Por Angel Morote
A garantia de direitos das pessoas com deficiência no Brasil
está bem definida no papel. A Lei Brasileira de Inclusão estabelece princípios
claros de igualdade, acessibilidade e participação plena na sociedade. No
entanto, a distância entre o que prevê a legislação e o que se vivencia no
cotidiano ainda é significativa — especialmente em municípios como Rio das
Ostras.
Ao longo dos últimos anos, acompanhando de perto essa
realidade, tenho observado que, apesar de discursos institucionais apontarem
avanços, a efetivação de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência
ainda ocorre de forma limitada. A acessibilidade urbana segue insuficiente, e
muitas iniciativas não alcançam de maneira ampla quem delas necessita.
Grande parte das melhorias que surgiram no município não foi
resultado de um planejamento estruturado, mas sim da atuação direta da
sociedade civil. Demandas relacionadas à mobilidade, comunicação acessível e
inclusão em serviços públicos vêm sendo constantemente apresentadas ao poder
público, muitas vezes sem a resposta necessária.
Nesse contexto, minha atuação como pessoa com deficiência,
ativista e ex-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com
Deficiência (COMDEF) me colocou em uma posição de diálogo constante com o poder
público. Ao longo dos últimos oito anos, participei da formalização de
propostas, encaminhamento de demandas e articulação institucional, sempre com o
objetivo de garantir direitos que já estão previstos em lei, mas que ainda não
se concretizam plenamente.
É importante destacar que essa não é uma atuação individual
isolada, mas parte de um esforço coletivo de pessoas que vivenciam diariamente
as barreiras impostas pela falta de acessibilidade. Ainda assim, essa
experiência evidencia um ponto crítico: em muitos casos, os avanços só
acontecem quando há pressão direta da população afetada.
Embora existam ações pontuais — como adaptações em espaços
públicos e iniciativas de comunicação inclusiva —, elas ainda não configuram
uma política pública ampla, contínua e estruturada. Inclusão não pode depender
de iniciativas isoladas ou de momentos específicos; ela precisa ser permanente
e integrada às decisões da gestão pública.
Outro aspecto fundamental é compreender que as pessoas com
deficiência não formam um grupo homogêneo. Diferentes realidades exigem
diferentes soluções, e políticas públicas eficazes precisam considerar essa
diversidade. A ausência dessa visão contribui para a manutenção de desigualdades.
Também é necessário fortalecer os espaços de participação
social. Conselhos como o COMDEF existem para garantir que a voz da população
seja ouvida. No entanto, quando as demandas apresentadas não se transformam em
ações concretas, corre-se o risco de esvaziar o próprio propósito desses
espaços.
Falar sobre inclusão, portanto, não é apenas tratar de
acessibilidade física ou cumprimento de normas legais. Trata-se de garantir
dignidade, autonomia e igualdade de oportunidades.
Em Rio das Ostras, o desafio já não está em reconhecer os
direitos das pessoas com deficiência, mas em efetivá-los. Isso exige
compromisso, planejamento e, sobretudo, vontade política.
Enquanto essa mudança não ocorre de forma consistente,
seguirá sendo necessário que pessoas diretamente afetadas continuem ocupando
espaços, apresentando demandas e cobrando soluções. Não como exceção, mas como
parte essencial de uma sociedade que ainda precisa aprender que inclusão não é
favor — é direito.

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!