Parto domiciliar tem complicações e provoca guerra judicial entre mãe e obstetra | Rio das Ostras Jornal

Parto domiciliar tem complicações e provoca guerra judicial entre mãe e obstetra

Mãe e obstetra trocam acusações na Justiça
Mãe acusa médica de faltar ao parto e é acusada de não ter chamado obstetra para atendê-la
Um malsucedido parto domiciliar no ano passado ocorrido dentro de um apartamento em Águas Claras (DF) opõe na Justiça, quase um ano depois, a mãe e a médica obstetra acusada de negligência no atendimento ao bebê. Ele, um menino, desenvolveu epilepsia e uma encefalopatia em decorrência de uma lesão corporal supostamente provocada por erro da equipe que o atendeu, acusa o Ministério Público do DF, em denúncia apresentada à Justiça. 
Segundo a mãe da criança, uma servidora do GDF (Governo do Distrito Federal) que por razões processuais não pode ter o nome revelado, os problemas com o filho aconteceram porque a obstetra demorou a chegar ao local onde seria realizado o parto, no caso, a própria casa dela. Segundo ela, o bebê, que estava sentado no útero, foi parcialmente expelido. Com a cabeça presa à mãe, ele pode ter tido complicações que por sua vez teriam provocado as sequelas neurológicas afirmadas pelo promotor Maurício Miranda, da Pró-Vida (Promotoria de Defesa da Vida) do DF, com base em laudos médicos.
Os serviços pelo parto, avaliados em aproximadamente R$ 10 mil, não foram pagos à médica porque a mãe não os considera realizados. Depois de socorrido pela obstetra após nascer, o bebê foi encaminhado ao Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF) onde permaneceu sob cuidados médicos intensivos durante aproximadamente 40 dias.
A médica obstetra, conhecida especialista em partos domiciliares em Brasília com 18 anos de profissão, nega que houve negligência. Ela afirma que recebeu mensagem do pai do bebê às 22h da noite do dia 26 de junho sobre a evolução nas condições da parturiente e que as informações transmitidas a ela não indicavam urgência em seu deslocamento até o local. O bebê nasceu por volta das 7h do dia seguinte.
Além disso, segundo ela, a situação foi monitorada junto aos pais pela doula (espécie de acompanhante que presta amparo emocional à gestante) que, da mesma forma, não teria verificado a necessidade de acionar a médica. A doula e uma enfermeira, que também chegou após o nascimento da criança ao apartamento, estão sendo processadas na ação penal aberta na Justiça após investigação do MP e que tramita na 1º Vara Criminal de Taguatinga (DF).
Além da ação penal proposta pelo MP, a mãe do bebê, que hoje tem dez meses, também pede reparações pelos supostos danos causados à criança em razão da eventual negligência médica em ação que transita na 24º Vara Civel em segredo de Justiça. Segundo o advogado da mãe, Éder Machado Leite, a médica foi informada em mensagem pelo telefone que o trabalho de parto havia começado.
— O confronto das declarações das pessoas envolvidas naquele dia leva à conclusão de que a médica sabia o que estava acontecendo.  Achamos muito cômodo para ela simplesmente dizer que não foi comunicada do trabalho de parto.
Por outro lado, o advogado da obstetra, Raphael Vianna de Menezes, afirma que não houve dolo ou culpa de sua cliente. Ele também contesta que o menino tenha desenvolvido problemas neurológicos em decorrência do parto.
— A obstetra não foi à residência fazer o parto porque as informações que recebeu pelo telefone não indicavam essa necessidade. Ela não foi informada que a bolsa havia rompido. Quando chegou ao local prestou socorro e salvou a criança.
Além disso, a defesa da médica acredita que a criança é saudável e pedirá à Justiça que determine perícia médica para aferir as condições neurológicas do garoto.
Na ação proposta pelo MP, o promotor pede o pagamento de R$ 150 mil pela médica à mãe do bebê e R$ 50 mil no caso da enfermeira e da doula. 
Segundo a enfermeira que atendeu a servidora pública, o parto domiciliar foi acidental. Ela diz ter sido chamada de última hora pela obstetra e afirma que chegou ao apartamento minutos depois do nascimento. A enfermeira também diz que não conhecia a família até aquele dia e que não houve assinatura de contrato de prestação de serviços. Ela e a médica já realizaram mais de cem partos domiciliares planejados em três anos de atividades em comum.
O parto domiciliar tem obtido adeptos no Brasil mas representa riscos para a parturiente e o bebê, disse ao R7 o obstetra Hiran Gallo, do Conselho Federal de Medicina. Ele disse que para eliminar riscos é preciso que o parto tenha cinco condições: um obstetra, um anestesista, um neonatologista, um berçário e uma unidade de terapia intensiva.

— Essas são as condições mínimas para um parto adequado e isso se obtém em hospitais.
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