16/08/2026

Sabedoria literária: Lygia Fagundes Telles e Esther Ferraz em debate atemporal

Sabedoria literária: Lygia Fagundes Telles e Esther Ferraz em debate atemporal

Um encontro memorável na Academia Paulista de Letras, em São Paulo, reuniu duas das maiores intelectuais brasileiras, Lygia Fagundes Telles e Esther de Figueiredo Ferraz, em uma tarde de profunda reflexão sobre literatura e a vida. A ocasião, marcada por um pôr do sol que parecia música, revelou a sabedoria e a delicadeza dessas figuras icônicas, cujas conversas ecoam até hoje nos corredores da instituição.

A escritora Lygia Fagundes Telles, conhecida por sua perspicácia e elegância, demonstrou uma rara capacidade de filtrar o ruído e focar no essencial. Em meio a um comentário indelicado de um acadêmico sobre ela, Lygia, com um sorriso sereno, preferiu desviar a atenção para a poesia dos românticos, como Castro Alves e Álvares de Azevedo, ignorando o que não vinha do amor e da palavra.

Encontro de Gigantes na Academia Paulista

A chegada de Esther de Figueiredo Ferraz, a primeira mulher a ser ministra e reitora no Brasil, trouxe ainda mais brilho ao encontro. Lygia e Esther, próximas e em sintonia, mudaram o foco da conversa dos poetas românticos para a obra imortal de Machado de Assis, especialmente o enigmático romance “Dom Casmurro”.

O debate central girou em torno de Capitu, a personagem mais controversa da literatura brasileira. Esther argumentou que a perspectiva da narrativa era a de um homem ciumento, influenciada por sentimentos internos. Lygia, por sua vez, revelou sua própria jornada de interpretação, passando da certeza da traição na primeira leitura para a dúvida nas releituras posteriores, elogiando a genialidade de Machado por manter o leitor nesse estado de incerteza.

O Enigma de Capitu e a Dúvida Machadiana

A discussão sobre Capitu e a “dúvida” machadiana ressaltou a profundidade da obra e a capacidade de Machado de Assis de criar personagens complexos, que continuam a provocar reflexão. Esther complementou, humanizando o autor ao lembrar sua origem humilde no morro do Livramento, suas perdas e desafios, e seu amor inabalável pela palavra.

A tarde seguiu com a troca de ideias, onde a escuta atenta se revelou um dos mais elevados exercícios do amar. A sabedoria de não dar importância a palavras sem significado, e de silenciar os sons do desamor com os sons do afeto, foi uma lição valiosa. Lygia e Esther, que viveram vidas centenárias, deixaram um legado de amor pela literatura e pela capacidade de questionar e abraçar a dúvida.

As quintas-feiras na Casa do Arouche, sede da Academia Paulista de Letras, continuam a ser palco de encontros e conversas literárias. No entanto, a memória daquele dia, com Lygia e Esther, permanece como um testemunho da eternidade da palavra e da sabedoria que transcende o tempo. O Rio das Ostras Jornal continua acompanhando o cenário cultural e literário da Região dos Lagos e do Norte Fluminense.

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