
O cenário da mobilidade urbana no Rio de Janeiro enfrenta um desafio crescente com a popularização das bicicletas elétricas. O aumento exponencial desses veículos no Brasil, que saltaram de 7,6 mil unidades em 2016 para impressionantes 284 mil em 2024, expõe uma lacuna estrutural na capital fluminense: a carência de ciclovias adequadas, a ausência de regras claras e a falta de fiscalização eficaz. Nas ruas cariocas, motoristas, pedestres e ciclistas relatam uma crescente insegurança, em meio a uma disputa por espaço que a infraestrutura da cidade ainda não conseguiu acompanhar. A urgência da situação foi tristemente evidenciada por um recente acidente na Tijuca, que resultou em duas mortes, reacendendo o debate sobre a segurança viária.
Especialistas no tema apontam que a adoção de medidas relativamente simples poderia mitigar significativamente os riscos. Entre as soluções propostas estão a redução da velocidade nas vias urbanas, aprimoramento da sinalização e a expansão de espaços exclusivos para o tráfego de bicicletas, visando uma convivência mais harmônica e segura para todos os modais de transporte.
O crescimento e o caos nas ruas do Rio
A ascensão meteórica das bicicletas elétricas, impulsionada em parte pela busca por alternativas de transporte durante e após a pandemia de Covid-19, não encontrou um ambiente preparado no Rio de Janeiro. Sem uma infraestrutura dedicada e bem definida, os ciclistas são forçados a dividir as vias com veículos motorizados ou, em muitos casos, a circular pelas calçadas, elevando drasticamente o risco de colisões e conflitos. A psicóloga Claudia Oliveira descreve a situação como uma “terra sem lei”, onde a falta de respeito é palpável, com ciclistas sem capacete tanto no asfalto quanto nas calçadas, gerando sustos e uma sensação de competição por espaço.
Apesar do visível aumento desses veículos, a prefeitura do Rio de Janeiro ainda não dispõe de dados oficiais sobre a quantidade de bicicletas elétricas em circulação. A Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio (CET-Rio) informa que o município possui cerca de 500 quilômetros de infraestrutura cicloviária. Contudo, essa extensão se mostra insuficiente para a demanda atual, resultando em uma convivência desorganizada. Motoristas reclamam da presença de bicicletas no fluxo de trânsito, pedestres se sentem ameaçados nas calçadas e até mesmo os próprios ciclistas expressam desconforto. A psicóloga Ane Saraiva relata sentir-se “inconveniente” ao pedalar, mas sem ter outra opção diante da falta de estrutura.
Promessas e a realidade da infraestrutura cicloviária
A ampliação da malha cicloviária no Rio de Janeiro é uma promessa recorrente da gestão municipal. Em 2023, sob a administração de Eduardo Paes (PSD), a prefeitura lançou o Plano de Segurança Viária, reconhecendo o crescimento do número de ciclistas na cidade. O documento destacava que o uso da bicicleta como meio de transporte foi potencializado pela pandemia, levando mais pessoas a optar por modos ativos ao ar livre.
No mesmo ano, a Secretaria Municipal de Transportes apresentou o Plano de Expansão Cicloviária, conhecido como CicloRio, com a ambiciosa meta de expandir a malha para mil quilômetros até 2033. No entanto, o progresso tem sido lento. Em um ano, a extensão das ciclovias aumentou apenas 1,9%, o que representa cerca de 10 quilômetros a mais dos 457 que a cidade possuía em 2023, um avanço muito aquém da meta estabelecida. Essa lentidão posiciona o Rio como a 6ª capital do país que menos expandiu sua infraestrutura para bicicletas e a 6ª pior em termos proporcionais de infraestrutura cicloviária por habitante.
A falta de estrutura adequada é evidente em diversos pontos da cidade. Ciclistas frequentemente se arriscam em vias de alto movimento e até em locais proibidos, como o Túnel Santa Bárbara, na Zona Sul. Em calçadas estreitas, repletas de obstáculos como postes, árvores e buracos, a coexistência com pedestres torna-se inevitável e perigosa, muitas vezes sem sinalização apropriada. Na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, onde ocorreu o trágico acidente com duas mortes, moradores há anos clamam por mais segurança e organização no trânsito. Mesmo onde intervenções foram realizadas, problemas persistem. Na Gávea, a criação de uma ciclofaixa melhorou a segurança em um trecho, mas a remoção da faixa no sentido oposto gerou críticas, conforme relatado pelo professor Davison Coutinho, que lamenta a retirada sem explicação.
Regulamentação e as soluções propostas por especialistas
Para os especialistas, o cenário atual não é um destino inevitável e pode ser transformado com a implementação de medidas eficazes. A professora Marina Baltar, da Coppe/UFRJ, enfatiza a necessidade de priorizar os usuários mais vulneráveis do trânsito, baseando-se em estudos e exemplos internacionais. Ela defende ações diretas para aprimorar a convivência e a segurança viária.
Entre as propostas, Baltar destaca a redução da velocidade nas vias que se deseja tornar mais agradáveis para todos os modais. Além disso, a melhoria da sinalização é crucial, com a instalação de ciclovias bem-sinalizadas, com placas e pintura, e a demarcação de ciclo-rotas onde não for possível construir ciclovias, indicando que a bicicleta é bem-vinda. A professora argumenta que a principal mudança deve ser uma reorientação do modelo de cidade incentivado pelo poder público. É preciso abandonar a visão de que a cidade é pensada apenas para carros, aceitando que, em muitos lugares, será necessário ceder espaço de estacionamento ou áreas antes destinadas a veículos motorizados para criar mais espaço para ciclistas e pedestres, que são os mais vulneráveis e necessitam de proteção.
Outro ponto central é a urgência da regulamentação. Embora uma resolução nacional de 2023 estabeleça regras para veículos elétricos, o Rio de Janeiro ainda não regulamentou localmente como essas normas serão aplicadas. Essa lacuna impede a fiscalização e a aplicação de multas, perpetuando um cenário de insegurança para condutores e pedestres. Para os especialistas, a solução passa por uma decisão política firme. É uma escolha decidir que a cidade será para as pessoas, e não para os carros, uma decisão que, embora difícil, precisa ser enfrentada. Existem soluções simples, como melhorias na sinalização, demonstração de força dos meios de transporte alternativos e redução de velocidade, que não são um “sonho utópico” e podem ser implementadas hoje.
O posicionamento da Prefeitura e o futuro da mobilidade
A equipe de reportagem do RJ2 procurou a Prefeitura do Rio para obter informações sobre o lento avanço do plano de expansão cicloviária, mas não obteve resposta. A CET-Rio reiterou que a cidade conta com aproximadamente 500 quilômetros de infraestrutura cicloviária. A ausência de um posicionamento claro da administração municipal sobre o tema reforça a percepção de que a questão da mobilidade e segurança para bicicletas elétricas ainda carece de prioridade e ações concretas.
A crescente demanda por alternativas de transporte sustentáveis e a necessidade de garantir a segurança de todos os usuários das vias urbanas exigem uma abordagem proativa e integrada. O futuro da mobilidade no Rio de Janeiro dependerá da capacidade do poder público em transformar promessas em realidade, criando uma cidade mais inclusiva e segura para bicicletas elétricas, pedestres e veículos motorizados. Para mais informações sobre mobilidade urbana e as últimas notícias do Rio de Janeiro, continue acompanhando o Rio das Ostras Jornal, seu portal de informação relevante, atual e contextualizada.
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