Editorial: O eleitor de Rio das Ostras diante de mais uma escolha: o que aprendemos com as urnas? | Rio das Ostras Jornal

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Editorial: O eleitor de Rio das Ostras diante de mais uma escolha: o que aprendemos com as urnas?


Editorial - Por Angel Morote

Mais uma eleição se aproxima e, com ela, volta uma pergunta que não deveria aparecer apenas durante o período eleitoral: o que nós, eleitores, estamos procurando quando escolhemos alguém para nos representar?

Em Rio das Ostras, os resultados das últimas eleições mostram um comportamento que merece ser observado com atenção. Nas eleições gerais, o município apresentou, em diferentes momentos, forte votação para candidaturas identificadas com a direita e a centro-direita. Mas as eleições municipais também demonstraram que o eleitor pode fazer escolhas diferentes quando está diante de candidatos conhecidos pela sua trajetória local.

É justamente aí que está uma das características mais interessantes do eleitorado de Rio das Ostras: não existe uma única explicação para o voto.

A eleição municipal de 2020 é um exemplo. Marcelino da Farmácia, então filiado ao Partido Verde, venceu aquela disputa. O resultado permite uma leitura diferente daquela observada nas eleições presidenciais. Não é possível afirmar que todos os seus eleitores tenham votado nele por causa de seu nome, de sua trajetória ou de suas propostas, porque não existe uma pesquisa que permita determinar individualmente a motivação de cada voto. Mas o resultado demonstra que uma preferência política nacional não necessariamente se repete de maneira automática numa eleição municipal.

Em 2024, o cenário municipal voltou a apresentar outra configuração. Carlos Augusto Carvalho Balthazar concorreu pelo PL e venceu a eleição para prefeito à frente de uma ampla coligação. A própria documentação eleitoral registra o PL como partido do candidato a prefeito e uma aliança que reuniu outras legendas na chapa majoritária.

E aqui aparece uma questão que não pode ser ignorada: o peso do partido, da ideologia nacional e da identidade política do candidato também pode fazer parte da decisão do eleitor.

O PL, especialmente nos últimos anos, passou a carregar uma forte identificação nacional com o campo político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso faz parte do contexto político brasileiro e ajuda a compreender determinadas escolhas eleitorais. Mas contexto não significa necessariamente causa. Somente o próprio eleitor, ou uma pesquisa representativa, poderia dizer por que cada pessoa apertou determinado número na urna.

Eleições não são apenas sobre nomes

O debate para 2026, portanto, não deveria se resumir a perguntar quem está de um lado ou de outro. O eleitor de Rio das Ostras, assim como o eleitor brasileiro, terá diante de si propostas, partidos, candidatos, histórias políticas e diferentes visões para o futuro.

E é nesse momento que precisamos olhar para aquilo que permanece independentemente da ideologia: educação, saúde, segurança, emprego, transporte, infraestrutura, esporte, lazer, assistência social, acessibilidade e qualidade dos serviços públicos.

São essas questões que chegam à porta de casa.

É o filho que precisa de uma escola funcionando. É o trabalhador que precisa de oportunidade. É a pessoa com deficiência que precisa de acessibilidade e autonomia. É o idoso que precisa de transporte e atendimento digno. É o jovem que precisa de esporte, cultura e perspectiva. É a família que precisa de saúde pública funcionando quando mais necessita.

A Constituição Federal reconhece uma série desses temas como direitos sociais e estabelece também o dever do Estado de fomentar práticas esportivas e atividades de lazer.

Por isso, talvez seja hora de o eleitor fazer uma pergunta diferente antes de escolher seu candidato:

O que ele pretende fazer e, principalmente, como pretende fazer?

Não basta ouvir promessas. É preciso observar histórico, propostas, alianças, orçamento, capacidade administrativa e coerência entre discurso e prática.

O resultado das nossas escolhas

Existe ainda uma parte da democracia que muitas vezes é esquecida depois da eleição.

O voto termina na urna. A responsabilidade do eleitor, não.

Quando escolhemos um prefeito, um vereador, um governador, um deputado, um senador ou um presidente, não entregamos a essas pessoas uma autorização para fazerem o que quiserem durante quatro anos. Entregamos um mandato para que exerçam funções públicas dentro das regras constitucionais e legais.

E cabe ao cidadão acompanhar.

Fiscalizar.

Questionar.

Cobrar.

Participar.

O Tribunal Superior Eleitoral mantém uma estrutura pública para consulta dos resultados eleitorais e dos dados das eleições realizadas no país. A informação eleitoral, portanto, não precisa ficar restrita ao período de campanha.

Isso vale para todos os lados políticos.

Quem votou na direita precisa cobrar seus representantes quando discordar de suas decisões.

Quem votou na esquerda precisa fazer exatamente a mesma coisa.

Quem votou em um candidato de centro também.

E quem não encontrou nenhum candidato que representasse suas convicções precisa exercer seu direito dentro das possibilidades previstas pela legislação eleitoral e continuar participando da vida pública.

Nem partido, nem candidato devem receber um cheque em branco.

E a economia?

Também é necessário olhar para o debate econômico sem paixão partidária.

Durante o governo Jair Bolsonaro, o país enfrentou a maior crise sanitária das últimas décadas. Houve políticas de transferência de renda e medidas destinadas a preservar renda e atividade econômica durante a pandemia, ao mesmo tempo em que o Brasil enfrentou queda econômica e forte deterioração fiscal naquele período.

No encerramento de 2022, o Tesouro Nacional registrou superávit primário de R$ 59,7 bilhões para o Governo Federal. O próprio relatório oficial, porém, apresenta o resultado dentro de um contexto fiscal mais amplo, com regras excepcionais, receitas e despesas extraordinárias e diferentes indicadores das contas públicas.

O eleitor pode avaliar esses números e chegar à sua própria conclusão.

E deve poder fazer isso sem que nenhum partido lhe diga antecipadamente o que pensar.

Essa talvez seja a maior maturidade que uma democracia pode alcançar: não votar apenas contra alguém, nem votar apenas porque alguém pertence a determinado partido, mas conhecer o que está sendo colocado diante da sociedade.

Rio das Ostras já mostrou diferentes comportamentos nas urnas.

Já escolheu candidatos associados à direita e à centro-direita em eleições gerais. Já escolheu nomes de outras correntes políticas nas disputas municipais. Já colocou a avaliação sobre pessoas e administrações locais no centro do debate.

Os resultados estão registrados.

Agora vem uma nova eleição.

E a pergunta não deveria ser apenas “em quem você vai votar?”.

Talvez a pergunta mais importante seja:

“O que você espera que o seu voto produza nos próximos quatro anos — e você estará disposto a acompanhar, cobrar e fiscalizar quem receber esse voto?”

Porque democracia não termina quando a urna fecha.

É justamente ali que começa a responsabilidade de todos nós.

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