Para especialistas, apesar de
embates com o governo Trump, Brasil deve aproveitar agendas para fortalecer
alianças multilaterais
A 80ª
Assembleia-Geral das Nações Unidas ocorre na próxima segunda-feira
(22), em Nova York, nos Estados Unidos, e o Brasil
chega ao evento em meio a tensões com o país norte-americano.
Além
de atritos comerciais, com aumento de tarifas e ameaças de novas sanções ao
Brasil, episódios recentes envolvendo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha,
elevaram a temperatura.
Na última quinta-feira (18), os
Estados Unidos liberaram um visto para o ministro viajar com a comitiva do
presidente Lula — Padilha estava com o documento vencido desde 2024. No
entanto, a permissão veio acompanhada de restrições: o ministro só poderia
circular em uma área de cinco quarteirões em Nova York.
A limitação impede que o Padilha
participe de uma reunião da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), em
Washington, evento que também fazia parte da agenda dele. Diante da imposição
do governo Trump, o ministro desistiu
de viajar.
Na sexta-feira (19), Padilha
enviou uma carta aos às autoridades da pasta da Saúde dos países membros da
OPAS para anunciar que não participará da próxima reunião do Conselho Diretor
da entidade. O ministro classificou a decisão como “arbitrária e autoritária”,
afirmando que a medida “afronta o direito internacional e prejudica a
cooperação harmônica entre países soberanos”.
Mais Médicos
Desde agosto, Padilha e outras
autoridades ligadas à área da Saúde têm sido alvo do governo norte-americano. O
motivo seria a atuação no programa Mais Médicos, que contratou profissionais
cubanos para trabalhar no Brasil.
No dia 15 de agosto, a mulher e a
filha do ministro tiveram os vistos revogados. E, sob a alegação de que haveria
um “esquema de exportação coercitiva de mão de obra do regime cubano pelo
programa Mais Médicos”, o governo dos EUA também impôs restrições a outros
profissionais.
‘Desconfianças de longo prazo’
Especialistas ouvidos pelo R7 afirmam
que o episódio dos vistos aumenta a tensão entre os países, mas não compromete
a atuação do Brasil na ONU.
Para o doutor e coordenador de
Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás, Diego Trindade,
problemas consulares podem gerar desconforto, receio e dificuldades práticas
para diplomatas, mas não afetam a pauta global.
“A relação bilateral Brasil-Estados
Unidos é apenas uma entre inúmeras, considerando que a Assembleia Geral da ONU
tem 193 membros, são membros da ONU, para quase todos os países do mundo. A
Assembleia-Geral da ONU, certamente, vai ver vários discursos, alguns mais
aguerridos, denunciando, criticando, marcando posição contra aquilo que tem
acontecido”, ressalta Diego.
No entanto, o cientista político
e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha Maurício
Santoro afirma que este espisódio e os atuais problemas do Brasil com o país
norte-americano vão gerar desconfianças a longo prazo.
“As tensões são muito graves. É o
pior momento da relação bilateral, em mais de 200 anos de negociações
diplomáticas. Os atuais problemas vão gerar desconfianças de longo prazo e é provável
que aprofundem a tendência dos últimos anos, de impulsionar o Brasil para se
aproximar ainda mais de países como China e Índia, em busca de contrapontos à
influência dos Estados Unidos”, destaca Santoro.
Escalada de tensão
No início de julho, o presidente
dos EUA, Donald Trump, anunciou tarifas de 50% sobre os produtos importados do
Brasil. No mesmo mês, o presidente americano suspendeu o visto de alguns
ministros do STF, incluindo Alexandre de Moraes e Flávio Dino.
Na última segunda-feira (15), o
secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que o governo
americano deve anunciar nesta semana novas medidas de retaliação contra o
Brasil. A medida seria uma resposta à condenação do ex-presidente Jair
Bolsonaro, pelo STF, a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado,
entre outros crimes.
Em entrevista à Fox News, Rubio
criticou a atuação da Justiça brasileira e o ministro Alexandre de Moraes,
apesar de não citar o nome dele.
“O Estado de Direito está se
desintegrando. Temos esses juízes ativistas — um em particular — que não só
perseguiu Bolsonaro, aliás, ele tentou — ele tentou realizar reivindicações
extraterritoriais contra cidadãos americanos ou contra alguém que postasse
on-line de dentro dos Estados Unidos, e até ameaçou ir ainda mais longe nesse
sentido”, declarou Rubio.
Para Maurício Santoro, o melhor
que o Brasil pode fazer neste momento para enfrentar o protecionismo dos
Estados Unidos é aprofundar e diversificar suas parcerias políticas e
econômicas com atores estratégicos da ordem global.
“É hora de investir em acordos
comerciais com essas nações e buscar, sempre que possível, o fortalecimento de
instituições multilaterais, embora com a consciência de que elas vivem um
momento de grande fragilidade, como vemos, por exemplo, no caso da Organização
Mundial do Comércio, que não vem tendo um papel relevante em enfrentar os
tarifaços americanos”, destaca Santoro.
Brasil busca protagonismo
O Brasil ocupa uma posição
central na Assembleia-geral da ONU, sendo responsável por iniciar os discursos.
A abertura é considerada uma oportunidade para apresentar à comunidade
internacional as prioridades da política externa do país.
Além disso, o Brasil será o país
sede da COP30, em novembro, o que aumenta ainda mais o protagonismo brasileiro
no cenário internacional.
Como parte disso, o governo
brasileiro convocou uma consulta presencial com as partes negociadoras da COP30
durante a Assembleia-Geral da ONU.
O objetivo é acelerar a adoção
das agendas, destravar impasses e garantir um “início suave dos trabalhos”,
segundo a 6ª carta à comunidade internacional emitida pelo presidente da COP30,
André Corrêa do Lago.
Entre os temas que serão
debatidos na conferência, estão financiamento climático de US$ 1,3 trilhão,
transição energética justa e indicadores de adaptação.
Na opinião dos especialistas
ouvidos pela reportagem, este é o momento de o presidente Lula articular apoios
de diversos países e buscar soluções para riscos já evidentes. Além disso, o
país deve aproveitar a Assembleia-Geral para fortalecer alianças multilaterais.
Segundo eles, os principais
desafios são a hostilidade do governo Trump em relação à agenda climática e às
dificuldades logísticas em Belém, como a escassez de hotéis — o que aumentou os
custos para as delegações e provocou a desistência de alguns governos de enviar
representantes.
R7

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