O tempo foi o dono de tudo no segundo dia de Rio Fashion Week; confira os destaques | Rio das Ostras Jornal

O tempo foi o dono de tudo no segundo dia de Rio Fashion Week; confira os destaques

O tempo foi o dono de tudo no segundo dia de Rio Fashion Week; confira os destaques

O segundo dia do Rio Fashion Week, realizado no Pier Mauá, mergulhou profundamente na complexa relação com o tempo, um tema que ressoou de forma singular na cidade do Rio de Janeiro. Enquanto o primeiro dia celebrou o retorno e a renovação, a quarta-feira foi dedicada à reflexão sobre a passagem, a permanência e o que se constrói ao longo dos anos. Quatro marcas — Aluf, Normando, Salinas e Piet — apresentaram suas coleções, cada uma interpretando o conceito de tempo por caminhos distintos, mas convergentes na essência.

A capital fluminense, com sua história de obras demoradas e marcos culturais eternos, serve como um pano de fundo ideal para essa discussão. Décadas sem uma semana de moda, anos para concluir projetos urbanos, mas, ao mesmo tempo, berço de ícones globais como a Bossa Nova, o biquíni de lacinho e o carnaval inimitável. A segunda noite do Rio Fashion Week capturou essa dualidade, transformando-a em inspiração para as passarelas.

Aluf e os diálogos sobre o tempo na passarela

A estilista Ana Luísa Fernandes trouxe a Aluf para a passarela com a coleção “Diálogos sobre o Tempo”. A abertura do desfile, com a atriz Camila Pitanga e o som marcante de um tic-tac ao vivo, estabeleceu o tom. As peças, confeccionadas em tecidos naturais como cetim, veludo, rendas e pérolas, exibiam um acabamento que sugeria uma história já vivida, longe da perfeição asséptica do novo. A alfaiataria da Aluf questionou a necessidade de a roupa parecer recém-saída da fábrica, valorizando a textura e a memória dos materiais.

A pérola, elemento central na coleção, funcionou como uma metáfora precisa: um grão de areia que, com o tempo, se transforma em matéria preciosa. Listras conferiam ritmo, plissados expandiam o movimento e sobreposições quebravam a previsibilidade, mantendo a coesão da construção. A mulher Aluf, segundo a visão da marca, não busca deter o tempo, mas sim decidir como aproveitá-lo da melhor forma, com peças que refletem uma elegância consciente e atemporal.

Normando e a natureza que resiste ao tempo

Em seguida, a Normando apresentou “Natureza Morta”, um manifesto potente sobre a interação entre o tempo e a floresta. O látex amazônico, extraído dos seringais, foi transformado em peças esculturais, como casacos e jaquetas cuia em lã e látex sobrepostos, remetendo a armaduras. Um vestido em látex fumê coberto por renda chantilly preta criava uma tensão intrigante entre o orgânico e o ornamental.

Em outros looks, o látex se metamorfoseou em folhagens verdes aplicadas sobre blazers de viscose preta, com plantas de tambatajá emergindo dos ombros, simulando a floresta retomando a roupa. O material também apareceu em um biquíni top em formato de vitória-régia e em gravatas feitas de raízes, em sua forma mais crua. O bronze oxidado marcou a conclusão da coleção, com jaquetas na cor verdigris, o verde da pátina do metal consumido pelo ar, e estampas de torso masculino e um body com a temática “Amazônia Oxidada”, simbolizando a floresta digerindo a escultura. A banana podre de Ferreira Gullar foi eternizada em estampa, suspendendo o apodrecimento. Os 35 looks da Normando não apenas celebraram o exotismo amazônico, mas reforçaram a convicção de que o design brasileiro pode ser, fundamentalmente, nortista.

Salinas: a sensualidade atemporal da mulher brasileira

A Salinas subiu à passarela reafirmando sua assinatura: a sensualidade despretensiosa. As modelos iniciaram o desfile com toalhas enroladas na cabeça, exalando uma aura de elegância sem esforço. A transição para micro biquínis adornados com miçangas e franjas foi acompanhada pela trilha sonora ao vivo de Agnes Nunes, que interpretou clássicos de Luiz Gonzaga e Timbalada. A natureza brasileira foi a grande inspiração, com bem-te-vis, araras e guarás transpostos para estampas aquareladas em maiôs, brincos-pássaro e asas de borboleta em tecido vermelho brilhante nos ombros.

Corta-ventos e leggings em cores saturadas dividiram espaço com vestidos midi de jacquard solar e saias balonê rodadas. A alfaiataria, estruturada mas leve, evocava a brisa ou o bater de asas de um pássaro. A diretora criativa Adriana Bozon resumiu a essência da coleção, afirmando que a natureza é sexy, é potência, e que o biquíni brasileiro é icônico porque a mulher brasileira é icônica, capturando uma essência que transcende as palavras.

Piet + Pool: o futebol como elo cultural e a moda acessível

Encerrando a noite, a Piet, em parceria com a Pool da Riachuelo, apresentou um desfile que buscou reposicionar a fast fashion no cenário do design e da curadoria. Para essa colaboração de alcance nacional, Pedro Andrade elegeu o futebol como o código cultural que une o Brasil, atravessando classes, gerações, gêneros e regiões. A coleção trouxe camisetas em algodão agroecológico com corte vintage e conjuntos em nylon reinterpretados por recortes e proporções que se afastam do uniforme tradicional sem abandonar a referência.

Aplicações em transfer com relevo e textura adicionaram dimensão a peças com preços acessíveis, a partir de R$79,99. A cartela de cores em branco, azul, amarelo e preto evitou o óbvio verde-amarelo, mas manteve a alusão à temática. A proposta genderless incluiu uma linha infantil inédita para Pedro Andrade, que em 13 anos de Piet nunca havia explorado esse segmento. Em um evento que recebeu compradores internacionais, o desfile da Piet + Pool foi o único do dia a apresentar algo que a família inteira pode usar e adquirir, não como uma concessão de massa, mas como uma extensão natural de uma marca que sempre utilizou a rua como seu principal laboratório de ideias.

O segundo dia do Rio Fashion Week demonstrou a capacidade da moda brasileira de ir além das tendências superficiais, propondo reflexões profundas sobre a cultura, a natureza e o próprio tempo. As coleções apresentadas no Pier Mauá não apenas exibiram criatividade, mas também reafirmaram a identidade e a relevância do design nacional no cenário global. Continue acompanhando o Rio das Ostras Jornal para mais informações relevantes, atuais e contextualizadas sobre moda, cultura e os principais acontecimentos que impactam nossa região e o Brasil.

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