Comunidade judaica também
repudia posicionamento do chefe de Estado, que classificou ações israelenses de
'terroristas'
O posicionamento do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de equiparar
as ações de Israel às do grupo terrorista Hamas tem potencial de
trazer barreiras ainda maiores para a saída
de brasileiros e familiares de Gaza. A avaliação de especialistas em
relações internacionais ouvidos pelo R7 é de que as falas,
classificadas de "equivocadas" e "extremamente infelizes e
inoportunas", prejudicam a diplomacia brasileira, legitimam o Hamas e
tiram a relevância do país para tentar mediar o conflito no Oriente
Médio.
Na última segunda-feira (13),
durante evento no Palácio do Planalto, o petista afirmou que "as
consequências da solução do Estado de Israel são tão graves quanto foram as do
Hamas". Ainda na segunda, ao receber brasileiros repatriados de Gaza, o
presidente reafirmou as declarações. No dia seguinte, durante o programa Conversa com o Presidente, nas redes
sociais, ele
fez novas comparações. "É verdade que houve ataque terrorista do
Hamas, mas o comportamento de Israel fazendo o que está fazendo com criança,
hospital, com mulheres [...] é igual ao terrorismo", declarou. As
falas geraram
reações de lideranças judaicas e representantes
da comunidade israelense.
'Diplomacia ultrapessoal'
O diplomata e professor Paulo
Roberto de Almeida afirma que Lula exerce uma "diplomacia
ultrapessoal", que tende a se agravar neste terceiro mandato. "As
diplomacias dos outros mandatos foram ou são exacerbadamente pessoais, ou
recorrentemente personalistas, levando ao exagero a noção de diplomacia
presidencial. O que temos atualmente é personalismo em estado puro, que beira a
loucura nos improvisos destrambelhados, o que prejudica enormemente a
diplomacia profissional", critica, completando que "Lula não tem
conhecimento nem estatura de estadista para conduzir a diplomacia da
nação".
"Lula, com suas declarações
improvisadas e altamente prejudiciais à diplomacia profissional, não apenas
dificulta a saída de mais brasileiros da Faixa de Gaza como retira do Brasil
credibilidade para participar de um debate ou diálogo para a solução do drama
palestino", completa.
Para a professora de direito
internacional da Universidade de São Paulo (USP) Maristela Basso, as falas do
presidente podem, "sem dúvida", dificultar a saída de mais
brasileiros de Gaza. O grupo com 32 repatriados da região chegou ao Brasil
na noite de segunda-feira (13) e foi recebido pessoalmente por Lula. Foram mais
de três semanas de espera pela permissão das autoridades envolvidas na guerra
para cruzar a fronteira e chegar ao Egito.
"De agora em diante, será
muito difícil tirar brasileiros da zona de conflito. Isso não significa que
eles não sairão. Contudo, a concessão de salvos-condutos para a saída será
dificultada pelas autoridades israelenses, e os brasileiros serão colocados no
fim da fila", avalia a professora.
As comparações feitas por Lula
são, na leitura de Maristela, "extremamente infelizes e inoportunas".
"Primeiro, porque são equivocadas. A guerra em curso travada por Israel
contra o Hamas não implica terrorismo. Pode se questionar se Israel está se
excedendo no uso da força, mas não sustentar que esteja praticando terrorismo
ou genocídio. Segundo, porque, no plano das relações internacionais, se fala o
menos possível. Palavras e declarações devem ser pensadas e sopesadas porque
geram consequências, muitas vezes negativas. Nem sempre o que se quer dizer é o
que os demais países entendem", pondera.
A especialista acredita que as
declarações do presidente já causaram ruídos diplomáticos. "Vai ser muito
difícil corrigir agora a rota das relações entre Brasil e Israel e entre Brasil
e aliados israelenses. Todos vamos sentir recrudescerem as relações
diplomáticas, de amizade e comerciais entre Brasil e Israel", completa a
professora.
Embora uma segunda lista de
brasileiros interessados em sair da Faixa de Gaza ainda não tenha sido
oficializada pelo Ministério das Relações Exteriores, a cientista política
Denilde Holzhacker acredita que as declarações do presidente "devem
dificultar" novos atendimentos. "As falas aumentam ainda mais a
tensão na relação com Israel, além de provocar forte repúdio na comunidade
judaica brasileira", avalia.
Para a especialista, o governo
federal dá legitimidade ao Hamas com as falas de Lula e, se quisesse adotar tom
crítico a Israel, poderia ter buscado outras formas, como fizeram alguns países
que conderam ações que atingiram civis. "Ao equiparar as ações, o governo
legitima o Hamas e os atos terroristas. Além disso, as falas parecem atender
muito mais aos grupos de esquerda no Brasil. Mesmo países como China e África
do Sul, também críticos às ações israelenses, mantêm uma posição diferente do
Brasil. Essas falas do presidente Lula, o mesmo que aconteceu com a guerra
entre Ucrânia e Rússia, prejudicam mais do que ajudam a credibilidade
internacional do Brasil", completa Denilde.
Apesar de reconhecer que as
palavras de Lula foram "fortes", especialmente no mundo diplomático,
o cientista político Rubens Duarte acredita que a retirada de brasileiros de
Gaza é uma questão complexa, independentemente do posicionamento de Lula. "Essas
missões de retirar pessoas de áreas de conflito são inerentemente muito
complexas, pois envolvem um esforço de dialogar com países e com grupos em meio
a sérias hostilidades. Outros países também estão com dificuldades semelhantes
ao Brasil quando tentam resgatar seus nacionais, inclusive tradicionais
parceiros de Israel no mundo ocidental, como Estados Unidos, Reino Unido e
França."
Repatriados
O grupo com os brasileiros e
parentes repatriados de Gaza passou mais de três semanas à espera da permissão
das autoridades envolvidas na guerra para cruzar a fronteira e chegar ao Egito.
A bordo da aeronave cedida pela
Presidência da República, estavam 9 mulheres, 6 homens e 17 crianças, 2 delas
com quadro de desnutrição, que desembarcaram primeiro e foram levadas para
ambulâncias. No Brasil, os repatriados receberam atendimento de saúde, com
atualização de vacinas, auxílio de assistentes sociais e psicólogos, além de
serviço de emissão de documentos.
Nesta quarta-feira (15), os
repatriados de Gaza começaram a ser conduzidos para diversas localidades do
país. Um voo com 26 pessoas pousou pela manhã no aeroporto de Guarulhos, em São
Paulo, após deixar a Base Aérea de Brasília.
Os resgatados
do conflito entre o grupo terrorista Hamas e Israel têm como destino cidades
de São Paulo, Novo Hamburgo (RS), Cuiabá (MT) e Florianópolis (SC). Apenas
quatro pessoas ficarão em Brasília e já foram deslocadas para a casa de
familiares que moram no Distrito Federal.
Além dos 32 passageiros que
deixaram Gaza, desde o início do conflito entre o Hamas e Israel o governo
federal já repatriou 1.445 brasileiros e familiares. O número contabiliza oito
voos vindos de Israel e um da Jordânia, todos comandados pela Força Aérea
Brasileira (FAB) na Operação Voltando em Paz. Além das pessoas, 53 animais de
estimação foram resgatados.
Bruna Lima e Ana Isabel Mansur, do R7, em Brasília

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