo ele, o governo estava sendo chantageado por Ronan Maria Pinto, que
ameaçava implicar Lula, Gilberto Carvalho e José Dirceu na morte do ex-prefeito
de Santo André Celso Daniel. Ronan confirmaria a tese, jamais provada pela
polícia, de que Celso Daniel foi assassinado ao tentar acabar com um esquema de
cobrança de propina pelo PT em Santo André.
O valor do contrato - os 6 milhões
de reais - era exatamente a quantia que Valério dissera ao MP que o chantagista
cobrou do PT para abafar o escândalo em Santo André. Valério e amigos poderosos
do governo foram convocados para organizar a engenharia financeira da operação.
Nessa parte da história surge Bumlai, o amigo de Lula encarregado de levantar o
dinheiro junto ao Banco Schahin. O empresário disse aos investigadores que
Bumlai contraiu o empréstimo e, simultaneamente, usou sua influência para
conseguir que a construtora Schahin, ligada ao mesmo grupo empresarial,
ampliasse seus contratos com a Petrobras. Ao Ministério Público, Valério disse
que Bumlai articulou a tramoia diretamente com a direção da Petrobras, cujos
cargos-chave eram comandados por petistas.
Confrontado hoje com as revelações
da Lava Jato, o depoimento de Marcos Valério é de uma precisão devastadora.
Bumlai confessou que tomou o empréstimo milionário no Banco Schahin a mando do
PT. Bumlai foi acusado por diferentes delatores da Lava Jato de ter usado sua
influência política junto ao petismo para conseguir que a Schahin conquistasse
contratos bilionários na Petrobras, dentre eles o de operação do navio-sonda
Vitória 10.000, dado aos Schahin por ordem direta do petista José Sérgio
Gabrielli. O negócio, portanto, aconteceu exatamente como o empresário dissera.
Com todos esses pontos
esclarecidos, resta saber se o empréstimo contraído por Bumlai junto ao Banco
Schahin foi mesmo usado para comprar o silêncio do empresário Ronan Maria
Pinto. Os investigadores da Lava Jato já sabem que o contrato de empréstimo
entre a empresa de Valério e Ronan pode ser a resposta. No ano passado, VEJA
revelou que Enivaldo Quadrado, um dos comparsas de Valério no mensalão, também
investigado na Lava Jato, usava o contrato para chantagear o PT. Era a
chantagem da chantagem. Enivaldo recebia do ex-tesoureiro petista João Vaccari
Neto uma mesada de 15.000 reais, paga inclusive com dólares, para manter o
documento escondido. Os pagamentos foram confirmados por Meire Poza, a
contadora de Youssef, que revelou à CPI da Petrobras ter ido três vezes à casa
do jornalista Breno Altman, petista ligado a José Dirceu, para receber o
dinheiro em nome de Enivaldo Quadrado.
Em delação premiada, o doleiro
Alberto Youssef confirmou a mesada do PT para Enivaldo Quadrado e revelou que
foi Breno Altman que encomendou a Enivaldo a confecção do contrato envolvendo a
empresa de Marcos Valério e a empresa de Ronan Maria Pinto. "Quem pediu
para que Enivaldo Quadrado fizesse o documento era uma pessoa ligada ao Partido
dos Trabalhadores chamada Breno Altman. Por meio de tal operação, Enivaldo
receberia dinheiro ou algum outro favor", disse Youssef. O doleiro ainda
afirmou que Enivaldo guardava o contrato "a sete chaves", como
"resguardo pessoal", porque o documento comprometeria o PT na morte
de Celso Daniel. "Indagado sobre o que motivou Breno Altman a realizar tal
operação (pedir para Enivaldo fazer o contrato), foi o fato de que o PT estaria
sendo ameaçado por conta do caso 'Celso Daniel', de maneira que a documentação
foi preparada para atender a determinada pessoa, que seria o proprietário de
uma empresa de ônibus. A chantagem, no entanto, objetivava que tal pessoa
'ficasse quieta' em relação ao caso Celso Daniel", disse Youssef aos
investigadores.

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