![]() |
| Foto: Arquivo Pessoal |
Jornalista, repórter fotográfico,
cinegrafista, atleta PCD e ex-presidente do Conselho Municipal da Pessoa com
Deficiência de Rio das Ostras.
A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) não é uma sugestão. Não é
uma orientação. Não é um documento simbólico para discursos institucionais. É
lei. E, como tal, deveria ser cumprida integralmente pelo poder público. No
entanto, em Rio das Ostras, a distância entre o que está escrito no papel e o
que é vivido pelas pessoas com deficiência ainda é alarmante.
O que se vê na prática é um cenário repetido: falta de profissionais especializados na educação, no esporte, falta de
medicamentos na rede pública, dificuldade de acesso a tratamentos contínuos,
ausência de suporte adequado à reabilitação e serviços que não acompanham as
necessidades reais da população. Enquanto isso, o discurso oficial segue
confortável, distante da realidade de quem depende diariamente do sistema.
A judicialização virou regra, não exceção
Em um sistema que funcionasse minimamente como deveria, a
Lei Brasileira de Inclusão bastaria. Mas a realidade é outra: pessoas com
deficiência são empurradas para a judicialização como única forma de garantir
direitos básicos.
Medicamentos de uso contínuo, terapias essenciais, insumos e
até atendimentos especializados só chegam quando há decisão judicial. Isso não
é eficiência institucional — é falência administrativa disfarçada de
normalidade.
E aqui surge a pergunta inevitável: por que a administração
pública ainda trata direitos fundamentais como se fossem concessões eventuais?
Saúde pública fragilizada e discurso desconectado
Não é possível falar em inclusão enquanto a base do sistema
— a saúde pública — segue fragilizada. A falta recorrente de medicamentos e a
dificuldade de acesso a serviços especializados não são episódios isolados. São
sintomas de um modelo que não prioriza quem mais precisa.
Para pessoas com deficiência, essa precariedade tem impacto
direto na autonomia, na dignidade e até na sobrevivência. Ainda assim, o
problema parece ser tratado como estatística administrativa, e não como
violação de direitos.
Capacitação: o ponto que o poder público insiste em
ignorar
Outro ponto crítico é a ausência de capacitação contínua e
obrigatória dos servidores públicos para o atendimento às pessoas com
deficiência.
Atender PcDs não é apenas cumprir protocolo. É compreender
limitações, adaptar linguagem, respeitar ritmos e, principalmente, agir com
humanidade. Mas o que se observa com frequência é um atendimento burocrático,
frio e despreparado — que transforma o direito em obstáculo.
A falta de formação adequada não é detalhe técnico. É uma
escolha institucional de negligência.
Inclusão não é presença física, é dignidade
A LBI é clara ao garantir acessibilidade, autonomia e
participação plena. Mas a inclusão real não acontece apenas com rampas e
documentos. Ela exige estrutura, investimento e mudança de mentalidade.
O capacitismo institucional ainda está presente quando o
sistema trata a pessoa com deficiência como um problema a ser administrado, e
não como um cidadão com direitos plenos.
Quando o básico precisa virar processo judicial
Talvez o maior absurdo seja este: o cidadão precisa acionar
a Justiça para garantir o mínimo.
Isso expõe uma contradição grave — um Estado que reconhece
direitos na lei, mas falha sistematicamente em executá-los na prática. E quando
isso acontece de forma recorrente, não se trata mais de falha pontual. Trata-se
de um modelo que precisa ser urgentemente revisto.
Conclusão: a LBI não falha — quem falha é sua aplicação
A Lei Brasileira de Inclusão é avançada, moderna e completa.
O problema não está na legislação. Está na execução.
Enquanto o poder público de Rio das Ostras não encarar a
inclusão como prioridade real — com orçamento, capacitação e compromisso
efetivo —, continuará produzindo uma cidadania incompleta para pessoas com
deficiência.
E nenhuma lei, por mais bem escrita que seja, consegue
compensar a ausência de vontade política.

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!