18/09/2026

Saúde de Rio das Ostras: até quando a população terá de esperar por respostas?

Editorial Rio das Ostras Jornal

Por Angel Morote

A saúde pública de Rio das Ostras não pode ser tratada como uma sucessão de episódios isolados. Falta de medicamentos e insumos, problemas estruturais, reclamações sobre atendimento, dificuldades na rede de urgência e emergência e, agora, a denúncia de alimentos sem validade encontrados no Hospital Municipal formam um conjunto de situações que exige respostas objetivas da Prefeitura.

O incêndio que destruiu completamente, em 30 de junho, o Almoxarifado Central da Secretaria Municipal de Saúde agravou um cenário que já vinha sendo questionado. Segundo a própria Prefeitura, foram perdidos integralmente medicamentos, insumos, materiais de consumo e equipamentos odontológicos. O Município anunciou um plano de contingência, compras emergenciais e medidas para recompor os estoques.

Mas incêndio não pode se transformar em explicação para todos os problemas da saúde municipal. A população precisa saber o que foi efetivamente recuperado, o que continua faltando, quais compras foram realizadas, em que quantidade, por quais valores e quando a rede estará plenamente abastecida.

O problema dos medicamentos não começou com o incêndio

A falta de medicamentos e insumos já vinha sendo levada à Câmara Municipal antes do incêndio. Há registros oficiais de requerimentos solicitando informações sobre medicamentos em falta na Farmácia Municipal e sobre insumos para tratamento e monitoramento de diabetes.

Em maio deste ano, o vereador Léo Tatá voltou a levar o assunto à tribuna e cobrou providências diante de reclamações sobre falta de medicamentos e insumos, chegando a defender publicamente a exoneração do secretário municipal de Saúde, Fábio Simões.

Agora, em setembro, surge uma nova denúncia: durante fiscalização realizada por vereadores no Hospital Municipal, foram encontrados, segundo o relato de Léo Tatá, alimentos sem validade e mais de 100 quilos de carne descartados após o acionamento da Vigilância Sanitária e do Procon.

É uma denúncia que precisa ser apurada até o fim.

Não basta retirar o produto inadequado do hospital. É necessário descobrir como ele entrou, quem recebeu, quem armazenou, quem fiscalizou o contrato, quem deveria ter identificado a irregularidade e quais providências administrativas foram tomadas.

A saúde não pode funcionar à base de improviso

Há ainda outras reclamações que precisam ser respondidas: a situação de ambulâncias e sua manutenção, as condições de atendimento nos serviços de urgência, relatos de espera e superlotação, a estrutura do atendimento infantil e a disponibilidade de profissionais especializados.

Entre essas demandas está também o atendimento às crianças com transtorno do espectro autista e a necessidade de especialistas, incluindo neurologia pediátrica, para acompanhar casos que exigem avaliação e acompanhamento médico especializado.

São questões diferentes, mas todas têm algo em comum: dependem de planejamento, profissionais, estrutura, abastecimento e gestão.

A própria Prefeitura reconheceu, ao decretar situação de emergência em saúde no início da atual gestão, que havia servidores trabalhando em condições precárias, unidades sem conservação e manutenção adequadas e sobrecarga de trabalho.

Passado esse período, a população tem o direito de perguntar: o que mudou?

Fiscalização não pode acontecer somente quando a crise aparece

A fiscalização parlamentar é uma atribuição constitucional e precisa ser permanente. Não pode começar depois que um vídeo viraliza nas redes sociais, depois que um paciente reclama ou depois que uma irregularidade chega à tribuna.

A Câmara Municipal possui uma Comissão de Saúde cuja composição para o período 2025–2026 é presidida pelo vereador Orlando Ferreira Neto, o Neco da Saúde. Entre suas atribuições está justamente acompanhar questões relacionadas à saúde municipal e às políticas públicas do setor.

Por isso, a denúncia envolvendo a alimentação do Hospital Municipal deveria provocar uma atuação institucional: visita técnica, solicitação de documentos, análise do contrato, verificação das notificações, acompanhamento das providências sanitárias e apresentação pública dos resultados.

E essa fiscalização não precisa ser feita isoladamente.

O Conselho Municipal de Saúde também tem papel fundamental nesse processo. O próprio portal oficial do Conselho registra atividades de acompanhamento, relatórios de visitas e discussões relacionadas a denúncias sobre medicamentos encaminhadas ao Ministério Público.

O presidente da Comissão de Saúde, vereador Orlando Ferreira Neto, o Neco da Saúde, também precisa ser cobrado por essa responsabilidade institucional. Não se trata de uma questão pessoal ou partidária, mas do exercício da função para a qual a própria Câmara criou a comissão: acompanhar a saúde pública e fiscalizar as ações da rede municipal.

Neco possui, inclusive, histórico político diretamente ligado à área da saúde. Em 2013, quando ainda exercia mandato anterior, ele teve o diploma cassado pela Justiça Eleitoral em processo relacionado às eleições de 2012. A decisão da Justiça Eleitoral determinou ainda sua inelegibilidade por oito anos. O caso envolveu acusações de captação ilícita de sufrágio e abuso de poder econômico, e há registro de que houve recurso contra a decisão.

Esse episódio pertence ao passado e não deve ser confundido com a atual atuação parlamentar do vereador. Mas justamente por presidir hoje a Comissão de Saúde, Neco precisa responder politicamente, dentro de suas atribuições institucionais, à expectativa da população por uma fiscalização efetiva da rede municipal.

No episódio mais recente envolvendo a cozinha do Hospital Municipal, chama atenção a necessidade de uma manifestação pública da Comissão de Saúde. Se a comissão tem entre suas atribuições acompanhar e fiscalizar a saúde municipal, a população precisa saber quais providências serão adotadas diante da denúncia apresentada em plenário.

Mais do que discursos, o momento exige visita técnica, documentos, contratos, relatórios e respostas públicas.

Câmara e Conselho precisam conversar com a população

O momento exige menos discurso e mais acompanhamento.

É necessário que Comissão de Saúde da Câmara e Conselho Municipal de Saúde atuem de maneira articulada, dentro de suas competências, acompanhando estoques, contratos, manutenção de veículos, condições das unidades, filas, atendimento infantil, oferta de especialistas, capacitação dos servidores e execução dos recursos destinados à saúde.

Também é legítimo perguntar ao governo Carlos Augusto quais metas foram estabelecidas para a Secretaria de Saúde, quais foram cumpridas e quais ainda estão pendentes.

E, diante das cobranças públicas pela saída do secretário Fábio Simões, cabe ao Executivo explicar à população quais são os resultados apresentados pela Secretaria e quais medidas estão sendo adotadas para enfrentar os problemas apontados.

A população não pode ser obrigada a descobrir os problemas da saúde pela internet

O episódio das carnes encontradas no Hospital Municipal é emblemático porque coloca uma questão básica sobre a mesa: se vereadores foram ao local e encontraram produtos sem validade, quais mecanismos de fiscalização estavam funcionando antes daquela visita?

Essa pergunta não é uma acusação. É uma cobrança de transparência.

A saúde pública precisa de controle permanente, protocolos, fiscalização, profissionais capacitados, manutenção, abastecimento e responsabilidade na execução dos contratos.

Rio das Ostras cresceu. A demanda aumentou. A rede precisa acompanhar esse crescimento.

O cidadão que chega a um pronto-socorro não pode carregar para dentro da unidade a preocupação de saber se haverá medicamento. A família de uma criança autista não deveria peregrinar em busca de especialista. O paciente internado não deveria ter de se preocupar com a qualidade da alimentação que recebe. E o servidor da saúde precisa encontrar condições adequadas para trabalhar.

O debate, portanto, não deve ser sobre quem grita mais alto na tribuna.

Deve ser sobre quem fiscaliza, quem administra, quem responde e quem resolve.

A saúde de Rio das Ostras precisa sair definitivamente do terreno das promessas e entrar no campo dos resultados verificáveis.

E a população tem todo o direito de acompanhar, cobrar e perguntar:

Onde estão os medicamentos?

Como estão as ambulâncias?

Como está o atendimento infantil?

Quantos especialistas estão disponíveis?

Como estão sendo fiscalizados os contratos?

O que foi feito depois do incêndio do almoxarifado?

E, principalmente: quem está fiscalizando a saúde de Rio das Ostras todos os dias?

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