
Conhecida por dominar o universo dos sistemas operacionais e consoles de videogame, a Microsoft também teve uma ambiciosa, porém turbulenta, passagem pelo mercado de smartphones. Longe da famosa parceria com a Nokia, a gigante da tecnologia tentou lançar seus próprios celulares, como os modelos Kin e a linha Surface, em uma jornada marcada por inovações e desafios.
Essas incursões, que se estenderam de 2010 a 2019, revelaram a dificuldade da empresa em competir com gigantes como Android e iOS, resultando em projetos de vida curta e, em alguns casos, até mesmo cancelados antes de chegarem ao público. A história desses aparelhos oferece um olhar sobre os bastidores da inovação e os riscos do setor mobile, um tema que interessa aos entusiastas de tecnologia em Rio das Ostras, Macaé e toda a Região dos Lagos.
A longa jornada da Microsoft no universo mobile
A trajetória da Microsoft no mercado de dispositivos móveis é complexa, alternando entre o papel de fornecedora de plataformas e a tentativa de fabricar seus próprios aparelhos. Tudo começou em 1996, com o lançamento do sistema Windows CE, uma versão compacta do Windows desenvolvida para computadores menores. Essa plataforma evoluiu para o Pocket PC 2000, tornando-se um dos sistemas mais populares em assistentes pessoais digitais (PDAs), os precursores dos smartphones.
Com o tempo, o Windows Mobile, como foi rebatizado, chegou aos celulares. O HTC Orange SPV, de 2002, foi um dos primeiros smartphones a adotá-lo, seguido pelo Sony Ericsson Xperia X1, que marcou o início da linha Xperia. Em 2010, a Microsoft lançou o Windows Phone 7, uma versão que buscava maior atenção no mercado e que, posteriormente, impulsionou a parceria e a aquisição da divisão mobile da Nokia.
Apesar dos esforços, o Windows Phone nunca conseguiu competir de igual para igual com o Android e o iOS, atingindo cerca de 4% da fatia global do mercado de celulares, embora tenha tido um desempenho um pouco melhor no Brasil e em alguns países da Europa. A última versão da plataforma, o Windows 10 Mobile, teve um uso limitado e foi oficialmente descontinuada em 2019, marcando o fim de uma era para a Microsoft no cenário dos sistemas operacionais móveis.
Kin One e Kin Two: a aposta nos jovens
A primeira tentativa da Microsoft de lançar smartphones com design próprio foi com os modelos Kin One e Kin Two, apresentados em abril de 2010. Fabricados pela Sharp, esses aparelhos foram desenvolvidos com foco em um público jovem, entre 15 e 30 anos, que buscava algo diferente das opções disponíveis na época. A ideia original veio de uma startup chamada Danger, adquirida pela Microsoft após o sucesso do telefone Sidekick.
Os dispositivos Kin eram compactos e inovadores para o período, com um teclado físico retrátil e recursos como backup automático na nuvem. O Kin Two, em particular, era a versão mais robusta, equipada com uma câmera traseira de 8 MP, um chip Nvidia Tegra de 600 MHz e uma tela de 3,4 polegadas. No entanto, eles enfrentavam sérias limitações em termos de aplicativos e especificações técnicas, ficando muito atrás do iPhone, que já estava em sua terceira geração e ganhava cada vez mais espaço, e das diversas alternativas do Android.
Além das deficiências técnicas, os celulares Kin eram caros, atrelados a planos de telefonia específicos da operadora Verizon nos Estados Unidos, e apresentavam problemas técnicos que a própria Microsoft já conhecia. Essa combinação de fatores levou a um desempenho de vendas muito baixo, resultando no encerramento das vendas em menos de dois meses após o lançamento, tornando-os uma curiosidade na história da tecnologia.
Surface Phone: a lenda que não viu a luz do dia
Por volta de 2013, a Microsoft considerou o lançamento de um aparelho que seria batizado de Surface Phone. A proposta era criar uma versão móvel da bem-sucedida linha Surface de eletrônicos, que na época já contava com dispositivos 2-em-1 (tablet e notebook) voltados principalmente para os mercados corporativo e educacional. Diversos protótipos foram desenvolvidos e descartados internamente, mas apenas um deles parece ter vazado em agosto de 2026, oferecendo a única evidência material da existência do projeto.
As imagens revelaram um dispositivo que rodaria um sistema operacional interno, que mais tarde se tornaria o Windows Phone 8.1. Ele contaria com um processador Qualcomm (não especificado), uma tela de resolução HD (720p) e recursos focados em comunicação e uso corporativo, incluindo uma integração direta com o Skype. O design apresentava um visual metálico na cor prata, três botões físicos para navegação, duas câmeras e o logo da Microsoft em destaque.
Conhecido internamente pelo codinome Raven, o projeto do Surface Phone foi definitivamente abandonado após a aquisição da divisão de dispositivos móveis da Nokia em 2014. Anos depois, fãs chegaram a criar um abaixo-assinado para tentar reviver o projeto, mas a Microsoft não deu seguimento, consolidando o Surface Phone como uma lenda entre os aparelhos que nunca chegaram ao mercado.
Surface Duo: a reinvenção com duas telas
A tentativa mais recente da Microsoft de lançar smartphones sob sua própria marca veio em outubro de 2019, com o Surface Duo. Este aparelho representou uma espécie de derivação do projeto cancelado do Surface Phone, mas com uma abordagem inovadora: em vez de ser um celular dobrável tradicional, ele apresentava dois displays que podiam funcionar como uma única tela quando abertos. O dispositivo rodava o sistema operacional Android e era equipado com um chip Snapdragon da Qualcomm.
Apesar da proposta interessante, o Surface Duo teve vendas bastante limitadas e foi lançado com meses de atraso em relação ao anúncio inicial. Sua recepção no mercado e entre a crítica especializada não foi muito positiva. Mesmo com o lançamento de uma segunda geração, o Surface Duo 2, a Microsoft não conseguiu reverter o cenário, e o aparelho continuou sem grande destaque. O Surface Duo 2 trazia melhorias como o Android 11 e dois painéis AMOLED de 5,8 polegadas, mas ainda assim não alcançou o sucesso esperado.
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