As ondas de calor de 2003 e 2022 causaram a morte de cerca de 70.000 e 61.000 pessoas, respectivamente, principalmente entre os idosos. Julie SEBADELHA / AFP
No país mais populoso da UE,
algumas localidades podem chegar a 40 °C, como em Mannheim, no sudoeste, de
acordo com o serviço meteorológico nacional
Após atingir Espanha, Portugal e França com
temperaturas extremas, a onda de calor precoce que sobrecarrega milhões de
europeus deslocou-se nesta quarta-feira (2) para o leste do continente, pouco
acostumado com picos de calor. Na Alemanha, o país mais populoso da UE, algumas
localidades podem chegar a 40 ºC, como em Mannheim, no sudoeste, de acordo com
o serviço meteorológico nacional. Em Berlim, onde se esperava uma máxima de 37
ºC, a maioria das piscinas ao ar livre estava cheia no meio da tarde. “É um
pouco como uma sauna”, comenta Nora, de 18 anos, que vende morangos em um
quiosque de uma rua comercial da capital alemã. “Trouxe dois litros de água
fresca e estou tentando beber bastante”, confessa.
Essas ondas de calor são
“preocupantes”, mas “o que é pior é que ninguém na política se interessa, ou
não se interessa o suficiente”, lamenta Marga, mãe de dois filhos, em
Frankfurt. Em Dresden, no leste do país, as margens do Elba estão secando e o
rio está evaporando: o nível da água caiu para 64 cm, em comparação com uma
média anual de 2 metros. “Normalmente, esperamos níveis de água como este
apenas em agosto e setembro”, afirma Matthias Roeser, da associação alemã de
navegação fluvial. O calor também chegou à Bélgica, onde as temperaturas
ultrapassaram os 35 ºC, e o Atomium, o famoso monumento de aço inoxidável em
Bruxelas, permaneceu fechado na tarde desta quarta-feira. Os Países Baixos
viveram sua primeira “noite tropical” do ano, com temperaturas acima de 20 ºC.
“De primeira necessidade”
Embora as ondas de calor do verão
não sejam novidade, após décadas de combustão de carvão, petróleo e gás,
responsáveis pelo aquecimento global, ocorrem cada vez mais cedo ou mais tarde
no ano, fora das férias escolares no hemisfério norte, de junho a setembro. Na
França, os termômetros superaram na terça-feira os 40 °C no sul e os 38 °C em
Paris, onde foi ativado pela primeira vez o alerta vermelho em cinco anos. O
“pico mais intenso” já passou, afirmou o governo, que registrou duas mortes
como consequência de doenças relacionadas ao calor. A ministra da Transição
Ecológica, Agnès Pannier-Runacher, especificou que o país viveu seu segundo
junho mais quente “desde o início dos registros em 1900”.
A Espanha também registrou seu
junho mais quente, com uma média de 23,6°C, ainda mais alta do que a esperada
em julho e agosto. Portugal também quebrou um recorde em junho, atingindo
46,6°C no domingo em Mora, a cerca de 100 km de Lisboa. Diante desse calor
escaldante, a população faz o que pode para resistir. “Como aguento? Não saio
de casa. É preciso abrir as janelas cedo e por pouco tempo, no máximo até às
9h, fechar as persianas e trabalhar remotamente com o ar-condicionado ligado”,
explica Manuel Méndez, jornalista de 46 anos de Madri. “Ligo o ar-condicionado;
é caro, mas o considero como uma maneira de viver melhor. É como se aquecer no
inverno”, acrescenta. “Algo que era um acessório há 10 anos agora é de primeira
necessidade”.
“Pobreza energética”
Mas nem todas as famílias podem
arcar com essa despesa. “Não ligamos o ar-condicionado porque as famílias de
classe média não têm condições. A pobreza energética afeta a todos nós, que
precisam economizar para sobreviver”, lamenta Julia Muñoz, gerente de qualidade
de 60 anos. As temperaturas devem permanecer altas na Espanha nesta
quarta-feira, embora chuvas e tempestades possam começar em algumas áreas,
especialmente no norte e nordeste, principalmente na Catalunha, Aragão e nos
Pireneus. Um homem de 75 anos morreu em Córdoba, na Andaluzia (sul), elevando
pelo menos a quatro o número de mortes relacionadas ao calor na Espanha nos
últimos dez dias.
Outras duas pessoas morreram na
terça-feira na Catalunha, onde um incêndio florestal devastou mais de 1.800 hectares,
e uma criança de dois anos faleceu na mesma região após permanecer várias horas
em um carro estacionado ao sol. A avaliação do impacto da onda de calor levará
meses. As ondas de calor de 2003 e 2022 causaram a morte de cerca de 70.000 e
61.000 pessoas, respectivamente, principalmente entre os idosos. Segundo os
cientistas, os fenômenos meteorológicos extremos, como ondas de calor e
tempestades, estão se tornando cada vez mais intensos devido às mudanças
climáticas.
Com informações da AFP

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