Falso médico atende criança com câncer no Rio e acende alerta para fiscalização | Rio das Ostras Jornal

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Falso médico atende criança com câncer no Rio e acende alerta para fiscalização

Falso médico atende criança com câncer no Rio e acende alerta para fiscalização
Imagem gerada com IA

A prisão de um falso médico que atendia uma criança com câncer em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, há uma semana, expõe graves lacunas na fiscalização e controle da prática da medicina no estado do Rio de Janeiro. O caso acende um alerta para os riscos que pacientes vulneráveis, como a menina de 10 anos, correm diante de profissionais sem a devida qualificação ou registro.

Diogo dos Santos Serpa, de 42 anos, foi detido por policiais da 63ª DP (Japeri) enquanto realizava um atendimento. Ele utilizava um registro com o nome de Jefferson Sampaio e se apresentava como especialista em CTI pediátrico, expondo a fragilidade dos mecanismos de checagem de empresas e órgãos públicos, um problema que se estende por todo o Norte Fluminense e Região dos Lagos.

O drama da família e a desconfiança da mãe

Cintia Santos Matheus, de 36 anos, mãe de Maria Eduarda Matheus, de 10 anos, diagnosticada com um tumor cerebral maligno em abril de 2025, foi uma das vítimas. Ela contratou uma empresa de home care, a Health+ Cuidados, vinculada à Unimed, à qual Diogo Serpa estava ligado. A desconfiança de Cintia surgiu ao notar a insegurança do falso médico com equipamentos e receitas.

“Vi minha filha ficar doente, busquei denunciar e ninguém acreditou em mim. Meu medo é que outras crianças estejam sofrendo como ela. Ele usou nome falso, visitou minha casa várias vezes, viu minha filha piorar e só sabia cobrar mais dinheiro”, desabafou Cintia. A criança, que passava por tratamento domiciliar após cirurgias, recebia as visitas de Diogo desde outubro do ano passado.

A investigação revelou que o falso médico realizou pelo menos seis atendimentos, cobrando entre R$ 700 e R$ 1 mil por visita. Nesse período, ele prescreveu medicamentos, solicitou exames e fez encaminhamentos, tudo em nome de outro profissional. Além da menina, um homem de 71 anos com Parkinson, hidrocefalia e autismo também foi vítima da negligência de Serpa.

Ações da polícia e a resposta das empresas

No momento da prisão, Diogo Serpa ainda utilizava crachá e receituário em nome de um profissional de saúde, evidenciando a audácia de sua atuação. A denúncia que levou à sua detenção foi registrada na mesma delegacia que investigava o caso do idoso.

Questionada, a Unimed Nova Iguaçu afirmou que a contratação, seleção e conferência da documentação dos profissionais são responsabilidade exclusiva das empresas terceirizadas. A cooperativa ressaltou não ter tido contato com Diogo dos Santos Serpa ou com o Dr. Jefferson, e que uma equipe multidisciplinar avalia os pacientes afetados. A Health+ Cuidados, por sua vez, declarou que o nome conhecido por eles era Jefferson Targino Sampaio, com inscrição ativa e validada no CRM, conforme checagem da documentação apresentada.

Investigações se ampliam e órgãos alertam

O caso de Nova Iguaçu não é isolado. Um levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aponta 2.428 casos de exercício ilegal da medicina, odontologia e farmácia que chegaram ao Judiciário entre 2020 e junho de 2026. Somente no estado do Rio, foram 302 processos nesse período, um número próximo ao de São Paulo, que tem uma população quase três vezes maior.

Recentemente, o hospital do Grupo de Saúde Celita Toledo, em Laranjeiras, Rio de Janeiro, foi vistoriado por suspeita de que médicos estrangeiros, ainda alunos de pós-graduação, estariam realizando procedimentos cirúrgicos sem autorização no Brasil. Duas mortes foram confirmadas em casos de complicações, e a investigação está a cargo da Delegacia do Consumidor (Decon), sob o delegado Wellington Vieira.

Renata Lima, vice-presidente do Cremerj e diretora do departamento de fiscalização, alerta: “Os falsos médicos são criminosos. Orientamos tanto os médicos que têm dados fraudados quanto a população que se julga atendida por um falso médico que denunciem ao Cremerj e imediatamente à polícia.” Ela enfatiza a importância de empresas checarem os dados dos contratados, que podem ser verificados na página do Conselho. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também disponibilizou a Plataforma Medicina para denúncias desde maio, com 16 registros já feitos. Para mais informações sobre a regulamentação médica, consulte o site do Conselho Federal de Medicina.

Especialistas apontam que a dificuldade de fiscalização em contratos terceirizados e a alta demanda por especialistas, especialmente em cirurgia e estética, podem facilitar a atuação desses criminosos. Leandro Pereira, diretor do Departamento dos Serviços Credenciados (DESC) da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) no Rio, sugere que a fama do Rio como cidade litorânea e polo estético pode atrair falsos profissionais em busca de dinheiro fácil.

O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso e os desdobramentos das investigações na Costa do Sol e em todo o Interior do RJ.

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