
O aumento das recuperações judiciais de produtores rurais no Brasil tem provocado uma “incerteza brutal” no cenário de crédito para o agronegócio, conforme avaliação de Marcio Santos, CEO da Bayer Brasil. Em entrevista exclusiva ao Money Times, o executivo destacou a urgência de diferenciar os agricultores que enfrentaram eventos climáticos extremos daqueles cuja dificuldade financeira resultou de decisões de investimento mal sucedidas.
Essa incerteza crescente na capacidade dos produtores de honrar seus compromissos eleva o risco para quem financia a cadeia produtiva. Santos ressalta que tal cenário pode ir além da questão do crédito, influenciando até mesmo a decisão de onde alocar investimentos globais, como em regiões estratégicas do Norte Fluminense e da Região dos Lagos, que dependem do fluxo de capital para seu desenvolvimento agrícola.
Impacto das Recuperações Judiciais no Agronegócio
A dificuldade em prever quais produtores conseguirão cumprir suas obrigações financeiras cria um ambiente de cautela para investidores e financiadores. Marcio Santos enfatiza que essa turbulência pode levar multinacionais a comparar o Brasil com outros mercados na hora de definir a alocação de capital. “Se você cria um ambiente turbulento, você dá aquela cautela no investidor”, afirmou o CEO.
Essa comparação internacional pode ter sérias consequências para o país, afetando a geração de empregos, a renda, as exportações e a entrada de divisas. Um cenário de maior risco no agronegócio brasileiro, que é um pilar da economia, pode desestimular novos aportes e frear o crescimento em diversas cadeias produtivas, impactando diretamente municípios como Rio das Ostras e Macaé, que possuem forte ligação com o setor.
Defesa de Política Pública para Eventos Climáticos Extremos
Diante desse panorama, o CEO da Bayer defende a implementação de uma política pública robusta para produtores atingidos por eventos climáticos extremos. Ele citou as recentes enchentes no Rio Grande do Sul como um exemplo, mas lembrou que o estado também enfrenta secas severas e que outras regiões do Brasil, incluindo partes do Interior do RJ, já passaram por situações semelhantes.
Para esse grupo específico, Santos propõe mecanismos que permitam a preservação da atividade produtiva após choques que fogem ao controle do agricultor. “O nosso agro inteiro vai ficar mais fraco se a gente perder alguém por um evento climático extremo”, alertou. A criação de fundos preventivos seria essencial para mitigar esses riscos e proteger a base produtiva nacional.
Contudo, o executivo fez uma ressalva importante: é crucial distinguir os produtores que sofreram com o clima daqueles que assumiram riscos elevados e fizeram investimentos baseados em premissas que não se concretizaram. Misturar as duas situações, segundo ele, poderia criar incentivos inadequados e prejudicar a saúde geral do setor, justificando o “mau investimento”.
A Importância do Brasil para a Estratégia da Bayer
O Brasil desempenha um papel fundamental para a Bayer, respondendo por mais da metade da operação da companhia na América Latina. Marcio Santos destacou que a presença de 130 anos da empresa no país é resultado de um ambiente de negócios construído ao longo de décadas, com regras que oferecem previsibilidade para o retorno dos investimentos.
Apesar das preocupações com o ambiente de negócios, a Bayer não discute uma saída do mercado brasileiro, mas sim as condições para novos investimentos. Santos ponderou que a taxa de juros é uma contingência do momento, enquanto questões estruturais como a segurança da propriedade privada e intelectual, e a capacidade de fazer cumprir contratos, têm maior peso nas decisões de longo prazo.
A empresa continua avaliando oportunidades de expansão, como a possível instalação de uma fábrica no Brasil para a divisão de Saúde do Consumidor. O projeto, ainda em fase de amadurecimento, considera o tamanho da população brasileira e o potencial de categorias como cuidados com a pele e vitaminas, além da possibilidade de usar o país como plataforma de exportação para a América Latina.
Desafios Climáticos e a Questão do Glifosato
A possibilidade de um El Niño forte também está no radar da Bayer, com modelos climáticos apontando para um cenário preocupante, especialmente para as culturas de soja e milho na região central do país, que concentra cerca de dois terços das culturas anuais. “Nesse momento é um ponto de atenção, porque nós estamos com um plano de negócio feito para um ambiente de relativa normalidade”, afirmou Santos.
Sobre o glifosato, produto central no agronegócio e alvo de disputas jurídicas, o CEO defendeu sua segurança, citando centenas de estudos científicos. Ele mencionou a recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos a favor da Monsanto (subsidiária da Bayer), que impede processos estaduais por falta de aviso de risco de câncer no rótulo do Roundup. Para Santos, a questão principal não é apenas o glifosato, mas a autonomia das agências reguladoras, fundamental para a segurança dos negócios.
O Rio das Ostras Jornal acompanha o cenário do agronegócio e suas implicações para a Costa do Sol e todo o Interior do RJ.
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