'Eu quero cantar até os 100 anos', diz Neguinho
Considerado o melhor intérprete da atualidade, Neguinho chegou a entrar em depressão ao pensar que jamais cantaria de novo na Avenida, devido ao câncer. Para o puxador, este vai ser o Carnaval mais importante de seus 34 anos na Beija-Flor
Rio - “Será que nunca mais vou cantar aqui?”, chegou a pensar Neguinho da Beija-Flor várias vezes, ao passar pelo Sambódromo. “Se eu perdesse meu fôlego, ia perder tudo”, lembra, emocionado, o cantor de 59 anos, considerado o maior intérprete da atualidade no mundo do Carnaval. Como faz questão de dizer, ele está vencendo a luta contra o câncer no intestino, descoberto em meados de 2008, e é presença confirmada hoje no desfile da Azul-e-Branca. O público e a comunidade do samba preparam, para recepcionar o ídolo, um ‘banho de axé’, como cantará a escola: “...aos orixás a nossa fé, quem banha o corpo lava a alma...”
Associações de prevenção ao câncer vão distribuir milhares de fitas verdes — os laços da esperança — para o público das arquibancadas, que deverá acená-las durante a passagem de Neguinho. “Esse é o Carnaval mais importante da minha vida”, prevê, do alto de sua experiência de 34 carnavais.
—Você está completando 134 anos de carreira. Qual foi o momento mais marcante em sua História?
—O primeiro ano, quando a Beija-Flor foi campeã pela primeira vez na História, com um samba meu, em 1976. Mas, agora, esse que vem aí vai passar a ser o mais importante, foi um desafio chegar até aqui. Eu estava na expectativa de, depois de 34 anos, não poder mais fazer aquilo que eu levei a vida toda fazendo, que é cantar na Avenida, ser o porta-voz da Baixada Fluminense, através da Beija-Flor.
—Seu tratamento acabou?
—Ainda não. Minha última sessão de quimioterapia está marcada para 17 de maio. Aí é só torcer para dar tudo certo, para o câncer ter ido embora e não voltar mais. Mas estou vencendo essa batalha, com a graça de Deus e a força das orações do povo. Eu pensava que nunca mais ia conseguir cantar na vida e domingo vou entrar na Avenida para cantar os 82 minutos, é muita felicidade.
—Qual foi o momento mais difícil nessa luta contra o câncer?
—Era quando eu passava pela Marquês de Sapucaí e pensava: “Será que nunca mais vou cantar aqui?”. Assim como o último ano do Jamelão foi ‘Vou invadir o Nordeste’, achei que meu último ano ia ser o ‘Macapaba’ (enredo campeão ano passado). Só sei fazer isso, é o que eu adoro fazer, eu me preparei e batalhei muito para compor e cantar, não sei fazer outra coisa. No princípio, eu fiquei em depressão. Imagina o que ia acontecer com minha cabeça se eu tivesse de parar de cantar? Pensei no Pelé, em como deve ter sido para ele, depois de ser tão endeusado, de repente ter de largar aquilo que deu tudo de bom que ele tem. Eu me senti assim. Cantar um samba na Avenida não é para qualquer cantor, vários já tentaram e não conseguiram, tem que nascer para isso. É como se nós, os intérpretes da Sapucaí, fôssemos maratonistas da voz. Se eu perdesse meu fôlego, ia perder tudo.
— Sua mulher estava grávida de sete meses quando você ficou doente. Como foi passar por tantas emoções ao mesmo tempo?
—Eu operei no dia 26 de julho e a Luiza nasceu no dia 15 de setembro. Nesse período, veio muita coisa na cabeça, achei que não fosse ver o nascimento da minha filha. Depois que ela nasceu, veio o medo de não conseguir gravar o CD das escolas de samba. Foram duas etapas que eu consegui vencer, e agora vou vencer de novo na Marquês de Sapucaí. Só falta o campeonato, mas acho que estou de olho grande, Deus já me deu mais do que eu mereço!(risos)
—Você já disse que o câncer trouxe muitas coisas boas. Como assim?
—De uma coisa ruim surgiram várias coisas boas que levantaram meu astral para que eu superasse essa doença medonha. Precisou acontecer o câncer para eu tomar conhecimento do quanto o povo gosta do meu trabalho. E não são só os torcedores da Beija-Flor, recebo apoio de gente de todas as escolas. Também dou mais valor a tudo agora, aos amigos, à família, ao trabalho, tudo!
-Você imagina se apresentar por outra escola que não a Beija-Flor?
-Já recebi várias propostas, inclusive da Portela, de escolas de São Paulo, ofereciam até casa com piscina. Mas nunca pensei em aceitar, porque a Beija-Flor é minha comida, meu tudo, minha comunidade, meus amigos, minha família. Se um dia a escola não me quiser mais, eu paro de cantar no Carnaval. Porque Carnaval para mim é Beija-Flor, espero cantar na escola até os 100 anos. Se o Jamelão foi até os 95 e fumava e bebia, eu chego aos 100 facilmente (mais risos).
Após um atraso de mais de meia-hora, a escola de samba São Clemente abriu o desfile do Grupo de Acesso A do Rio de Janeiro, na noite deste sábado (21), no Sambódromo, no Centro. Com o enredo “O beijo moleque da São Clemente”, a agremiação homenageia Benjamim de Oliveira, palhaço negro que fez história no início do século 20 ao pintar o rosto de branco para brilhar nos picadeiros.
O presidente da Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso (Lesga), Reginaldo Pereira Gomes, explicou que o atraso foi provocado pela entrada de pessoas não autorizadas na área de concentração.
No total, dez escolas do Grupo de Acesso A vão desfilar nesta noite. Não é à toa que o desfile é considerado uma espécie de prévia do Grupo Especial: 8 das 10 escolas que hoje estão no Acesso já figuraram na elite do carnaval.
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