"Os corpos estavam em toda
parte", diz o líder tribal
A quatro horas de viagem ao norte
de Freetown, a capital de Serra Leoa, a aldeia de Kigbal se transformou no
epicentro de um novo surto de ebola no país.
Segundo autoridades de saúde
locais, 30 pessoas morreram vítimas do vírus nos últimos dias em Kigbal. Isso
equivale a 10% da população da aldeia.
A reportagem da BBC chega ao
vilarejo por uma estrada de asfalto perfeito, que divide Kigbal ao meio. No
lado direito, 30 crianças estão de pé, aglomerando-se à sombra de uma árvore.
"Viemos para este lado para
ficar mais seguros", diz Mabinti Kamara, de 14 anos.
— Um monte de gente morreu ali.
Eles levaram meu pai. Não sei o que aconteceu com ele.
Perguntamos às crianças se algum
deles perdeu parentes para o ebola. Em silêncio, quase todas levantam as duas
mãos. Várias parecem febris.
"Corpos em toda
parte"
É fácil entender por que as
crianças foram para o outro lado da rua. Do lado oposto estão uma mulher e uma
criança, praticamente ocultas pela sombra de uma árvore.
"Minha cabeça está
girando", diz Adamsay Kamara, com a voz fraca, ao ver que atravessamos a
rua para ficar perto dela.
"Ela está com ebola, não
podemos chegar perto", avisa Alimamy Baymaro Lamina 2º, líder tribal em
Kigbal.
Horas antes, o líder explica, uma
equipe funerária tinha vindo à aldeia coletar corpos caídos na entrada dos casebres.
— Os corpos estavam em toda parte.
Todos naquelas casas estão mortos.
Alguns metros adiante, um idoso
está de pé fora de sua casa, gritando para chamar nossa atenção.
"Por favor, curem ela",
diz Momo Sessey, apontando para sua mulher, Fatu Kanu, deitada num banco de
mandeira. Ela está tossindo.
— Estou com medo dela e não quero
tocá-la. Por favor, levem-na para o hospital.
Damos a ele alguns pares de luvas
de borracha e o aconselhamos a dar água para a mulher.
"Quente ou fria", Sessey
pergunta.
Frustração
Lamina 2º apenas balança a cabeça
e se afasta, sem esconder sua frustração.
"Essa situação me deixa
extremamente zangado. Tenho pedido constantemente ajuda à Organização Mundial
de Saúde e ao Programa Alimentar Mundial", queixa-se.
— Eles dizem que vêm ajudar, mas
até agora ninguém apareceu.
Serra Leoa é o país mais afetado
pela epidemia do ebola. Dos 4.951 casos de morte registrados até agora, quase
metade deles (2.413), ocorreram no país.
Há frustração com o ritmo lento
dos esforços internacionais humanitários na região.
Recentemente um profissional de
saúde levou sete crianças vulneráveis de Kigbal para uma área mais distante da aldeia,
para tentar oferecer condições de quarentena melhores que apenas o outro lado
do asfalto.
"Minha cabeça está
doendo", diz Alusin, de seis anos, antes de voltar a sentar com as outras
crianças sob a sombra.
Ao lado delas, dois adultos — um
deles tossindo violentamente —, estão deitados no chão.

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