
A discussão sobre a influência de jogos violentos no comportamento agressivo de jovens e adultos é um tema recorrente em Rio das Ostras, Macaé e em toda a Região dos Lagos. Contudo, o que a ciência tem demonstrado consistentemente é que a relação entre videogames e violência no mundo real é bem diferente do que o senso comum sugere.
Longe de ser uma causa direta, a agressividade humana é um fenômeno complexo, moldado por múltiplos fatores sociais, psicológicos e econômicos, conforme apontam as últimas análises e pesquisas globais sobre o assunto.
O debate sobre videogames e comportamento agressivo
A suposta conexão entre jogos violentos e a violência na vida real tem suas raízes em pesquisas iniciais. Um relatório de 2015 da Associação Americana de Psicologia, por exemplo, apontava uma relação consistente entre videogames violentos e o aumento de comportamentos, cognições e afetos agressivos. Essa perspectiva alimentou por anos o debate em diversas comunidades, incluindo as famílias do Norte Fluminense.
Consenso científico: a ausência de ligação direta com a violência
No entanto, estudos mais recentes têm desafiado essa visão. Andrew Przybylski, professor associado da Universidade de Oxford e especialista em mídias digitais, conduziu uma pesquisa em 2019 com mais de mil adolescentes britânicos. O resultado foi claro: não foi constatada nenhuma relação direta entre jogos violentos e o comportamento agressivo, um achado corroborado por outras investigações independentes.
Outra pesquisa significativa, realizada em 2020 pela Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, examinou meta-análises de estudos pré-existentes. Embora tenha sido observado que jogos violentos podem, em alguns casos, aumentar o comportamento agressivo, os efeitos são quase sempre mínimos, beirando a insignificância. A pesquisa concluiu que as causas reais da violência estão ligadas a fatores como questões socioeconômicas, saúde mental, dinâmica familiar e vivências traumáticas.
Curiosamente, algumas pesquisas sugerem que, em vez de predispor jovens à violência, os videogames podem, na verdade, reduzir a agressividade no mundo real. Eles oferecem um canal para que as pessoas externalizem sentimentos dentro do ambiente virtual, em vez de direcioná-los contra outras pessoas. Um estudo de 2016, que analisou dados criminais, indicou que a violência social geral diminuiu nas semanas seguintes ao lançamento de novos videogames. Para mais detalhes sobre um dos estudos, clique aqui.
Dessensibilização: um efeito a ser observado
Apesar da ausência de uma ligação direta com a violência no mundo real, existe um fenômeno comum em mídias violentas que merece atenção: a dessensibilização. Conforme Luiza Chagas Brandão, do Instituto de Psicologia da USP, a exposição excessiva a determinados estímulos pode fazer com que eles percam o impacto. A violência, que inicialmente pode causar repulsa, pode ser normalizada com o consumo contínuo de mídias violentas.
Luiza Chagas Brandão, doutora em Psicologia Clínica pela USP, enfatiza: “É importante ressaltar que a violência é um fenômeno complexo e multideterminado. A gente não consegue dizer que este evento específico é o único responsável pela violência. A violência é um construto que vai depender de diversos fatores.”
O impacto do consumo de jogos violentos ainda requer muita pesquisa, especialmente devido à complexidade dos fatores que influenciam o indivíduo. Associar jogos violentos e suas consequências no mundo real de forma simplista é, portanto, um equívoco que ignora uma série de elementos de risco que se somam no inconsciente.
O Rio das Ostras Jornal continua acompanhando as pesquisas e debates sobre temas relevantes para a comunidade da Costa do Sol e do interior do RJ.
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