El Niño impulsiona infestação de mosquitos no inverno atípico do Rio | Rio das Ostras Jornal

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El Niño impulsiona infestação de mosquitos no inverno atípico do Rio

El Niño impulsiona infestação de mosquitos no inverno atípico do Rio
Imagem gerada com IA

Moradores de diversas regiões do Rio de Janeiro enfrentam uma incomum infestação de mosquitos, os pernilongos comuns, em pleno inverno. O fenômeno, que se estende por pelo menos quatro meses, tem gerado desconforto e preocupação, com especialistas apontando o El Niño como principal catalisador para a proliferação atípica.

As temperaturas acima do esperado para a estação e a distribuição irregular das chuvas, características do El Niño, criaram condições ideais para a reprodução dos insetos. Embora a Secretaria Municipal de Saúde não classifique a situação como uma infestação generalizada, relatos de bairros como Copacabana, Laranjeiras e Tijuca indicam um aumento significativo da presença dos mosquitos, forçando a população a recorrer a repelentes e raquetes elétricas.

Relatos de Moradores e a Batalha Diária

A aposentada Vivien Rosenzweig, de 67 anos, residente em Copacabana, descreve a situação como uma “guerra”. Ela acorda com dezenas de picadas e já tentou de tudo: ventilador, repelentes de tomada, inseticidas e receitas caseiras, sem sucesso. “Eles não morrem nunca, é como se usassem máscara”, desabafa Vivien, que suspeita da sujeira e bueiros entupidos como origem do problema.

O incômodo é generalizado. Em Copacabana, o porteiro Edmilson Bezerra observa moradores constantemente espantando os mosquitos na portaria. Na Rua Xavier da Silveira, Lucília Santos, de 73 anos, adotou raquete elétrica, repelentes e inseticidas, mas a “nuvem” de insetos sempre retorna. Comerciantes da Nossa Senhora de Copacabana já abriram chamados no 1746, sem solução até o momento.

A situação se repete em outros pontos da Zona Sul e Zona Norte. Em Laranjeiras, a rotina de estabelecimentos comerciais foi alterada. Cleidiane Rodrigues, garçonete, usa a raquete elétrica constantemente. “É demais aqui. A gente já fez dedetização, mas não dá muito jeito. Sempre acaba voltando”, relata. Moradores do Flamengo e Laranjeiras também associam o aumento à presença de lixo nas ruas, um fator que contribui para a proliferação.

El Niño e as Condições Climáticas Favoráveis

A explicação para a presença massiva de pernilongos no inverno reside nas condições climáticas atípicas. Gislani Mateus, superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, explica que o “inverno de veranicos” acelera a ecologia do pernilongo comum (gênero Culex). “Quanto mais quente, mais rápido ele se multiplica”, afirma. Diferente do Aedes aegypti, que se reproduz em água limpa e transmite doenças como dengue, zika e chikungunya, o Culex prolifera em água com matéria orgânica, como fossas, ralos e esgotos, e tem hábitos noturnos.

O entomólogo Arlindo Serpa Filho, da Associação de Educação Ambiental SOS Vida Silvestre e pesquisador colaborador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), corrobora que as temperaturas elevadas neste inverno são cruciais para a presença incomum de Culex. Ele destaca que o frio oscilante do Rio de Janeiro não é suficiente para interromper a reprodução da espécie, que se desenvolve em diferentes tipos de água e locais escuros, como bueiros e poços de elevadores. Para mais detalhes sobre a relação entre o El Niño e a saúde, consulte a Fiocruz.

Estratégias de Controle e o Papel da População

A Secretaria Municipal de Saúde esclarece que as ações de prevenção do Sistema Único de Saúde (SUS) focam apenas em espécies que transmitem doenças aos seres humanos, como o Aedes aegypti. Como o pernilongo comum não transmite doenças de relevância para a saúde pública, não há uma estratégia específica de controle por parte do poder público, mesmo diante do desconforto populacional. Isso explica a falta de resposta aos chamados no 1746.

A técnica do fumacê, lembrada por moradores de bairros como Tijuca, Maracanã e Grajaú, não é a solução para o problema dos pernilongos comuns. Gislani Mateus adverte que o fumacê não é um método de prevenção, mas de contenção para o Aedes aegypti em casos de epidemia. Além de matar apenas mosquitos adultos e não as larvas, ele pode causar desequilíbrio ambiental ao eliminar predadores naturais dos insetos, como mariposas, e afastar pássaros.

Para um combate eficaz, o entomólogo Arlindo Serpa Filho enfatiza a necessidade de uma parceria entre o poder público e a população. “Os condomínios e residências precisam investigar de onde vêm esses mosquitos”, afirma. O combate deve ocorrer em duas frentes: eliminar os criadouros, onde estão os mosquitos imaturos, e controlar os adultos. Não basta atuar em uma só. A limpeza urbana e a atenção a focos de água parada com matéria orgânica são essenciais para mitigar o problema na Região dos Lagos e em todo o Norte Fluminense.

O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso.

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